![]() 6 de maio de 1998 |
![]() Central do Brasil como ela é
FRANCISCO ALVES FILHOA Central do Brasil não tem segredos para Clara Mac Cord. Pelo menos 50 dos seus 76 anos de vida foram dedicados à estação ferroviária e sua gente – primeiro na condição de engenheira e, depois da aposentadoria, como responsável pela capela de Nossa Senhora de Santana, que funciona no grande hall. Na Central, ela conheceu o homem com quem se casou e viveu seus melhores dias. Do seu atual ponto de observação, um cubículo que décadas atrás serviu como sala de espera para passageiros VIP e depois foi adaptado para receber o altar, ela vê com tristeza a decadência do lugar. "Quando comecei a trabalhar aqui, isso fervilhava de gente bem-vestida e alegre. Hoje, o prédio está maltratado e o povo que passa é triste", lamenta. São pessoas assim, mulatos, negros, descendentes de nordestinos vindos de subúrbios longínquos que os trens enferrujados despejam diariamente, que serviram de personagens para o cineasta Walter Salles enfocar no seu premiado e concorrido filme. Até a semana passada, Central do Brasil havia sido visto por 600 mil pessoas. A própria Clara, sem saber, inspirou o figurino da personagem Dora, vivida por Fernanda Montenegro. Ela não viu o filme, mas ao descrever seu amor pela Central acabou traduzindo o sentimento do próprio diretor. "Aqui pulsa o coração do verdadeiro Brasil."
Entre a Central do Brasil fictícia e a real, no entanto, existem pequenas diferenças. Não há escrevedoras de carta na estação, nem tantos analfabetos como se imagina entre os 80 mil passageiros que a utilizam diariamente – eles não chegam a 2%, segundo pesquisa realizada em novembro pela Flumitrens. A personagem principal da obra de Walter Salles, que ganha a vida mantendo em dia a correspondência de clientes iletrados, não foi baseada neste universo e sim num fato da vida de uma ex-presidiária. Afora essas poucas licenças poéticas, a paisagem humana, a pobreza e o sofrimento são os mesmos retratados na tela como constata a faxineira Marta Lopes, 51 anos, moradora do município de Belford Roxo, que gasta três horas por dia esperando ou viajando sobre trilhos. "Os trens são muito cheios, às vezes atrasam até duas horas e a bagunça é muito grande. Eles fumam maconha na frente da gente." Como diarista, Marta consegue juntar dois salários mínimos mensais, na sua opinião o suficiente para sustentar sozinha seus quatro filhos – o marido morreu há quatro anos. Os passageiros mais jovens também reclamam, mas alguns se divertem e colaboram com o caos. São os que invadem as composições pelas janelas e praticam o surfe ferroviário. Entre eles encontram-se vários anônimos sem sobrenome – a exemplo da ficção de Salles – como o office-boy Leandro, 19 anos, que costuma viajar no teto dos trens. "Isso aqui vive lotado, mas, se não for assim, não chego nunca", justifica-se. Além dos passageiros, a Central e seus arredores contabilizam uma população estável formada por comerciantes, camelôs, meninos abandonados e prostitutas, muitas prostitutas. Uma das mais assíduas é a baiana Maxilene, 42 anos, que desde 1980 faz ponto no local e agora reclama da queda no movimento de clientes. "Cheguei a fazer 15 programas por dia e hoje raramente faço cinco", conta.
Não são poucos também os meninos abandonados que circulam pela estação e suas ruas próximas. Ao contrário do pequeno Josué – personagem de Central do Brasil, o filme –, que depois da morte da mãe passa a ziguezaguear pelo local, sem rumo, a maioria deles está ali porque fugiu de casa, empurrada pela miséria ou pela violência dos pais. Basta olhar para Jorge, um garoto de 11 anos que dorme sob a marquise e perambula entre os passageiros pedindo dinheiro. "Meu pai e minha mãe me batiam, então eu saí de casa faz dois anos", conta. Desde então, nunca mais voltou para o município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde deixou outros três irmãos. Jorge diz que na rua nunca sofreu violência e nega que use drogas, apesar de carregar na cintura uma lata amassada, artefato comum aos garotos que costumam cheirar cola de sapateiro. Meninos assim, segundo os policiais, são os principais responsáveis pela grande quantidade de furtos que faz da travessia noturna da estação uma aventura perigosa. A situação de abandono que vive a Central do Brasil de hoje nem passava pela cabeça de Getúlio Vargas no início da década de 30, quando o então presidente fez questão de dar a ela uma forma monumental. À época, namorando com o nazi-fascismo que contagiava multidões na Europa, Vargas fez questão de que o prédio tivesse um estilo imponente, como era comum nas construções da Itália e da Alemanha. Descartou o projeto vencedor de um concurso de arquitetos – um esboço de estilo vitoriano – e acatou o desenho art déco do engenheiro brasileiro Roberto Magno e do arquiteto húngaro Geza Heller que começou a ser desenvolvido em 1936 e só ficou pronto no início de 1945. O resultado é um imenso bloco de 45 mil metros quadrados, ornamentado com uma torre de 32 andares de onde brota imenso relógio de quatro faces, que se tornou um dos cartões-postais da cidade.
Mas o prédio tão conhecido dos cariocas tem também seus recantos misteriosos. Um dos mais sombrios é um túnel subterrâneo de 250 metros que liga a estação ao antigo prédio do Ministério do Exército, do outro lado da rua. Construído na época de Vargas, o túnel só teve utilidade depois que se instalou no País o regime militar, a partir de 1964. Era por ele que passavam os soldados do Exército que chegavam à estação para acabar com as frequentes greves de ferroviários e prender os líderes sindicais. Só que o burburinho político na estação é cada vez menor. Na proporção inversa, aumentam as pregações de evangélicos, que atraem muita gente. Um desses pregadores é o cabeleireiro Erivaldo Ribeiro, 36 anos, que explica para quem quiser ouvir como a graça divina o curou da Aids depois de ter-se convertido à Assembléia de Deus. "Aqui é um lugar de muita miséria, muita gente ainda vai se beneficiar com o nosso culto", acredita. Em um passeio pelas plataformas, no entanto, é possível encontrar métodos de cura mais profanos. O vendedor de amendoins Jonas Ribeiro, há 42 anos trabalhando no local, diz que encontrou a cura para dengue, febre amarela e qualquer outro mal. Ribeiro conta que a solução está num remédio que pode ser encontrado em qualquer farmácia. "Só digo o nome do remédio se algum laboratório farmacêutico me pagar muito bem." Tipos tão diferentes como este convivem pacificamente na Central do Brasil, todos envolvidos pelo clima soturno e pelo cheiro de urina. Uma rotina que como no filme exala o desencanto e a perseverança dos excluídos.
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