157401 de dezembro de 1999  
Foto: RENATO VELASCO

Crucifixo giratório
Dom Waldyr Calheiros deixa a diocese de Volta Redonda, uma das mais politizadas do País, ataca Ciro e diz que se o PT insistir com Lula é burrice

ANA CARVALHO

Expoente máximo da Pastoral Operária, o bispo de Volta Redonda (RJ), dom Waldyr Calheiros, entrará de férias em janeiro para não voltar mais. Em fevereiro, será substituído pelo italiano João Maria Messi, bispo de Irecê (BA), 65 anos, nome silencioso nos embates ideológicos da Igreja no Brasil. Dificilmente o bispo retirado do sertão baiano repetirá em Volta Redonda, uma das dioceses mais politizadas do País, o barulho feito durante 33 anos pelo colega que sai.

Aos 75 anos, dom Waldyr deixa os metalúrgicos fragilizados pela luta travada entre CUT e Força Sindical desde a privatização da Companhia Siderúrgica Nacional, em 1996. Este ano, ele marcou seu último gol contra a empresa. Convidado pela CUT para o ato de 1º de maio, não compareceu porque os cutistas vetaram a Força: “Eu jamais abençoaria a divisão que mata operá-rios com salários baixos.” Dias depois, abraçaria CUT e Força no mesmo palanque para derrotar a proposta da CSN de ampliar o turno de trabalho.

Em sua sala austera, dom Waldyr já recebeu o poderoso Benjamin Steinbruch, presidente do conselho de administração da CSN, e a presidente da empresa, Maria Sílvia Bastos Marques, cujo charme não foi suficiente para dobrar a língua incandescente do bispo. Quando a CSN doou uniformes a escolas municipais, ele declarou que a empresa forçava crianças a fazer propagada para quem demitia seus pais. Dom Waldyr, que invadiu em 1968 o I Batalhão de Infantaria Blindada declarando-se criminoso para tentar ser preso no lugar dos fiéis, deixa o cargo desafiador como sempre, atirando críticas à esquerda e à direita. Diz que “seria uma burrice” a quarta candidatura de Lula a presidente e classifica Ciro Gomes como “bom nome para a burguesia”. É mordaz também com o padre pop Marcelo Rossi: “É um catolicismo mais light do que evangélico.”

ISTOÉ - Em 33 anos de briga, qual foi sua maior conquista como bispo?
Dom Waldyr Calheiros - Tive grandes momentos aqui, mas acho que minha tarefa principal foi descentralizar a diocese para a periferia. Também me marcou muito ver leigos e fiéis usando a Igreja para apoiar os metalúrgicos na greve de 1988, quando o Exército matou três operários na CSN. O coronel que comandava o destacamento me ligou uma noite, depois da missa, pedindo pelo amor de Deus para que as comunidades eclesiais de base (Cebs) não impedissem mais os operários de ir trabalhar. As Cebs fechavam os bairros. Quando vi os poderosos com medo das Cebs, pensei: “Agora posso ir em paz, porque o Senhor chegou em Volta Redonda.”

ISTOÉ - O sr. acredita que os sindicatos voltem a ter a força de antes?
Dom Waldyr - Enquanto os sindicatos e as centrais jogam pedras uns nos outros, os operários vão se afundando, mas Força Sindical e CUT têm dado sinais de aproximação. Há esperança. O fato de termos dado as mãos na luta contra a redução do turno de trabalho de oito para seis horas indica uma disposição das centrais de se aproximarem. A CSN fez uma pressão muito grande, amea-çou muitas demissões para tirar a CUT do comando do sindicato dos metalúrgicos. Naquela época, a Força pregava uma parceria com a empresa e era a alternativa contra a CUT combativa. Eu os recebi na Cúria e disse que achava essa busca pelo diálogo algo impensável. Disse a eles: “Parceria se faz entre iguais, nunca entre vocês e o capital. A deles é com o diabo, a nossa é com o povo.” Na parceria, o mais fraco é sempre submisso ao dominador e não há como ter parceria entre capital e trabalho.

ISTOÉ - O sr. é cutista?
Dom Waldyr - Eu não. Há muitas idéias deles das quais discordo. Este ano, a Força manifestou intenção de participar do ato de 1º de maio, mas a CUT vetou. Então eu me recusei a participar. Quem pensava que eu era cutista, percebeu que sou dos operários. No mesmo mês, estávamos todos contra a redução da jornada. Em novembro, houve outro abraço de todos para homenagear os mortos pelo Exército em 1988. Eu já disse a eles que, quando se cansarem de jogar pedras uns nos outros, podem deixar as pedras lá na Cúria, fazer sua luta comum e voltar depois para pegar as pedras de novo, se quiserem continuar. O importante é que os operários não podem mais sofrer com essa divisão insana. Não podemos esquecer também que os sindicatos estão massacrados no País todo. O neoliberalismo avassalador já mostra sinais de cansaço, mas o capital satânico sempre procura maneiras de sobreviver. A informática, por exemplo, deveria ser um bem para todos, mas só é boa para o capital, só demite.

ISTOÉ - Que balanço o sr. faz da privatização da CSN?
Dom Waldyr - O capital é diabólico mesmo, não joga um tostão fora. Eles preferem jogar fora os trabalhadores mais velhos, mais bem pagos, e contratar jovens com salários menores. Já acabaram com 16 mil empregos, estão com nove mil e querem reduzir para cinco mil. Sabe o que fazem também? Demitem o sujeito que é especialista e, meses depois, contratam o cara de novo, com o salário muito menor do que antes. Além disso, minha briga maior com Benjamin Steinbruch é que ele dispensou os fornecedores locais para importar tudo do Paraná e de São Paulo. Isso não se faz, não se pode mergulhar a cidade no desespero do desemprego. O Benjamin veio três vezes aqui. Houve uma época em que ele queria o apoio dos trabalhadores para se eleger presidente do conselho administrativo da CSN. E eu com isso? Não é minha praia. Além disso, ele tem um projeto que não é o meu. Ele me disse que está concorrendo com os Estados Unidos e com a Alemanha, e por isso tem de cortar gastos para jogar os preços lá embaixo. Veio explicar demissões. O capitalismo é danado, é terrível. Dizem que acabou a fase da CSN mãe de Volta Redonda. Eu digo que agora é a fase da madrasta.

ISTOÉ - O sr. é a favor de economia estatizada?
Dom Waldyr - Devem ser feitas privatizações, mas não o esbanjamento do patrimônio nacional como o governo está fazendo. Há empresas que o Estado deveria manter para evitar o monopólio e o cartel privado, como acontece com o aço. Em Volta Redonda, a privatização foi imoral. O governador Itamar Franco, que vendeu a empresa quando era presidente, não tem moral para ficar agora gritando contra qualquer privatização, pelo estrago que fez em Volta Redonda. Foi um estrago muito grande. É hipocrisia o que ele faz agora, esse discurso todo. Quem comprou a CSN levou junto dois terços das terras desocupadas do município de Volta Redonda, que pertenciam à estatal. A prefeitura nem tem terreno para adotar um programa de atrair novas empresas, dar incentivos. O que a CSN pode ganhar com projetos imobiliários nessas terras é um dinheiro maior do que tudo o que os empresários pagaram pela estatal.

ISTOÉ - Que balanço o sr. faz do governo Fernando Henrique Cardoso?
Dom Waldyr - Na dimensão social, a situação é muito dolorosa. Mesmo eleito dentro da defesa desse modelo, o governo poderia fazer uma opção um pouco mais corajosa em favor dos menos favorecidos, não ceder tanto e não facilitar tanto a ocupação total do País. Já que quer mesmo abrir o mercado a empresas estrangeiras desse jeito, poderia ao menos impor a elas impostos para amenizar as consequências do desemprego, como fazem outros países, como a França e a Inglaterra. Muitas privatizações lesam o patrimônio nacional e ainda geram muito desemprego. Como defender isso?

ISTOÉ - O combate à miséria proposto pelo senador Antônio Carlos Magalhães não é uma novidade?
Dom Waldyr - É uma campanha eleitoreira, só e unicamente. Quando é que seu partido, o PFL, vai se ocupar com a pobreza? Nunca. Simplesmente porque isso não é possível. Quem faz opção pelo rico não pode optar pelo pobre. Se ele apoiasse a reforma agrária e se seu partido se empenhasse nisso, empurrariam o PSDB também. É o melhor combate à miséria que poderia ser feito num país como o nosso. Você acredita que ele vai fazer isso? Não estou muito por dentro dos bastidores da política, mas acho que está na cara que o senador quer se eleger presidente. O País deve ficar alerta porque ele vai repetir a opção de sempre pelos mais ricos.

ISTOÉ - O sr. é socialista?
Dom Waldyr - Não sei o que sou. Acho que o modelo de socialismo que existiu foi um fracasso. Entre o socialismo derrotado e o capitalismo vencedor, dou um pelo outro e não peço nada de volta. Sonho com a utopia de um socialismo democrático e participativo, uma alternativa para o modelo existente, que, por ser cruel demais, parece já estar cansando a humanidade.

ISTOÉ - O sr. é petista?
Dom Waldyr - Eu não. Não sou de partido nenhum porque partido tem uma dimensão parcial. Não me comprometo com nada parcial. Posso votar no PT nacionalmente, mas o PT daqui, por exemplo, é fraco. Me parece uma legenda que se preocupa com as necessidades dos trabalhadores, mas nem sempre está do lado dos excluídos. Há outras legendas que se preocupam com os trabalhadores também.

ISTOÉ - O PT tem chance de chegar à Presidência?
Dom Waldyr - Não obstante a cultura que Lula adquiriu, a classe média não o aceitará nunca. Sem classe média, não se ganha eleição. Não tenho sugestão de nome porque estou fora da vida dos partidos, mas é burrice insistir com Lula. Como dizia um amigo meu, irritado com o apoio insistente dos alagoanos a Fernando Collor: errar é humano, permanecer no erro é alagoano.

ISTOÉ - Ciro Gomes pode ser o nome da oposição?
Dom Waldyr - É só um pouco mais leve do que isso que está aí. É um bom nome para a burguesia dominante.

ISTOÉ - E o governador do Rio, Anthony Garotinho?
Dom Waldyr - Me parece ainda um garotinho. Deixa crescer mais.

ISTOÉ - O sr. aprova o movimento dos carismáticos, como o padre Marcelo Rossi?
Dom Waldyr - Há alguns irmãos que acreditam que a maneira de se atrair fiéis é só com manifestações públicas. Temo que isso seja uma disputa de igrejas. Tenho certeza de que isso é repetir o passado de uma igreja de massa que facilmente se dilui para outras propostas religiosas. Nossa preocupação é formar comunidades cristãs evangélicas que pratiquem o Evangelho de Jesus e se dediquem à celebração do Concílio Vaticano II, de uma igreja voltada para a vida e a desgraça do povo de Deus. Do jeito que fazem, é um catolicismo mais light do que evangélico.

ISTOÉ - Os progressistas perdem espaço para os conservadores na Igreja?
Dom Waldyr - Acho que há muitos irmãos que não conhecem o Concílio Vaticano II ou então o esqueceram. Tudo aquilo que aparece, de triunfalismo e de ostentação, não é o que o Vaticano II pregava. Ele apontou para uma Igreja voltada para a sorte, a vida e a desgraça do povo de Deus. Acho que não precisamos de outro concílio, mas de pôr em prática o Vaticano II.

ISTOÉ - O momento é de recuo dos progressistas?
Dom Waldyr - Não vejo isso. Acho que o clero brasileiro viu a realidade do povo e não vai esquecer disso. Essa conversa de que estamos enfraquecidos não bate com a realidade. Em Volta Redonda, por exemplo, tínhamos cinco locais para celebração da missa dominical e hoje temos 104. Essa preocupação continua existindo, mas não aparece na mídia. A CNBB está firme, está aí e não vai deixar passar nada. Houve uma briga danada no último encontro de Itaici. A chapa que queria puxar a Igreja para trás, para antes do Concílio Vaticano II, deu um trabalho danado, mas nós conseguimos manter o negócio. Derrotamos os que queriam puxar a CNBB para o conservadorismo. O clero está consciente e na CNBB não passa nada. Estamos firmes como sempre, mas o que aparece é o padre Rossi, o Zeca, o padre pop.

ISTOÉ - O sr. protestou contra a nomeação para o Superior Tribunal Militar do general José Luiz Lopes da Silva, que comandava a 9ª Brigada da Vila Militar quando as tropas do Exército invadiram a CSN. Acha possível ainda reverter essa escolha de FHC?
Dom Waldyr - Acho que agora não dá mais, está sacramentado. Lamento muito porque foi uma decisão de premiar a violência. Na ocasião, esse general chegou a declarar que as mortes dos três operários deveriam servir de lição. Deu uma lição de violência. Sua nomeação foi uma afronta à cidade que se viu invadida e desrespeitada. Não só pelos três mortos que ele deixou, mas também pelos 40 feridos, alguns mutilados. É muito ruim ver que o governo premia aquilo que diz querer combater, a violência. O presidente, que defendia os direitos humanos no passado, consagrou um crime contra a pessoa humana. Se os mortos fossem jovens da burguesia, esse general não teria essa promoção. Minha esperança é de que se acabe com a Justiça Militar e o STM. Num país que busca a democracia, não vejo sentido na existência de um tribunal militar.

 
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