![]() 19 de novembro de 1997 |
A elegância se despede
CELINA CÔRTES Era o ano de 1994. Circulava nas rodas chiques do Rio de Janeiro que a socialite Regina Marcondes Ferraz pretendia se candidatar a deputada. Ferino como de costume, o colunista Zózimo Barrozo do Amaral não perdoou e tirou um petardo de seu saco de maldades: "Sua plataforma vai ser o salto 8,5." Regina ficou uma fera, pelo fato de a provocação ter partido de uma pessoa que ela considerava um amigo querido. Telefonou para o colunista e disse que nunca mais falaria com ele. "No dia seguinte Zózimo se retratou, com o maior carinho. E ainda disse que se eu me candidatasse teria seu voto", lembra Regina. A história ilustra um traço típico da personalidade do mais famoso colunista social brasileiro. Assim como não tinha escrúpulos para alfinetar amigos ou inimigos, Zózimo também era capaz de voltar atrás quando sentia que havia ferido suscetibilidades. Foi assim ao longo de toda a sua carreira, iniciada em 1963 na reportagem geral de O Globo. Simpático, bem-nascido, logo passou a ajudar Álvaro Americano na Coluna Carlos Swann. Em 1965, já era o titular. O que o fez diferenciar-se dos demais colunistas foi sentir que aquelas notinhas não podiam se limitar aos futricos do high society. Era preciso mais. "Se a coluna abordar artes plásticas, livros, cinema, economia e política, interessará a todos os leitores", ensinou, revolucionando o colunismo social brasileiro. Seu segredo era saber, como ninguém, reproduzir o espírito carioca. Suas notas eram mordazes, irreverentes, por vezes agressivas. Durante muitos anos, Zózimo foi assíduo nas festas da alta sociedade. Não perdia uma. Na última década se cansou. Nem smoking tinha mais. "Cansei da liturgia de me emperiquetar todo, ter que fingir naturalidade, ouvir conversas desinteressantes." Preferia frequentar os amigos mais íntimos ou convidá-los à sua casa. Zózimo nasceu no bairro do Humaitá, zona sul do Rio, em 28 de maio de 1941. Era flamenguista doente. Chegou a frequentar faculdades de Direito e Sociologia, mas achou aquilo tudo muito entediante. Foi então que entrou para O Globo, através de um amigo que conhecia os diretores do jornal. Em 1969 saiu para o Jornal do Brasil, onde ficou até 1993 e viu seu nome transformado em griffe. Depois, voltou para O Globo. Durante a ditadura militar foi duas vezes para trás das grades. Primeiro, quando noticiou que um segurança do presidente paraguaio, Alfredo Stroessner, havia empurrado o general Lyra Tavares, ministro da Guerra do presidente Costa e Silva. Depois, ao entregar que um general de Exército assistira três vezes ao espetáculo Tem banana na banda, de Leila Diniz, uma desafeta do regime militar. Em 1992, o colunista assustou-se com ameaças de sequestro à sua família e mudou-se para Miami, onde passou dois meses. Este ano voltou para os EUA, dessa vez para tratar dos tumores malignos que se desenvolveram em vários órgãos de seu corpo, no Hospital Mount Sinai. Em nenhum momento Zózimo se entregou à doença. Também não perdia o humor. Seu amigo de papo e de copo, o empresário José Kreimer, esteve com o colunista pouco antes de sua transferência para a UTI, onde passou seus últimos 27 dias de vida. Depois de uma cirurgia complicada, Zózimo ficara cinco dias sem comer ou beber, quando a enfermeira lhe trouxe um copo d’água e uma gelatina. "Depois de beber a água, disse que parecia um néctar, como um Chateau Petruce", lembra Kreimer. Zózimo morreu de câncer aos 56 anos, na terça-feira 18, antes de realizar um projeto que o entusiasmava: escrever um livro em que revelaria detalhes de notícias que se limitaram a pequenas notas em sua coluna. Chegou a fazer contatos com a editora Record. Enterrado na quinta-feira 20, seus restos mortais estão no jazigo do pai, o magnata e boêmio Boy Barrozo do Amaral, no Cemitério São João Batista, zona sul do Rio. Dorita Moraes Barros, sua segunda mulher há 14 anos, conta que o colunista morreu abraçado a ela, em paz. "Ele estava com muita coragem. Não teve depressão em momento algum", lembra, com um misto de saudade e orgulho.
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