A transição suave Por Denize Bacoccina

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Como FHC e Lula em 2002, Bush e Obama fazem uma passagem de comando marcada pela civilidade. Pelo menos no apagar das luzes, o atual presidente está se saindo bem |
No apagar das luzes, o presidente George W. Bush está mostrando uma competência que lhe faltou durante boa parte dos oito anos de poder. A presença dele na campanha foi rejeitada pelo candidato John McCain, que temia perder votos ao aparecer ao lado de um presidente pato manco, como se diz por lá, com pouco mais de 20% de aprovação popular. Mas, apenas 12 minutos depois que as emissoras de televisão confirmaram a vitória de Obama e ainda antes que McCain fizesse seu discurso aceitando a derrota, Bush telefonou para parabenizar o novo presidente eleito e prometeu "uma transição suave". E assim tem sido. As equipes de campanha já tinham acesso a algumas informações do governo, mas dois dias depois da eleição a equipe de transição começou a trabalhar dentro dos gabinetes do governo e Obama passou a receber relatórios secretos de inteligência. Seis dias depois, o 43º e o 44º presidentes se encontraram e conversaram, sem assessores, no Salão Oval da Casa Branca.
Se cometeu muitos erros em seu governo, Bush, parece, está se saindo muitíssimo bem na hora de deixar o poder. "Nosso país enfrenta um desafio econômico que não vai parar para que um presidente se ajuste", disse Bush em seu primeiro programa de rádio depois da eleição, ao reafirmar que faria o possível para facilitar a vida do seu sucessor. "Apesar de reconhecer que só temos um presidente de cada vez e que o presidente Bush é o líder do nosso governo, eu quero assegurar que nós vamos estar prontos no dia 20 de janeiro porque não temos um segundo a perder", disse Obama no mesmo dia. O discurso de que só há um presidente de cada vez ainda foi repetido em algumas ocasiões, mas na última semana, quando o presidente eleito anunciou sua equipe econômica, já tinha virado coisa do passado. Obama não parece mais constrangido com a impressão de que já está dando as cartas. Ele já participou do socorro ao Citigroup e na quinta-feira 27 telefonou para a secretária de Estado Condoleezza Rice para obter detalhes sobre o ataque terrorista na Índia. A permanência de Robert Gates à frente do Departamento de Defesa também mostra que Obama não está disposto a jogar no lixo todo o governo atual. A justificativa dada por ele para se defender das críticas de que seu gabinete tem vários integrantes de governos anteriores é que não pode abrir mão da experiência num momento em que a economia vive a maior crise dos últimos tempos. É também o cumprimento de uma promessa de campanha de que o gabinete seria formado pela competência e não pela credencial partidária.
É um cenário bem diferente daquele encontrado por Bush na transição com Bill Clinton. Entre os problemas enfrentados pela nova equipe ao chegar para trabalhar na Casa Branca, um parece brincadeira de câmpus: a letra W, apelido de Bush, tinha desaparecido do teclado de dezenas de computadores. Um sinal de que a herança maldita deixada por Bush talvez não seja completamente maldita. O risco é acontecer como no Brasil. A civilidade da transição no atual governo foi elogiada pelos dois lados e confirmada pela amabilidade entre Lula e Fernando Henrique na hora de trocar a faixa, mas durou pouco: logo a gentileza e a admiração mútuas deram lugar a uma troca de acusações que até hoje mantém PT e PSDB, apesar das semelhanças programáticas, em lados opostos da política brasileira. |