21 de maio de 1997

    abertura

    editorias
    política/brasil
    a semana
    comportamento
    economia & negócios
    internacional
    artes & espetáculos
    ciência & tecnologia

    seções
    entrevista
    imagem da semana
    estação da luz - links
    gente
    polêmica
    editorial
    datas
    cartas

    serviços
    arquivo
    busca
    assine ISTOÉ
    expediente
    fale com a gente





"Seremos todos obesos"
Médico do cantor Milton Nascimento, o americano Steven Lamm garante que os gordos não são preguiçosos e que a obesidade é um caso de saúde pública

Foto: PEDRO AGILSON

Lamm: "Antes de ser uma falha de caráter, a obesidade é biológica, como a asma"

OSMAR FREITAS JR., DE NOVA YORK

Quando os boatos sobre a saúde do cantor Milton Nascimento atingiram o ponto de ebulição maldosa, foi a voz de um americano que serviu para aclarar a situação. "Milton não está infectado com o HIV", disse o dr. Steven Lamm com exclusividade para ISTOÉ, na ocasião. A afirmação não poderia vir carregada de maior autoridade. Embora desconhecido da maioria dos brasileiros, o dr. Lamm é respeitadíssimo no establishment médico americano. De seu currículo consta o mérito, entre outros, de ser professor assistente da Clínica Geral da Escola de Medicina da Universidade de Nova York. É membro da Comissão Presidencial sobre Assuntos Médicos Universitários - um importante organismo governamental americano - e também faz parte da Comissão Atlética do Estado de Nova York. Mas é em sua clínica na rua 68, quase esquina com a Quinta Avenida - um dos endereços mais prestigiados de Manhattan -, que ele mantém as provas maiores de seu sucesso.

Foi em seu consultório que ele atendeu Milton, e também ali estão as fotos de celebridades que testemunham, de próprio punho, os bons serviços do dr. Lamm. Lá estão o guitarrista Eric Clapton e os cantores Rod Stewart e Frank Sinatra, entre outros. Um desses bons serviços é o best-seller Enfim magro (R$ 19), lançado há dois anos nos Estados Unidos, mas que recebeu edição brasileira somente em fevereiro último. Em suas 256 páginas, a obra procura dar novo sentido à questão da obesidade. "A obesidade é uma condição médica, e não uma falha de caráter", garante Lamm. Além de tirar o peso da responsabilidade das costas das pessoas gordas, o médico ainda explica sua teoria sobre a eterna batalha entre agentes químicos no cérebro humano, onde se disputa a primazia sobre o apetite. Em seu consultório, o dr. Lamm recebeu ISTOÉ na semana passada para reconfirmar seus diagnósticos sobre a obesidade do mundo em geral e da magreza particular de seu cliente Milton Nascimento.

ISTOÉ - O seu livro saiu no Brasil depois de dois anos de sua publicação nos Estados Unidos. Houve a atualização dos conceitos na edição brasileira?
Steven Lamm - Sim, claro que atualizei os conceitos, pois aconteceram muitas inovações durante esse período. É muito excitante ver como esse campo continua mudando, sempre dinâmico. Hoje em dia existe uma atitude completamente nova a respeito da obesidade. Na época em que escrevi esse livro, todo mundo achava que obesidade era uma falha de caráter. Acreditava-se que o problema estava relacionado com um defeito moral do obeso. Achava-se que as pessoas eram obesas por serem também estúpidas e preguiçosas. O que nós tentamos mostrar no livro é que a obesidade é um fenômeno biológico: é como, por exemplo, ter enxaqueca ou asma. E, assim, nós deveríamos começar a olhar a obesidade como sendo um problema médico. Não se trata de um problema psicológico.

ISTOÉ - Poderia explicar um pouco mais essa condição médica?
Lamm - Há uma força no cérebro das pessoas, exatamente no hipotálamo, que determina o peso das pessoas. É lá onde se determina uma medida, um ponto ideal, a que chamamos de "Set Point" (Ponto de Acomodação). É muito difícil para alguém sair de seu "Set Point": a pessoa pode perder ou ganhar uns cinco quilos, mas dificilmente um ser normal conseguirá perder para sempre 20 ou 30 quilos. E, enquanto nós continuarmos a culpar as pessoas por sua obesidade, em vez de tratá-las por sua condição biológica, ninguém vai conseguir chegar a nenhum ponto de acomodação.

ISTOÉ - Mas os próprios obesos acreditam que têm certo grau de responsabilidade.
Lamm - As pessoas obesas geralmente entram num quadro de profunda depressão e realmente têm sentimentos de inadequação. O obeso acredita, como a maioria das outras pessoas, que existe algo de errado com seu modo de vida ou com seu caráter. Os magros acham também que têm mais força de vontade do que os gordos. É preciso que todo mundo aprenda que obesidade não é uma questão de força de vontade. Obesidade é uma questão de genes. Não se deve culpar ninguém por uma condição genética.

ISTOÉ - Toda vez que alguém ganha alguns quilos está obedecendo às tirânicas determinações genéticas ou isso só ocorre nos casos dos obesos?
Lamm - Não, quando alguém engorda um bocadinho, muito provavelmente a culpa é do aumento do consumo de carboidratos e gorduras. Os genes são responsáveis pela condição da obesidade.

ISTOÉ - E quão volumoso é o problema da obesidade no mundo?
Lamm - Não existem dados confiáveis sobre o problema da obesidade no mundo. Mas dá para se ter uma idéia. Nos Estados Unidos, sabemos, a obesidade afeta entre 30% e 40% da população. Se nós formos definir obesidade dentro dos padrões europeus, que são mais rígidos, aí então será possível dizer que a obesidade afeta 50% dos americanos. Acontece que as pessoas neste país acham muito vergonhoso aceitar que metade da população é obesa.
ISTOÉ - Como se sabe que uma pessoa é obesa e não simplesmente gordinha?
Lamm - Nós medimos a pessoa, pesamos o seu corpo e chegamos a uma medida que, nós americanos, chamamos de "BMI", ou seja, "Body Mass Index" (Índice da Massa Corporal), que é o modo universal para avaliar obesidade. Para se chegar a este índice nós dividimos o seu corpo pela sua altura. E os dados indicam que os americanos vão logo ultrapassar o patamar dos 50% de obesos na população.

ISTOÉ - Mas será que não existem também razões sociais para esse problema?
Lamm - Claro que existem razões sociais. Nós temos cada vez mais abundância de alimentos baratos, saborosos e ricos em carboidrato. Cada vez mais nós encontramos McDonald's neste mundo. Em 1986, a cadeia McDonald's estava ancorada em 44 países. Hoje, está presente em 101 nações. E, com os chamados fast foods ficando mais disponíveis, a tendência é de cada vez mais pessoas engordarem. Some-se a isso o fato de que os homens fazem cada vez menos exercícios e de que também existe um aumento das tensões do cotidiano, o chamado stress. Assim vamos ficando cada vez mais gordos. Portanto, existe um componente que tem raízes sociais. Porém, existem pessoas que jamais serão gordas, não importa que comam dez Big Macs por dia. Isso porque os genes dessa gente não permitem que isso aconteça.
ISTOÉ - Quer dizer então que as pessoas não engordam simplesmente porque comem muito?
Lamm - Nós comemos porque estamos com fome; e também comemos porque estamos agitados. Quanto mais agitados estivermos maior será nosso apetite. Quanto maior for o caos em nossas vidas, como, por exemplo, os problemas no trabalho ou na família, maior será o nosso estímulo para comer. Porque a comida, particularmente carboidratos - batata, pão, arroz etc -, tem o poder de relaxar o cérebro, eles funcionam como tranquilizantes. Assim, não se trata de um acidente. Quando você fica agitado, lhe dá vontade de comer. Porém, pessoas que são naturalmente magras não respondem aos efeitos tranquilizantes desses alimentos. A tendência a responder a esses alimentos é que é geneticamente determinada. Num caso de stress, a pessoa vai ficar sabendo de seu potencial genético. Eu garanto que, se uma pessoa ganhou cerca de sete a dez quilos num determinado ano - garanto -, esta pessoa está debaixo de enorme stress.

ISTOÉ - De acordo com essa teoria, a comida então é uma espécie de droga, que, além de dar um certo barato, ainda vicia a pessoa?
Lamm - É mais ou menos isso. Você come, sente-se bem. O problema é que a comida também o torna obeso. A química do cérebro, debaixo de certas circunstâncias, acaba incentivando a compulsão à comida e à gordura.

ISTOÉ - O problema é que essa equação parece ser aplicável apenas aos que têm dinheiro para comer. Não é verdade que rico é que tem problemas com obesidade?
Lamm - Hoje em dia, a população mais gorda é aquela que está situada nos extratos econômicos mais baixos. São pobres que comem pior. É evidente que essa equação exclui os absolutamente pobres, aqueles chamados miseráveis. Porém, são os pobres que sofrem maiores níveis de stress e também estão engordando cada vez mais. Note que os carboidratos costumam ser mundialmente mais baratos. Desse modo, os pobres é que estão ficando mais gordos.

ISTOÉ - Pode ser que isso seja verdade nos Estados Unidos, mas no Brasil os pobres aparentam magreza.
Lamm - Como eu disse: desta equação devem ser excluídos os miseráveis, que não podem comer nada. No entanto, a obesidade, como fenômeno que atinge mais brutalmente os pobres, me parece ter caráter mundial. Tanto nos Estados Unidos como - aposto - também no Brasil, isso é verdade. Os pobres estão ficando obesos por causa do stress que suportam e também da má qualidade dos alimentos que consomem.

ISTOÉ - E essa equação stress-comida-gordura é um fenômeno que atinge homens e mulheres igualmente?
Lamm - As mulheres tradicionalmentese cuidam mais. Elas vão mais ao médico, por exemplo. Estão acostumadas a ir ao ginecologista rotineiramente, no clínico geral, no dermatologista. Isso mostra que elas tomam conta melhor de seus corpos. Já os homens acham que é pouco macho ir ao médico. E são os homens que estão tendo mais ataques cardíacos, mais derrames e ficando cada vez mais obesos. Além disso, as mulheres encaram a obesidade não apenas sob a ótica cosmética - da beleza plástica de seu corpo - mas também a partir do pressuposto de sua própria saúde física. Elas sabem que a gordura representa perigo. Veja: 80% dos casos de diabetes neste país são resultado da gordura; 30% dos casos de pressão alta seguem o mesmo pressuposto; artrite, problemas de vesícula e mais uma infinidade de outros problemas somam-se à lista. Nos Estados Unidos, a obesidade causa mais doenças e males do que qualquer coisa, exceto o tabaco. São 300 mil mortes relacionadas à obesidade por ano. A obesidade custa a este país US$100 bilhões anuais - isto em custos de tratamentos de saúde para diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares etc.

ISTOÉ - Nós não temos esse tipo de despesas no Brasil, mas certamente o problema é grande. Qual é sua estimativa do quadro brasileiro?
Lamm - Não tenho estatísticas sobre o Brasil em particular, mas acredito que o problema é universal. Recentemente, vi estatísticas sobre o Japão. Isso mesmo, o Japão que a gente se habituou a imaginar como sendo um país de gente esbelta. O que se vê hoje em dia é que os japoneses estão ficando tão gordos quanto os americanos. E eu aposto com qualquer um que os europeus e sul-americanos estão trilhando o mesmo caminho. Os brasileiros não estão vivendo num mundo à parte. Pode ser que a proporção não seja como nos Estados Unidos, onde uma em cada três ou quatro pessoas é gorda. Mas note que, à medida que o Brasil fica mais farto em termos de alimentos industrializados e próspero em atividades econômicas, seus habitantes vão ficando mais obesos.

ISTOÉ - O futuro, então, é gordo?
Lamm - Em nossa era, quando alguém precisar enviar uma carta, não precisará mais ir até o correio; para isso existe a Internet. As pessoas não têm de sair de casa. Para pedir pizza, basta que se levante o telefone. Que tipo de exercícios o homem está fazendo? O que se tem é um consumo enorme de carboidrato e cada vez menos exercícios. Que chances nós temos? Nosso futuro é a obesidade. A menos que nós encaremos a situação como um problema de saúde pública. E existem remédios, como eu mostro em meu livro, contra essa situação.

ISTOÉ - Os carboidratos são comparados às drogas e em seu livro há substâncias que podem combater os efeitos viciantes da comida. O futuro dos obesos estará em outras drogas?
Lamm - A parte do cérebro que lida com a vontade de comer é a mesma que lida com a sede ou que lida também com o controle da temperatura do corpo. Você conseguiria, só com o poder de sua força de vontade, controlar a temperatura de seu corpo? Claro que não. A pessoa aguenta o frio intenso ou o calor sufocante somente até certo ponto. Para suportar essas situações é preciso procurar ajuda. Por todo o mundo, e em particular nos Estados Unidos, no Rockefeller Institute, os cientistas estão isolando as substâncias químicas que determinam o modo como uma pessoa come. Nós já conhecemos, e eu falo disso no livro, substâncias químicas como neuropeptidey, galanin, leptin etc, que nesse exato momento estão em guerra em seu cérebro. São substâncias que não eram bem conhecidas pouco tempo atrás. Hoje sabemos que são elementos químicos que fazem uma pessoa comer. Se eu lhe aplicar agora, no exato ponto, uma boa dose de neuropeptidey, você sairá imediatamente para comprar um sanduíche. Por outro lado, se eu lhe der uma dose exata de leptin, você vai parar de comer. Assim, existe literalmente uma batalha ocorrendo no cérebro da pessoa. Quando um desses elementos químicos consegue a supremacia, a pessoa passa a comer mais, ou a comer menos. Tudo é uma questão de dosagem química. E existem remédios contra a compulsão de alimentar-se.

ISTOÉ - Parece contraditório, mas justamente quem escreveu um livro sobre os problemas da obesidade acabou diagnosticando os problemas da magreza do cantor e compositor Milton Nascimento.
Lamm - O Milton Nascimento chegou aqui com diabetes e anorexia. Eu sei que ele ficou superchateado com os boatos de que estava aidético. Posso testemunhar com base em meu conhecimento médico e a partir dos exames laboratoriais que Milton fez na ocasião que ele não estava infectado com o HIV. A infecção que Milton Nascimento tinha era no dente. E isso foi resolvido por um dentista.




Copyright 1996, 1997 Editora Três