23 de outubro de 1997






Foto: LUCIANA DE FRANCESCO

Prostitutas modernizam o perfil da atividade com pagers e celulares, libertam-se dos cafetões e ganham até R$ 8 mil por mês, mas rejeitam a carteira assinada em debate no Congresso

ELIANE TRINDADE

O negócio é lucrativo e antigo. Como todo ramo comercial, está se ajustando aos novos tempos do Real. Para garantir maiores lucros em época de moeda forte e muita concorrência, os intermediários estão sendo paulatinamente abolidos. A tendência chegou ao comércio sexual. Mais autônomas, as prostitutas começam a desenhar um novo perfil da mais antigas das profissões. As clássicas figuras dos rufiões, cafetinas e gigolôs estão se transformando em dinossauros, em processo de extinção desde que as "meninas" aprenderam a se organizar e descobriram as vantagens da auto-gestão. Elas também mudaram. Não são necessariamente mulheres marginalizadas, condenadas a viver em guetos e que encontram no sexo pago o único meio de vida. "Hoje, um número crescente de prostitutas é gente comum e está mais próxima de nós do que se imagina. Pode ser aquela pacata vizinha, uma colega de faculdade ou aquela balconista bonitinha", constata a antropóloga Cláudia Fonseca, pesquisadora do Núcleo de Estudo da Prostituição, ligado a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pelo menos na semântica, as novas profissionais escapam do estigma da prostituta. Passaram a se intitular garotas de programa, acompanhantes para executivos, call-girls. "Para elas a prostituição é um bico, uma forma de complementar a renda familiar, o que as faz levar uma vida dupla e a não se assumir como prostitutas", emenda Leandro Fonseca, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo.

A mudança é uma ameaça para uma velha luta: a regulamentação da profissão. Desde julho, está em análise na Comissão de Trabalho, na Câmara dos Deputados, o projeto do deputado Wigberto Tartuce (PPB-DF) que pretende garantir aos profissionais do sexo o direito à aposentadoria e definir regras para o exercício da atividade. Mas a "patricinha de programa" que resolve descolar uma grana ou a professora que arruma um cliente para complementar a renda não estão interessados nesse debate. Hoje, de cada dez profissionais do sexo, apenas duas se assumem como tal. As demais 80%, nem sequer cogitam a hipótese de ter carimbo de "prostituta" na vida, menos ainda na carteira profissional. Essa nova versão das "damas da noite" quer continuar no anonimato. Para se preservar, elas entraram na era tecnológica. Usam e abusam de celulares e pagers. Descobriram na década de 80 novos espaços mais abrigados para vender seus atributos: classificados de jornais, revistas especializadas, a própria televisão e até a Internet, onde se apresentam sob pseudônimos. A revolução alcançou o endereço tradicional da categoria. A praça pública e as esquinas estão cedendo espaço a outros ambientes, em geral fechados, em parte por causa do medo da Aids, mas especialmente em função da violência urbana. As atividades estão se deslocando cada vez mais da rua para casas de massagem, inferninhos, espaços de shows eróticos e discretos pontos de encontro que pouco têm em comum com os bordéis de antigamente. Esses ambientes funcionam como vitrines. O sexo acontece mesmo fora dali.


Foto: CAROL QUINTANILHA

Em São Paulo, Larissa, do Café Photo: R$ 8 mil por mês

Nada em Larissa revela sua condição de profissional do sexo. Morena de 1,65m, 56 quilos, expressivos olhos castanhos e longos cabelos pretos, ela parece mesmo uma típica garota de classe média alta: o guarda-roupa está repleto de modelos de griffe – as preferidas são Forum e Daslu –, seu endereço é um dos bairros mais nobres da capital paulista e ela dirige um carro zero. Há nove meses, essa pernambucana de 19 anos chegou a São Paulo disposta a ganhar na noite mais que o suficiente para sobreviver. Conseguiu. Tornou-se uma espécie de executiva do sexo, com rendimentos mensais de R$ 8 mil. Ela é uma das 80 garotas de programa que frequentam o sofisticado Café Photo, ponto de partida de muitos programas caros em São Paulo. Ali, também, o comércio sexual, normalmente explícito em casas do gênero, é discreto. Quem chega ao local tem a impressão de estar em um bar onde a paquera rola solta. Mas o descontraído papo entre garotas bonitas e bem vestidas e aqueles engravatados executivos vai acabar em cifrões. Muitos. Um programa de duas horas com uma garota do Photo custa R$ 300. Fora o gasto com o motel e os R$ 88 cobrados na entrada, que dão direito ao acesso e a quatro drinques.

Para Larissa o "trabalho" é pura festa: "Chego ao Photo antes da meia-noite. Jantamos por lá mesmo. A comida é maravilhosa. Coloco uma roupa legal, que seja ao mesmo tempo elegante e insinuante; nunca vulgar. E parto para a conquista. Tenho que seduzir o homem com quem decido sair. Não adianta o cara chegar e ir logo perguntando Quanto é. "Quanto é o quê? Não é assim meu irmão", eu aviso. Também escolho. Não gosto de sair com garotões, prefiro homens maduros. Mas nada de velhos. O cara tem que ser limpo e cheiroso. Saio para um programa porque também estou com vontade. Meu primeiro orgasmo foi com um cliente. Me divirto mais do que quem me paga. Quando eles estão chegando lá, já fui e estou voltando pela segunda vez. Não faço programas de uma hora para voltar logo e pegar outros clientes. Fico o tempo que for necessário para dar o máximo de satisfação. Quando rola um programa mais cedo, às vezes volto para o Photo e normalmente descolo um cara que vai pegar a "sopa", ou seja, aquele que não se importa em ser o segundo da noite. Dispenso os ‘tranqueiras", os típicos mauricinhos que não conseguiram comer as patricinhas de graça e aí vêm jogar papo pra cima da gente. Nunca saio de graça. Sou profissional. Não dá para arranjar namorado. Gosto de relacionamentos sólidos e nenhum homem vai se sentir seguro sabendo que a namorada está saindo toda noite com outros e gosta disso. Faço programa pela facilidade de ganhar dinheiro. Quando cheguei a São Paulo ganhava R$ 300 como atendente de tele-marketing, o mínimo que cobro por um programa. Não me questiono. É melhor não encanar e ficar pensando que nos últimos nove meses saí com uma média de dois homens diferentes por dia".

Da boca do luxo à do lixo, a ordem é o pragmatismo. Mesmo para as mulheres que continuam na rua, os tempos são outros. É o que demonstra um levantamento realizado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo com as prostitutas da Praça da Luz, ponto de baixo meretrício na capital paulista. A pesquisa ouviu 125 das 3 mil profissionais que circulam na área. A faixa etária predominante – 69% – situa-se entre 20 e 39 anos. Fazem uma média de 50 programas por mês. O preço médio da saída de meia-hora é R$ 18,00. "A maioria encara a prostituição como um subemprego. São cozinheiras, enfermeiras e professoras", verifica a socióloga Nina Laurindo da Silva, uma das coordenadoras da pesquisa. Elas são discretas. No Parque da Luz, ao lado da outrora aristocrática estação de trem que dá nome ao local, fica difícil distinguir quem está fazendo trottoir. A micro-empresária Teresa, 46 anos, uma loura de olhos azuis e ar recatado, há um ano faz da praça seu local de trabalho, desde que fechou sua fabriqueta de fundo de quintal, onde produzia acessórios para cabelo. Hoje ela tenta retomar o antigo negócio e já emprega três pessoas. Suas funcionárias, que ganham três salários mínimos por mês, nem desconfiam da atividade paralela da patroa.

No início Teresa encarou a prostituição como uma saída desesperada. Hoje a considera um vício: "Faturava R$ 12 mil e de repente me vi sem dinheiro para comprar gás e comida. Briguei com minha filha, tive vários problemas de saúde e entrei em depressão profunda. Fui levada para a rua por uma amiga. Meu primeiro programa foi com um negro. Eu só tinha tido um homem na vida, o meu marido que morreu há 12 anos. Foi muito difícil. Ser cantada por um estranho, depois ir para um quarto de hotel, me despir. Senti muita vergonha. A transa durou meia-hora. Cobrei R$ 20. Depois, foi ficando normal. Em um mês bom chego a tirar R$ 700. A maioria dos meus clientes é garoto. Já fiz programa com um menino de 16 anos, que fantasiava transar com a mãe. Passei por alguns momentos barra pesada, como ser agredida por um drogado que não conseguia ter uma ereção. Hoje, muitos dos meus clientes são amigos. Estou tentando retomar o trabalho na fábrica. Mas, não consigo me desligar da Praça. Estou viciada. Vou voltar a ser empresária de segunda a sexta-feira e continuar prostituta, nos finais de semana."

A partir do início da década de 80 a oferta ao vivo e em cores berrantes começou a sofrer a concorrência dos anúncios classificados nos jornais. O marketing pessoal virou pré-requisito para o sucesso. Os anúncios oferecem corpos para todos os gostos, em chamadas picantes. Nem sempre são tão explícitas. "Sílvia, publicitária, loura e linda", era a chamada que uma jornalista carioca de 46 anos usava para se promover nas páginas do Jornal do Brasil, onde já ocupara espaços mais nobres, até ser demitida em 1990. Saiu das páginas editoriais para os classificados. Desempregada e com duas filhas, Silvia alugou um quarto e entrou no mundo das garotas de programa. Procurou um diferencial. "Apelava para a cabeça e não para o corpo", conta a jornalista, que chegou a se anunciar como Desirée, o grande amor de Napoleão. A brincadeira se profissionalizou. Sílvia trabalha com 300 moças cadastradas. Virou cafetina. Uma neo-cafetina, é claro. "Fujo dos padrões tradicionais, mas tenho que aceitar esse título tão estigmatizado", admite. Esse exército feminino paga a Silvia para fazer os anúncios e filtrar os clientes. Ela gasta R$ 6 mil mensais comprando espaço em classificados de jornal.


Foto: ROBERTO JAYME

Patrícia, 18 anos, de Brasília: "Faço programas para comprar roupas de griffe"

Em Brasília, Patrícia, 18 anos, dispensa intermediários e publica, quatro vezes por semana no Correio Braziliense, o jornal de maior circulação da cidade, o anúncio: "Patrícia, estilo da Playboy, loira, 18 anos, 1,70m, bonita de rosto e de corpo. Atendo só. Confira". Ganha R$ 2.500 por mês. Nascida numa família de classe média, ela começou a fazer programas quando o pai fez um mau negócio e perdeu a casa onde a família morava.

Para Patrícia, fazer programas é a garantia de manter o antigo status de patricinha brasiliense: Conhecia uma menina que fazia programas e ela me ajudou a começar. Saio de segunda a sexta. Os finais de semana são meus; frequento os lugares da moda. Hoje tenho clientes fixos, empresários, políticos, executivos. Se não vou com a cara, dispenso e ofereço o telefone de uma outra garota. Também não atendo casais. Os programas me permitem comprar as roupas que eu gosto. Uso Forum, Triton, Ellus e Zoomp. Vou voltar a estudar no ano que vem. No próximo mês, inicio um curso de informática e outro de inglês. Não vou trabalhar de secretária e ganhar R$ 300 por mês. Quando arrumar um emprego legal paro. Minha família sabe que sou garota de programa. Eles sabem que eu sou uma pessoa normal, que acorda de manhã e escovo os dentes. Não me julgam mal.

O julgamento público é um dos principais entraves à regulamentação da profissão. "Seríamos discriminadas toda vez que mostrássemos os documentos", calcula Solange Gomes, 37 anos, que atua como prostituta no centro de Belo Horizonte há 15 anos. Solange, que já chegou a atender até 50 homens por dia hoje consegue no máximo sete clientes em quatro horas de trabalho diário. Cobra R$ 5,00. A situação ficou pior desde que, impressionada com o estado de saúde de uma amiga com Aids, começou a pedir que os homens usem preservativo. "Perdi muitos clientes, sobretudo os mais velhos", lamenta. No projeto do deputado Tartuce, a exigência de carteirinha de saúde, com exames mensais de HIV, é o ponto mais polêmico. Uma experiência semelhante em Mato Grosso do Sul mostrou-se desastrosa. Em dez anos de vigência, a carteirinha não serviu ao controle sanitário e acabou por se tornar um instrumento de desmando policial. "Temos relatos de prostitutas que ao comprovar que não tinham Aids, foram estupradas por policiais. Mais comuns ainda são as histórias de extorsão sofridas quando não estavam com os exames em dia", relata a coordenadora do programa de prevenção à Aids da Secretaria de Saúde do Mato Grosso do Sul, Evanir Rodrigues.

Até 1951, a profissão era regulamentada. Todo mês as mulheres iam à delegacia de costumes e os policiais só liberavam a atuação se elas comprovassem que não tinham sífilis ou outras doenças. Elas davam dinheiro e não faziam os exames. Não funcionou. Os resultados práticos de uma regulamentação são duvidosos. A existência e o cumprimento das leis é mais necessário para coibir uma das formas mais chocantes de comércio sexual, a prostituição infantil. Em São Paulo, no final de setembro, a polícia desmantelou uma rede de prostituição que vendia garotas virgens de 12 anos para empresários. A virgindade era negociada a R$ 2 mil. Uma denúncia no SOS Criança levou os policiais a Jane Santos, presa como agenciadora de mais de cem meninas da periferia de São Paulo. A cafetina e seis empresários foram indiciados por corrupção de menores e estão presos.

Sem agenciadores e muito bem sucedida no sexo profissional a paulista Marina, 26 anos, não quer saber de INSS, nem de carteirinha. Dona de casa durante o dia, Marina, casada há dois anos com um respeitável gerente de banco, arrasa na noite. O marido junta-se a uma legião de fãs da loura mignon que faz shows eróticos, strips e programas em boates da boca do luxo em São Paulo. Ex-bancária, chegou a trabalhar na mesma agência do marido, mas só se conheceram através de um catálogo de garotas de programa. Marina mudou de ramo em busca de melhores condições para criar o filho, hoje com 10 anos, fruto de uma relação anterior. Trocou um salário de R$ 600 por um faturamento seis vezes maior. Comprou a casa onde mora com o marido, o filho e a mãe, e tem um Tipo do ano.

Para a ex-bancária, a noite é garantia de uma vida dupla excitante: "Meu marido me conheceu na noite, se apaixonou e seis meses depois nos casamos no civil e no religioso. Não parei de trabalhar. Meu marido frequenta a boate, mas fica na dele. Só uma vez não segurou a onda e me tirou de cima de uma mesa quando eu fazia um strip. Ele sabe que faço programas. Ganho legal e só transo com camisinha. Se o cara não tiver mau hálito, até beijo na boca. Mesmo fazendo sexo todos os dias por obrigação profissional, chego em casa e sempre estou disposta para transar. Minha mãe brinca e diz que eu devo ser doente. Não sou ninfomaníaca, mas gosto de sexo. Meu único problema é com meu filho. Ele pensa que saio nas noites de terça, quarta e quinta-feira para ir à faculdade. Tanto que tenho livros e cadernos no carro para tornar a história convincente. Quando ele for maior, vou contar a verdade. Não tenho vergonha de ter conquistado tantas coisas com o meu corpo, mas não quero ter um registro profissional como prostituta, uma marca que fica para o resto da vida."

Organizadas em associações e cooperativas, as prostitutas estão buscando formas alternativas de atuação. A novidade chegou a Vila Mimosa, o point de baixo meretrício mais famoso do Rio de Janeiro. A vila mudou de endereço e de cara. Os 44 cubículos pouco higiênicos da antiga zona foram substituídos por 35 residências próprias, geridas na forma de cooperativa. Cada casa tem um bar térreo e micro-quartos no segundo piso. "Encontrei uma noção de trabalho, com regras coletivizadas para o tempo de atendimento e o tipo de prática, e a tentativa de criar um circuito de proteção para reduzir as situações de risco", relata a socióloga Aparecida Morais, autora da tese de mestrado "Mulheres da Vila". Ângela Cunha, carioca de 50 anos, prostituiu-se há duas décadas, quando ficou viúva, com dois filhos para criar. Está há 18 anos na Praça Tiradentes. Veterana, vive dando conselhos às colegas:

"Isso aqui era muito perigoso. As meninas jogavam ácido na cara uma das outras. Nas brigas, usavam facas. Mudou muito. Dou muitos conselhos às meninas, como nunca se envolver com drogas e ser carinhosa. Continuo aqui por causa dos meus três filhos adotivos, de seis e cinco anos e um de nove meses. Meu filho legítimo está com 25 anos e trabalha em Furnas. O outro morreu. Tenho muita fé em Deus e meus clientes são da melhor qualidade. Querem fazer amor. Precisam disso mas suas mulheres não dão. As fantasias mudaram. Hoje, os executivos preferem os travestis. Comigo, o que eles pedem é um strip, uma dancinha, tirar a calcinha com charme. Tem gente que pede para bater. Mas eu não gosto nem de chicotear, nem de apanhar. Nunca levei um beliscão."

A boate Kilt, no centro de São Paulo, é território de muitas fantasias. Quem reina atrás da fachada que imita um castelo escocês é a empresária da noite Tânia Maciel. Fundada há 26 anos, a casa é pioneira em shows eróticos no Brasil e é frequentada por turistas e homens de negócio estrangeiros. Mas não faltam casais que pedem ajuda à gerência para realizar fantasias como a mulher se exibir para todos diante do marido. Ali, cerca de 100 garotas circulam, dançam e se exibem no palco onde o espetáculo de maior sucesso é o strip-table. No ano passado, a Kilt esteve na mira da polícia. Chegou a ser fechada e Tânia foi indiciada por indução à prostituição. O inquérito não foi adiante. "Não estimulo ninguém a se prostituir. Aqui, as garotas vendem um show. Se lá fora negociam o próprio corpo não é problema meu", afirma. "A maioria estuda, trabalha e está aqui de passagem. Muitas são casadas."

Elis, uma das strippers da casa, prepara-se para o vestibular de Direito. Concilia o cursinho com longas sessões noturnas. É a rainha do strip-table – despe-se para os clientes nas mesas – e ganha por exibição até R$ 50. Nas noites melhores, quando ganha R$ 300, não faz programa. Mas nem sempre consegue resistir aos R$ 200 oferecidos por um gringo para um strip particular em uma suíte de hotel. Menos sorte tem Andreia, uma loura de 20 anos e 1,80m. Alta demais para a strip-table – bate a cabeça no teto –, sua única fonte de renda é sair com os clientes.

Para Andréia, a Kilt é uma vitrine. "Entrei nessa porque precisava de uma grana rápida para construir uma casa para minha mãe. Fiz meu primeiro programa com 18 anos. Coloquei um anúncio no jornal e no mesmo dia me ligou um velho de 72 anos. Foi horrível. Chorei três dias. Mas depois fui me acostumando e nunca mais parei. Prefiro trabalhar em boate. Ganho mais e me divirto. Há oito meses estou morando com meu namorado, que também é garoto de programa. Alugamos um apartamento no edifício Copan, no centro de São Paulo, pagamos R$ 450 e estamos mobiliando a nossa casa. Amo meu namorado e adoro a vida de casada. À noite ele se transforma em "Alê, o grande". Atende principalmente homossexuais e casais. Mas ele é sempre ativo. Juntos tiramos R$ 5 mil por mês e ele ainda sustenta os pais, que são idosos e nem desconfiam de onde vem o dinheiro."

Maridos compreensivos, companheiros de casa e de ofício são uma novidade significativa, num universo dominado, no passado, pelo cafetão malandro e truculento, que explorava as mulheres em troca de proteção. "O único intermediário no negócio hoje acaba sendo o gerente do hotel onde elas trabalham, que apenas cobra a diária pelo quarto onde fazem o programa", constata a psicóloga Sandra Azevedo, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais. A cafetinagem virou um negócio de segunda, se comparado aos rendimentos do tráfico. "Os cafetões migraram para outras áreas ilícitas ou assumiram funções paralelas, como gerenciar casas", verifica a socióloga Aparecida Morais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os tempos são outros e a mais antiga das profissões sobrevive à crise econômica, à Aids e à liberdade sexual. Ao que tudo indica, ainda terá vida longa.

Colaboraram: Celina Côrtes (RJ), Ivan Padilla (BH) e Rachel Mello (DF)

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