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| Foto: RENATO VELASCO |
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Crucifixo giratório
Dom Waldyr Calheiros deixa a diocese de Volta Redonda, uma das
mais politizadas do País, ataca Ciro e diz que se o PT insistir
com Lula é burrice
ANA CARVALHO
Expoente máximo da Pastoral Operária,
o bispo de Volta Redonda (RJ), dom Waldyr Calheiros, entrará
de férias em janeiro para não voltar mais. Em fevereiro,
será substituído pelo italiano João Maria Messi,
bispo de Irecê (BA), 65 anos, nome silencioso nos embates
ideológicos da Igreja no Brasil. Dificilmente o bispo retirado
do sertão baiano repetirá em Volta Redonda, uma das
dioceses mais politizadas do País, o barulho feito durante
33 anos pelo colega que sai.
Aos 75 anos, dom Waldyr deixa os metalúrgicos
fragilizados pela luta travada entre CUT e Força Sindical
desde a privatização da Companhia Siderúrgica
Nacional, em 1996. Este ano, ele marcou seu último gol contra
a empresa. Convidado pela CUT para o ato de 1º de maio, não
compareceu porque os cutistas vetaram a Força: Eu jamais
abençoaria a divisão que mata operá-rios com
salários baixos. Dias depois, abraçaria CUT
e Força no mesmo palanque para derrotar a proposta da CSN
de ampliar o turno de trabalho.
Em sua sala austera, dom Waldyr já recebeu
o poderoso Benjamin Steinbruch, presidente do conselho de administração
da CSN, e a presidente da empresa, Maria Sílvia Bastos Marques,
cujo charme não foi suficiente para dobrar a língua
incandescente do bispo. Quando a CSN doou uniformes a escolas municipais,
ele declarou que a empresa forçava crianças a fazer
propagada para quem demitia seus pais. Dom Waldyr, que invadiu em
1968 o I Batalhão de Infantaria Blindada declarando-se criminoso
para tentar ser preso no lugar dos fiéis, deixa o cargo desafiador
como sempre, atirando críticas à esquerda e à
direita. Diz que seria uma burrice a quarta candidatura
de Lula a presidente e classifica Ciro Gomes como bom nome
para a burguesia. É mordaz também com o padre
pop Marcelo Rossi: É um catolicismo mais light do que
evangélico.
ISTOÉ - Em 33 anos de briga, qual
foi sua maior conquista como bispo?
Dom Waldyr Calheiros - Tive grandes momentos aqui, mas acho
que minha tarefa principal foi descentralizar a diocese para a periferia.
Também me marcou muito ver leigos e fiéis usando a
Igreja para apoiar os metalúrgicos na greve de 1988, quando
o Exército matou três operários na CSN. O coronel
que comandava o destacamento me ligou uma noite, depois da missa,
pedindo pelo amor de Deus para que as comunidades eclesiais de base
(Cebs) não impedissem mais os operários de ir trabalhar.
As Cebs fechavam os bairros. Quando vi os poderosos com medo das
Cebs, pensei: Agora posso ir em paz, porque o Senhor chegou
em Volta Redonda.
ISTOÉ - O sr. acredita que os sindicatos voltem
a ter a força de antes?
Dom Waldyr - Enquanto os sindicatos e as centrais jogam pedras
uns nos outros, os operários vão se afundando, mas
Força Sindical e CUT têm dado sinais de aproximação.
Há esperança. O fato de termos dado as mãos
na luta contra a redução do turno de trabalho de oito
para seis horas indica uma disposição das centrais
de se aproximarem. A CSN fez uma pressão muito grande, amea-çou
muitas demissões para tirar a CUT do comando do sindicato
dos metalúrgicos. Naquela época, a Força pregava
uma parceria com a empresa e era a alternativa contra a CUT combativa.
Eu os recebi na Cúria e disse que achava essa busca pelo
diálogo algo impensável. Disse a eles: Parceria
se faz entre iguais, nunca entre vocês e o capital. A deles
é com o diabo, a nossa é com o povo. Na parceria,
o mais fraco é sempre submisso ao dominador e não
há como ter parceria entre capital e trabalho.
ISTOÉ - O sr. é cutista?
Dom Waldyr - Eu não. Há muitas idéias
deles das quais discordo. Este ano, a Força manifestou intenção
de participar do ato de 1º de maio, mas a CUT vetou. Então
eu me recusei a participar. Quem pensava que eu era cutista, percebeu
que sou dos operários. No mesmo mês, estávamos
todos contra a redução da jornada. Em novembro, houve
outro abraço de todos para homenagear os mortos pelo Exército
em 1988. Eu já disse a eles que, quando se cansarem de jogar
pedras uns nos outros, podem deixar as pedras lá na Cúria,
fazer sua luta comum e voltar depois para pegar as pedras de novo,
se quiserem continuar. O importante é que os operários
não podem mais sofrer com essa divisão insana. Não
podemos esquecer também que os sindicatos estão massacrados
no País todo. O neoliberalismo avassalador já mostra
sinais de cansaço, mas o capital satânico sempre procura
maneiras de sobreviver. A informática, por exemplo, deveria
ser um bem para todos, mas só é boa para o capital,
só demite.
ISTOÉ - Que balanço o sr. faz da privatização
da CSN?
Dom Waldyr - O capital é diabólico mesmo, não
joga um tostão fora. Eles preferem jogar fora os trabalhadores
mais velhos, mais bem pagos, e contratar jovens com salários
menores. Já acabaram com 16 mil empregos, estão com
nove mil e querem reduzir para cinco mil. Sabe o que fazem também?
Demitem o sujeito que é especialista e, meses depois, contratam
o cara de novo, com o salário muito menor do que antes. Além
disso, minha briga maior com Benjamin Steinbruch é que ele
dispensou os fornecedores locais para importar tudo do Paraná
e de São Paulo. Isso não se faz, não se pode
mergulhar a cidade no desespero do desemprego. O Benjamin veio três
vezes aqui. Houve uma época em que ele queria o apoio dos
trabalhadores para se eleger presidente do conselho administrativo
da CSN. E eu com isso? Não é minha praia. Além
disso, ele tem um projeto que não é o meu. Ele me
disse que está concorrendo com os Estados Unidos e com a
Alemanha, e por isso tem de cortar gastos para jogar os preços
lá embaixo. Veio explicar demissões. O capitalismo
é danado, é terrível. Dizem que acabou a fase
da CSN mãe de Volta Redonda. Eu digo que agora é a
fase da madrasta.
ISTOÉ - O sr. é a favor de economia estatizada?
Dom Waldyr - Devem ser feitas privatizações,
mas não o esbanjamento do patrimônio nacional como
o governo está fazendo. Há empresas que o Estado deveria
manter para evitar o monopólio e o cartel privado, como acontece
com o aço. Em Volta Redonda, a privatização
foi imoral. O governador Itamar Franco, que vendeu a empresa quando
era presidente, não tem moral para ficar agora gritando contra
qualquer privatização, pelo estrago que fez em Volta
Redonda. Foi um estrago muito grande. É hipocrisia o que
ele faz agora, esse discurso todo. Quem comprou a CSN levou junto
dois terços das terras desocupadas do município de
Volta Redonda, que pertenciam à estatal. A prefeitura nem
tem terreno para adotar um programa de atrair novas empresas, dar
incentivos. O que a CSN pode ganhar com projetos imobiliários
nessas terras é um dinheiro maior do que tudo o que os empresários
pagaram pela estatal.
ISTOÉ - Que balanço o sr. faz do governo
Fernando Henrique Cardoso?
Dom Waldyr - Na dimensão social, a situação
é muito dolorosa. Mesmo eleito dentro da defesa desse modelo,
o governo poderia fazer uma opção um pouco mais corajosa
em favor dos menos favorecidos, não ceder tanto e não
facilitar tanto a ocupação total do País. Já
que quer mesmo abrir o mercado a empresas estrangeiras desse jeito,
poderia ao menos impor a elas impostos para amenizar as consequências
do desemprego, como fazem outros países, como a França
e a Inglaterra. Muitas privatizações lesam o patrimônio
nacional e ainda geram muito desemprego. Como defender isso?
ISTOÉ - O combate à miséria proposto
pelo senador Antônio Carlos Magalhães não é
uma novidade?
Dom Waldyr - É uma campanha eleitoreira, só
e unicamente. Quando é que seu partido, o PFL, vai se ocupar
com a pobreza? Nunca. Simplesmente porque isso não é
possível. Quem faz opção pelo rico não
pode optar pelo pobre. Se ele apoiasse a reforma agrária
e se seu partido se empenhasse nisso, empurrariam o PSDB também.
É o melhor combate à miséria que poderia ser
feito num país como o nosso. Você acredita que ele
vai fazer isso? Não estou muito por dentro dos bastidores
da política, mas acho que está na cara que o senador
quer se eleger presidente. O País deve ficar alerta porque
ele vai repetir a opção de sempre pelos mais ricos.
ISTOÉ - O sr. é socialista?
Dom Waldyr - Não sei o que sou. Acho que o modelo
de socialismo que existiu foi um fracasso. Entre o socialismo derrotado
e o capitalismo vencedor, dou um pelo outro e não peço
nada de volta. Sonho com a utopia de um socialismo democrático
e participativo, uma alternativa para o modelo existente, que, por
ser cruel demais, parece já estar cansando a humanidade.
ISTOÉ - O sr. é petista?
Dom Waldyr - Eu não. Não sou de partido nenhum
porque partido tem uma dimensão parcial. Não me comprometo
com nada parcial. Posso votar no PT nacionalmente, mas o PT daqui,
por exemplo, é fraco. Me parece uma legenda que se preocupa
com as necessidades dos trabalhadores, mas nem sempre está
do lado dos excluídos. Há outras legendas que se preocupam
com os trabalhadores também.
ISTOÉ - O PT tem chance de chegar à Presidência?
Dom Waldyr - Não obstante a cultura que Lula adquiriu,
a classe média não o aceitará nunca. Sem classe
média, não se ganha eleição. Não
tenho sugestão de nome porque estou fora da vida dos partidos,
mas é burrice insistir com Lula. Como dizia um amigo meu,
irritado com o apoio insistente dos alagoanos a Fernando Collor:
errar é humano, permanecer no erro é alagoano.
ISTOÉ - Ciro Gomes pode ser o nome da oposição?
Dom Waldyr - É só um pouco mais leve do que
isso que está aí. É um bom nome para a burguesia
dominante.
ISTOÉ - E o governador do Rio, Anthony Garotinho?
Dom Waldyr - Me parece ainda um garotinho. Deixa crescer
mais.
ISTOÉ - O sr. aprova o movimento dos carismáticos,
como o padre Marcelo Rossi?
Dom Waldyr - Há alguns irmãos que acreditam
que a maneira de se atrair fiéis é só com manifestações
públicas. Temo que isso seja uma disputa de igrejas. Tenho
certeza de que isso é repetir o passado de uma igreja de
massa que facilmente se dilui para outras propostas religiosas.
Nossa preocupação é formar comunidades cristãs
evangélicas que pratiquem o Evangelho de Jesus e se dediquem
à celebração do Concílio Vaticano II,
de uma igreja voltada para a vida e a desgraça do povo de
Deus. Do jeito que fazem, é um catolicismo mais light do
que evangélico.
ISTOÉ - Os progressistas perdem espaço
para os conservadores na Igreja?
Dom Waldyr - Acho que há muitos irmãos que
não conhecem o Concílio Vaticano II ou então
o esqueceram. Tudo aquilo que aparece, de triunfalismo e de ostentação,
não é o que o Vaticano II pregava. Ele apontou para
uma Igreja voltada para a sorte, a vida e a desgraça do povo
de Deus. Acho que não precisamos de outro concílio,
mas de pôr em prática o Vaticano II.
ISTOÉ - O momento é de recuo dos progressistas?
Dom Waldyr - Não vejo isso. Acho que o clero brasileiro
viu a realidade do povo e não vai esquecer disso. Essa conversa
de que estamos enfraquecidos não bate com a realidade. Em
Volta Redonda, por exemplo, tínhamos cinco locais para celebração
da missa dominical e hoje temos 104. Essa preocupação
continua existindo, mas não aparece na mídia. A CNBB
está firme, está aí e não vai deixar
passar nada. Houve uma briga danada no último encontro de
Itaici. A chapa que queria puxar a Igreja para trás, para
antes do Concílio Vaticano II, deu um trabalho danado, mas
nós conseguimos manter o negócio. Derrotamos os que
queriam puxar a CNBB para o conservadorismo. O clero está
consciente e na CNBB não passa nada. Estamos firmes como
sempre, mas o que aparece é o padre Rossi, o Zeca, o padre
pop.
ISTOÉ - O sr. protestou contra a nomeação
para o Superior Tribunal Militar do general José Luiz Lopes
da Silva, que comandava a 9ª Brigada da Vila Militar quando
as tropas do Exército invadiram a CSN. Acha possível
ainda reverter essa escolha de FHC?
Dom Waldyr - Acho que agora não dá mais, está
sacramentado. Lamento muito porque foi uma decisão de premiar
a violência. Na ocasião, esse general chegou a declarar
que as mortes dos três operários deveriam servir de
lição. Deu uma lição de violência.
Sua nomeação foi uma afronta à cidade que se
viu invadida e desrespeitada. Não só pelos três
mortos que ele deixou, mas também pelos 40 feridos, alguns
mutilados. É muito ruim ver que o governo premia aquilo que
diz querer combater, a violência. O presidente, que defendia
os direitos humanos no passado, consagrou um crime contra a pessoa
humana. Se os mortos fossem jovens da burguesia, esse general não
teria essa promoção. Minha esperança é
de que se acabe com a Justiça Militar e o STM. Num país
que busca a democracia, não vejo sentido na existência
de um tribunal militar.
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