![]() 1 de julho de 1998 |
![]() Base aérea Brasil Documentos secretos descrevem o afundamento de submarinos do Eixo na costa brasileira e mostram o poderio americano no País nos anos 40
IVAN PADILLA, DE NATAL (RN)
Os relatórios de ação trazem as coordenadas de latitude e longitude dos naufrágios, velocidade e altitude em que os aviões voavam, condições do tempo, nome dos comandantes, pilotos e fotógrafos a bordo e número de mortos e sobreviventes. Alguns chegam a reproduzir os diálogos entre os pilotos e as torres de comando. O número de submarinos afundados também é novidade e tudo indica que ainda não é o definitivo. Seis outros ataques a submarinos são citados nos documentos, mas sem dados que permitam confirmação. No livro A última guerra romântica, editado pelo Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica, em 1993, o brigadeiro Ivo Gastaldoni faz referência ao afundamento de apenas 12 submarinos, e faz a ressalva: "Há discrepâncias entre arquivos ingleses, alemães e americanos, que poderão induzir a distorções."
Perdidos nos porões dos arquivos do Departamento de Guerra, do Departamento de Estado, do FBI, da CIA e dos serviços de inteligência militar e naval americanos, os documentos foram resgatados pelo pesquisador Leonardo Barata, 38 anos, diretor do Museu da Aviação e da Segunda Guerra Mundial, em Natal. Ele passou um mês enfurnado no Arquivo Nacional, em Washington, onde está abrigada a recente memória americana, em busca de documentos para o acervo do museu. "Levei um susto. Não imaginava encontrar tantos registros", afirma Barata, que embarca no próximo mês para Washington para continuar as pesquisas. De acordo com os documentos que ele encontrou, a atuação dos americanos no Brasil foi muito mais ampla do que se tinha conhecimento. Já se sabia que as primeiras frotas de submarinos do Eixo Alemanha, Japão e Itália invadiram o Atlântico depois que os Estados Unidos entraram na guerra, em dezembro de 1941. Inicialmente, a ação ficou restrita às águas entre Venezuela e Canadá. Quando o governo brasileiro abandonou a posição de neutralidade que tentava manter e rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, as manobras foram ampliadas para o Atlântico Sul. Na época, o presidente Getúlio Vargas fazia um estratégico jogo duplo. Ao mesmo tempo que endossava o pan-americanismo pregado pelos Estados Unidos, o Estado Novo emitia sinais de amizade aos regimes fascistas Vargas chegou a mandar, em abril de 1941, um telegrama de felicitações pelo aniversário ao ditador alemão Adolf Hitler. Quando, pressionado pelos Estados Unidos, o Brasil entrou no confronto a favor dos aliados, em agosto de 1942, navios brasileiros começaram a ser atacados. Entre fevereiro de 1942 e julho de 1944, submarinos italianos e alemães bombardearam 31 embarcações brasileiras. Alguns ataques causaram muitas baixas, como o afundamento do Baependy, no litoral de Sergipe, em agosto de 1942, quando 270 passageiros morreram. Os americanos despacharam para as águas brasileiras a 4ͺ Frota Naval e a 16ͺ Esquadrilha da Força Aérea, responsáveis então pela proteção aos comboios de navios e pelas ações anti-submarinos. Entre os documentos resgatados pelo Museu da Aviação estão diários de guerra, planos de estratégia, relatórios da inteligência americana, fichas de autoridades brasileiras e de supostos espiões nazistas, que ajudam a entender a acirrada disputa pela zona marítima brasileira. Um dos quatro pontos geograficamente mais estratégicos da guerra, ao lado do canal de Suez e dos estreitos de Gibraltar e de Dardanelos, Natal é citada como epicentro geopolítico da área entre o Amapá e o Rio de Janeiro, chamada de "região de Natal", em um estudo da inteligência militar do Departamento de Guerra americano, de 14 de maio de 1941. Segundo avaliação dos ianques, Natal era, junto com o eixo GroenlândiaTerra NovaCanadá, uma das duas únicas rotas viáveis para uma invasão aos Estados Unidos. Em Natal, foi construída a Parnamirim Field, maior base aérea americana fora dos Estados Unidos. Pela base, chamada pelos aliados de trampolim da vitória, passaram durante o período em que durou o confronto cerca de 15 mil soldados, metade da população de Natal de então. A proximidade com o continente africano transformou-a na mais importante das 25 instalações militares operadas pelas forças americanas estacionadas no Brasil. Baseados em Parnamirim, os americanos supriram com aviões, munições e equipamentos os britânicos nas ações no Norte da África e no front ChinaÍndiaBirmânia. Os americanos chegaram a arquitetar uma invasão militar do território brasileiro, antes da definição de Vargas, que culminaria com o desembarque de 100 mil soldados em Natal, Recife, Belém e Salvador, como previsto no documento "Plano de Teatro de Operações do Nordeste", revelado por ISTOÉ (edição 1234, maio de 1993). Os documentos encontrados agora desvendam os estudos preliminares para a invasão. O relatório "Natal, visto por um ângulo militar", enviado por William Burdett, encarregado de Negócios no Brasil, para o secretário de Estado dos Estados Unidos, em 16 de outubro de 1940 diz: "O aeroporto não é guardado por tropas ou polícia... aviões de transporte vindos da África ou Açores podem surpreender tropas terrestres e ocupar Natal e outras cidades da corcunda do Brasil... O setor é vulnerável ao objetivo de ajudar a uma mudança de regime no Brasil e ao estabelecimento de um governo estrangeiro ou protetorado.... A chegada de um destróier americano pode produzir um bom efeito moral..." O Departamento de Guerra fez também um levantamento chamado "Um sobrevôo sobre a região de Natal no Brasil", mapeando governos, contingentes militares, polícias, a Igreja Católica, movimentos sindicais, aeroportos, rodovias, ferrovias, portos, docas, sistemas de comunicação e energia das principais cidades. A invasão militar não foi necessária. O estreitamento das relações entre Brasil e Estados Unidos culminou com o célebre passeio de jipe do presidente americano Franklin Roosevelt e de Vargas, em Parnamirim Field. Os serviços de inteligência americanos registraram muitas atividades de espionagem alemã no Brasil. O escritório do observador naval de Natal, responsável pelo comando dos serviços de informação, enviou, entre 1943 e 1944, mais de 400 relatórios à Diretoria da Inteligência Naval, em Washington. Um desses relatórios monta o perfil de mais de uma centena de potiguares e estrangeiros residentes, identificando aqueles que mantinham sentimentos pró-germânicos. O FBI, a Polícia Federal americana, comandada na época pelo lendário John Edgar Hoover, acompanhava os passos dos supostos espiões e investigava as companhias aéreas Lufthansa e Lati-Linee Aeree Transcontinentali Italiane, que operava a linha Roma Rio de Janeiro, via Natal. Todas as listas de passageiros, assim como os conteúdos das cargas eram detalhados nos informes. Os americanos revolucionaram os costumes locais. O filme For all, de Luís Carlos Lacerda e Buza Ferraz, em cartaz, retrata a época com humor. As festas semanais na base viravam a cabeça das moças e enciumavam os rapazes. Não foram poucos os namoricos entre americanos e brasileiras. Alguns renderam casamento, como no caso de Rhodi Galvão com o sargento Edward Shelman. Depois da guerra, os dois foram para Nova York, mas quando ele foi mandado para a Guerra da Coréia, Rhodi voltou a Natal com os filhos. "Minha mãe lembra das festas com saudosismo. Ninguém ia desacompanhada, para evitar falatórios", lembra Theresa Rose Shelman, 46 anos, filha de Rhodi. Às vezes, as festas tinham outras atrações além dos rapagões de olhos azuis. Passaram por lá, por exemplo, o ator Humphrey Bogart e a orquestra de Duke Ellington. Aliás, jazz era o ritmo do momento. Eram comuns também os exercícios de blecaute. Para treinar as defesas antiaéreas, as luzes da cidade eram desligadas de surpresa e as sirenes, acionadas. O comércio prosperou. Os americanos tinham fascínio por animais de estimação tropicais, e os malandros se aproveitaram disso. Como os saguis são irrequietos e mordem, muitos comerciantes embebedavam os macacos para que ficassem mais dóceis. Outros vendiam urubus recém-nascidos por papagaios. A plumagem verde cresceria depois. Era uma época em que Tio Sam já era muito forte, mas não sabia pegar no tamborim. Fotos do bombardeio do submarino italiano Archimedes, pelos aviões Catalina P-5 e P-12, e os diálogos entre os pilotos e a base de comando
R 15h08 83 P-5 para Base: "Avistado submarino"R 15h10 83 P-5 para Base: "Atacando submarino estou mandando Mos para Baker 414" R 15h15 83 P-5 para Base: "Continuamos atacando X submarino está atirando em nós" R 15h45 83 P-5 para Base: "Sub continua à vista" R 15h46 83 P-5 para Base: "Ataque atirou quatro bombas muito próximas X sub na superfície acredito estar danificado X meu combustível está baixo X advirto X posição 04-08S 31-20W" S 15h47 Base para 83 P-5: "Volte para PLE" S 16h10 Comando 4ͺ Frota para Base: "Tirar avião da barreira de varredura na necessidade de destruir o sub" R 16h10 83 P-5 para Base: "Avião 83 P-12 atacando o sub" R 16h16 83 P-5 para Base: "Submarino na superfície" R 16h25 83 P-5 para Base: "Sub (afundado) cerca de 25 sobreviventes nadando na água" S 16h26 Base para 83 P-5: "Sua mensagem foi mal-entendida X pergunta X submarino afundado" R 16h35 83 P-5 para Base: "50 sobreviventes na água" S 16h36 Base para 83 P-5: "Atire os barcos de borracha" R 16h47 83 P-12 para Base: "Sub positivamente afundado X estimados 30 homens na água X lançados 2 salva-vidas"
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