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26 de fevereiro de 1997

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Uma pastoral gay
O padre José Antônio Trasferetti, professor de teologia moral na PUC de Campinas, defende a participação dos homossexuais na Igreja

Foto: RICARDO GIRALDEZ

O padre Trasferetti: "Homossexualismo é uma opção e não uma anomalia"

RITA MORAES

Nos últimos dois anos, o padre José Antônio Trasferetti, 38 anos, foi diversas vezes chamado de "padre gay" e "padre das bichas". Em 1995, ele foi premiado com o troféu Triângulo Rosa, conferido pelo Grupo Gay da Bahia, o mais ativo defensor dos direitos dos homossexuais no Brasil. O padre ganhou o prêmio pelo empenho em abrir as portas da Igreja para os homossexuais. Responsável pela paróquia de São Geraldo Magela, na periferia de Campinas, em São Paulo, Trasferetti começou a se envolver com o tema por causa da proximidade geográfica. Sua igreja é vizinha de um dos pontos de prostituição da cidade. Professor de teologia moral na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, ele encontrou na campanha da fraternidade de 1995, que tratava dos excluídos, o argumento que faltava para assumir um projeto inovador. Desde então, o padre passou a convocar travestis e homossexuais que faziam ponto na região a participar do trabalho da comunidade. Trasferetti entende que muitos homossexuais têm fé, mas estavam afastados da Igreja por serem tratados como excluídos sociais. Ele considera o homossexualismo uma opção e não um pecado ou anomalia, como sustentam os preceitos da Igreja, seguidamente reafirmados pelo papa João Paulo II. Nesta entrevista a ISTOÉ, o padre conta como tem conseguido superar as críticas feitas pela comunidade e agita sua principal bandeira: a criação de uma pastoral gay, a exemplo das que existem para as questões da terra ou dos negros.

ISTOÉ -Por que o sr. começou a trabalhar com homossexuais, mesmo sabendo que a Igreja Católica só admite as relações sexuais para a procriação?
José Antônio Trasferetti - Minha paróquia está em uma região onde habitam cerca de 60 mil pessoas. Bem próximo a ela fica a zona de prostituição da cidade, por onde também circulam gays e travestis. Trabalhei aqui pela primeira vez entre 1983 e 1987, mas não despertei para essa gente. Depois fui para Roma, onde defendi duas teses, e voltei em 1994. Só atentei para os homossexuais com a Campanha da Fraternidade de 1995, que tratava dos excluídos. Foi assim que percebi o quanto essas pessoas são excluídas, inclusive pela Igreja, e até se auto-excluem. Então, comecei um trabalho de aproximação.

ISTOÉ - E como foi essa aproximação? Como o sr. foi recebido?
Trasferetti - Constatamos que só no centro de Campinas circulam cerca de 300 travestis. Descobri que em uma única casa, próxima à minha igreja, moravam nove deles e fui fazer uma visita. No início, ficaram ressabiados, mas mostraram um grande interesse em manter uma amizade e também em frequentar a igreja. O primeiro pedido feito por esse grupo de travestis foi uma Bíblia e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Depois de vários encontros com os homossexuais foi possível saber que a maioria deles acredita em Deus, foi batizada na Igreja e tem profunda religiosidade. Eles são oriundos de famílias vindas da roça, com forte formação católica.

ISTOÉ - O homossexualismo é visto como um pecado pela Igreja. Como, então, levar pessoas que vivem em permanente pecado para dentro da Igreja?
Trasferetti - Essa é uma questão de tolerância. Não podemos ser tão severos. Em qualquer paróquia encontramos jovens que praticam sexo antes do casamento, muitos com 15, 16 anos. Muitas moças casam grávidas, há os que vivem juntos sem serem casados. Outros abandonam o primeiro casamento e se casam de novo e muitos são infiéis em seus casamentos. São situações que, se forem encaradas ao pé da letra, colocam todos fora da Igreja. Mas a Igreja é tolerante. No caso dos homossexuais, a coisa é diferente.

ISTOÉ - Por quê?
Trasferetti - A Igreja não aceita a prática do homossexualismo. Se o sujeito for gay, porém casto, não está cometendo nenhum pecado. A Igreja considera as relações genitais entre pessoas do mesmo sexo um ato desordenado, uma anomalia. Isso precisa ser revisto. Há casais homossexuais que vivem 15, 20 anos juntos, que são íntegros, trabalham e são felizes em seu modo de ser.

ISTOÉ - O sr., então, é um rebelde, que discorda da posição da Igreja?
Trasferetti - Eu sou padre. O problema é que tenho na região de minha paróquia homossexuais, travestis que têm famílias aqui, que são religiosos e acho que devo dar atenção a eles. A Igreja entende que o modo de vida deles está errado, mas não vou também discriminá-los. Assim como recebo os outros que não vivem de acordo com os preceitos da Igreja, os recebo também. Defendo que não basta condená-los. A Igreja deveria dar mais atenção a essa gente e acabar com a homofobia.

ISTOÉ - Mas, para o sr., o homossexualismo é uma anomalia?
Trasferetti - Acho que é uma opção de vida. Mas é preciso fazer certa distinção. Há homossexuais anômalos e heteros anômalos. Um tarado, por exemplo, é anormal mesmo sendo heterossexual. A anomalia não está em ser hetero ou homo e sim na forma como o indivíduo vive a sua condição sexual.

ISTOÉ - E como enfrentar essa distinção?
Trasferetti - Falta ao nosso tempo uma educação sexual mais rígida, uma educação ética e moral mais rígida. Vivemos uma época de crise ética. Os valores e até a própria vida perderam o sentido. Mata-se, engravida-se ou perde-se a virgindade como se estivesse assistindo à televisão. Tudo está banalizado. Os valores humanos estão banalizados.

ISTOÉ - O que fazer diante desse quadro?
Trasferetti - Mais do que controlar moralmente as pessoas, temos que trabalhar para uma educação ética do povo brasileiro. Esse é um trabalho exclusivo da Igreja, que perdeu muito espaço na mídia. Temos que ajudar a juventude a encontrar seus caminhos com mais responsabilidade.

ISTOÉ - E nesses caminhos aos quais o sr. se refere está a aceitação da homossexualidade?
Trasferetti - O grande desafio é encontrar um meio que eduque mas não castre. A sexualidade não é uma questão exata, cartesiana. Outro dia, um paroquiano casado e com filhos veio até aqui para me narrar seu drama. Ele disse que amava a esposa, mas não se sentia totalmente feliz, pois tinha tendências homossexuais. Conheço pessoas que viveram mais de 30 anos como heterossexuais e depois se encontraram em uma relação homossexual. Em janeiro, estive na Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos Estados Unidos, e assisti a debates e palestras sobre a homofobia. Lá, encontrei um padre que se declarou publicamente homossexual e celibatário. A Igreja não pode condená-lo.

ISTOÉ - Qual é exatamente o trabalho que o sr. desenvolve com os homossexuais?
Trasferetti - É um trabalho para ajudá-los a descobrir sua verdadeira identidade. Na verdade, minha idéia não é transformá-los em heteros, mas evitar que a opção sexual seja um elemento que desagregue a família. Muitos, quando começam a se descobrir gays, passam por um período muito difícil. Não encontram apoio na família, nem na escola, nem no trabalho. Não podemos fechar mais uma porta a eles.

ISTOÉ - Qual foi a reação da comunidade ao perceber que o sr. estava empenhado na aproximação com os gays?
Trasferetti - No começo houve muita preocupação. Muitos tinham dificuldades para entender esse comportamento e vieram perguntar se a igreja não ficaria cheia de homossexuais, se era certo um gay entrar na igreja. Outros me trataram com deboche, chegavam a dizer: "Lá vem o padre das bichas." Mas não tardaram a aceitar, até porque minha paróquia abriga muitos familiares desses homossexuais.

ISTOÉ - E na PUC, onde o sr. leciona teologia moral?
Trasferetti - Dentro da sala de aula, transmito apenas o pensamento da Igreja e não minha posição pessoal. O tema, no entanto, gerou grande interesse entre os estudantes. Grande parte usou de ironia. Alguns me procuraram para contar discretamente que eram gays. Mas o fato de tornar público o meu trabalho contribuiu para a formação de um grupo de estudantes homossexuais, que se chama Expressão e tem como presidente um aluno do curso de direito.

ISTOÉ - Recentemente, alguns padres e até bispos que tomaram posições mais progressistas dentro da Igreja acabaram sofrendo represálias da hierarquia. Com o sr. há algum tipo de cerceamento?
Trasferetti - Não. O arcebispo de Campinas, dom Gilberto Pereira Lopes, apenas me pediu para ficar atento e que o tema fosse tratado com a delicadeza e profundidade que merece. O vice-presidente da CNBB, dom Jaime Chemello, deu uma entrevista em Campinas na qual reconheceu a importância de meu trabalho junto aos homossexuais.

ISTOÉ - O sr. imagina, então, que a Igreja pode vir a aceitar o homossexualismo como uma opção?
Trasferetti - Essa é uma questão muito complicada. Entendo que o papa João Paulo II é um progressista na questão social. É um papa que defende a luta pelos direitos humanos, que fala e cobra a reforma agrária e melhor distribuição de renda, que tece críticas aos governos autoritários e prioriza a justiça social. Mas, sob o ponto de vista institucional, ele é extremamente ortodoxo.

ISTOÉ - Esta postura rígida não é um dos componentes responsáveis pela diminuição de fiéis da Igreja Católica no Brasil?
Trasferetti - É claro. Não só de fiéis como também de padres e de agentes pastorais. Na assistência às pessoas, o importante é não insistir nas regras, nos dogmas. Com viciados, prostituídos, não podemos insistir na doutrina. Primeiro temos que acolhê-los. No futuro, podemos até transformar essas pessoas. Não se vê na televisão, nos testemunhos da Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, o sujeito dizendo que era viciado e que de repente se converteu? É preciso dialogar com a sociedade e nesse diálogo mudar certas posições. A Igreja precisa, por exemplo, discutir os direitos do homossexual como discute o de qualquer ser humano. A Igreja Católica precisa escutar os sinais do tempo. É preciso uma certa abertura.

ISTOÉ - Inclusive em sua hierarquia? Na questão do celibato, por exemplo, vários padres estão deixando a Igreja para se casar e os seminários não estão formando gente em quantidade suficiente. Não há uma crise mais séria?
Trasferetti - Sim. O jovem que quer ser missionário no Amazonas seria celibatário para se dedicar a grandes causas. Outro que quer trabalhar na cidade, numa paróquia, deveria poder se casar. A Igreja precisa pensar na ordenação de homens casados. Tenho aqui na comunidade pessoas profundamente boas, capazes e que poderiam ser ordenadas padres. A situação de esvaziamento da Igreja é preocupante. Hoje, um padre atende a diversas paróquias e algumas podem ter até mais de 100 mil habitantes. O pároco não pode dar conta sozinho e tudo está centralizado no padre. É preciso descentralizar.

ISTOÉ - O sr. acredita que projetos como o da deputada Marta Suplicy (PT-SP), que legaliza a união civil de duas pessoas do mesmo sexo, podem fazer com que os homossexuais se sintam menos excluídos?
Trasferetti - Independentemente de se aceitar ou não o homossexualismo, acho que projetos desse tipo tratam de cidadania, de direitos humanos e por isso são muito importantes. Até mesmo a Igreja que condena o homossexualismo fala, em diversos documentos, que não se deve permitir a exclusão seja de negros ou índios.

ISTOÉ - Mas a Igreja ou se omite ou critica projetos como esse. O sr. nunca foi advertido por defender essas posições?
Trasferetti - Sim. Muitos citaram a Bíblia para dizer que eu estava errado. Há dois textos do Levítico que se referem diretamente ao homossexualismo e o condenam, falam que é uma coisa abominável um homem deitar-se com outro homem. No Novo Testamento, tem dois ou três textos de São Paulo que também condenam o homossexual. Mas, nos evangelhos que relatam a prática de Jesus, não há nenhuma condenação.

ISTOÉ - No Gênesis, narra-se a criação do homem e da mulher...
Trasferetti - Quem escreveu a Bíblia foram os homens. Por que Adão pecou? Por culpa da mulher. Essa não deixa de ser uma interpretação machista. Ao mexer com esse tema se mexe com o fundamento da história da humanidade.

ISTOÉ - No Brasil, há outros padres que desenvolvam trabalhos semelhantes ao seu?
Trasferetti - Conheço artigos de alguns teólogos, mas não tenho ciência de nenhuma outra paróquia que faça um trabalho voltado para esse segmento da população. Defendo a criação de uma pastoral do homossexual justamente para poder ampliar e enriquecer essa experiência. É importante dizer que não estamos falando do homossexual que vai para Miami. Me refiro sempre aos pobres, que não têm acolhida em nenhum outro lugar. Um sem-terra, por exemplo, é excluído, mas participa da sociedade. Os gays não. Principalmente os travestis.

ISTOÉ - Mesmo em sua comunidade eles ainda se sentem excluídos?
Trasferetti - Muitos vão para a Igreja, mas dizem que ainda se sentem clandestinos. Principalmente os travestis, embora alguns já estejam trabalhando em suas comunidades, onde vivem suas famílias.

ISTOÉ - Em 1995, o sr. foi escolhido pelo Grupo Gay da Bahia como uma das sete personalidades mais importantes e recebeu o troféu Triângulo Rosa, o Oscar dos homossexuais brasileiros. Como foi receber essa homenagem?
Trasferetti - Foi o reconhecimento de meu trabalho. É bom que a sociedade saiba que há um padre defendendo os homossexuais e que acha que a Igreja deve mudar de comportamento. Porém, muitas pessoas ironizaram o prêmio. Me chamaram de padre gay, mas lhes disse que um padre não precisa ser negro para defender os negros.

ISTOÉ - O que o sr. achou da campanha de prevenção da Aids veiculada no Carnaval deste ano?
Trasferetti - Esse negócio de falar bota a camisinha nele, bota a camisinha no peru... Na verdade isso não está educando ninguém. Isso não envolve responsabilidade. No meu entender, você está estimulando o seguinte: bota a camisinha e mete o pau. Perdeu-se um espaço para transmitir valores mais sólidos.




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