16 de abril de 1997

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Profetas ou malucos?
Os fanáticos religiosos brasileiros se multiplicam, elegem-se os escolhidos de Deus, pregam o apocalipse e se isolam à espera da salvação final

Foto: CARLOS FENERICH

As discípulas de Inri Cristo dizem em coro: "Nós não cremos, nós sabemos que ele é a reencarnação do filho de Deus"

CELINA CÔRTES, EDUARDO HOLLANDA E EDUARDO MARINI

Uma cortina vermelha é aberta no minúsculo templo montado em uma casa do bairro Alto Boqueirão, em Curitiba. De túnica branca, manto vermelho, coroa de espinhos na cabeça e um cetro de madeira na mão esquerda, o ex-verdureiro Iuri Thais, 49 anos, sentado em um trono, proclama com a voz impostada: "Eu sou Inri Cristo, o filho de Deus, a reencarnação de Jesus, o caminho, a verdade, a vida. Adão, Noé, Abrahão, Moisés, David, Jesus e eu fomos encarnados pelo espírito do filho de Deus. Vou explicar tudo. Não vai pairar uma dúvida." Iuri Thais (como foi registrado é uma variante do sobrenome alemão Theiss), ou Inri (Jesus de Nazareno, Rei dos Judeus) Cristo, como se anuncia, é um dos muitos líderes de fanáticos religiosos do País, colocados novamente em evidência no final de março, quando 39 seguidores da seita Heaven's Gate (Portão do Céu) se suicidaram em uma mansão de San Diego, na Califórnia. Pelos números do IBGE, as religiões e seitas que esperam de alguma forma o apocalipse reúnem 30 milhões de adeptos no Brasil. A cada ano, a Igreja Católica perde 600 mil seguidores. Especialistas canadenses calculam que 20 mil novos movimentos religiosos atuam no mundo, 200 deles baseados em cartilhas extremistas que pregam suicídios e até assassinatos.

Foto: CARLOS FENERICH

O ex-verdureiro Iuri Thais no seu templo, em Curitiba: "A Igreja Católica sucumbirá e eu levarei os eleitos à salvação"


Iuri/Inri, filho de um vendedor de bilhetes de loteria, nasceu em Indaial, cidade catarinense de 35 mil habitantes. Fumava três maços de cigarro por dia e vivia em noitadas agitadas. "Fui um homem pecador até 1969, quando Deus revelou minha identidade e passei a viver do dom de meu Pai", relata. "Cometia o pecado da fornicação, não perdia a oportunidade de desfrutar das mulheres que me recebiam em suas alcovas." Na década de 70, peregrinou por várias cidades brasileiras. Esteve também em Paris e Roma, levando "a palavra de Deus". Ao todo, diz ter visitado 27 países. Em outubro de 1981, invadiu a catedral de Caxias do Sul (RS), durante a missa das dez. No altar, dedo em riste, bradou: "Saiam daqui, ladrões mentirosos, adoradores de ídolos, vendilhões de falsos sacramentos. Eu sou o Cristo." Subiu no altar e pegou o crucifixo. "Tentei arrancar o bonequinho da cruz e destruí-lo. Seria um gesto libertário, mas não consegui concluí-lo porque a estátua era de ferro", diz.

Em Belém, no Pará, no dia 28 de fevereiro de 1982. Inri invadiu uma igreja para "consumar o ato libertário" de declarar proscrita a Igreja Católica e fundar a Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade. Arrancou a estátua de Cristo da cruz e a quebrou. O "ato libertário" terminou em um tremendo quebra-pau. O relato é do próprio Inri. "No momento do confronto, o Senhor disse: 'É a hora da violência, pega a vela, bate na cabeça dele, senão ele também vai subir no altar, e no altar, meu filho, só tu podes subir!.' Bati com a vela na cabeça do sacerdote, que tentou me derrubar ao puxar meu pé. A cadeira postada sobre o altar foi arremessada para me derrubar."



Inri ataca os inimigos sem piedade. Rotula o papa João Paulo II de a "besta de Roma", o arcebispo de Curitiba, Pedro Fedalto, de "arcebesta" e a CNBB de "Confederação Nacional dos Bestas do Brasil". Batizou o demônio de Kajowo, composto com as iniciais de Karol Josef Wojtyla, nome de batismo do papa. Ataca com a mesma fúria o médium Chico Xavier. "Ele diz incorporar Emmanuel, o meu nome profano. Não sei até quando esse lobo de peruca, com pele de cordeiro, continuará a enganar tanta gente." Vê o pastor Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e a umbanda com bons olhos. "Eu os amo. São os ratos que ajudam a roer o casco do navio profano e pecador em que se transformou minha antiga igreja (a Católica)." Inri tem 15 apóstolos, que vivem com ele no alojamento da Igreja. Além desse primeiro escalão, reúne 100 admiradores no misterioso Movimento Eclesiástico Pró-Inri Cristo (Mepic). São eles que mantêm o templo e as publicações da seita. "A opinião pública desconhece que, desde 1982, existe um esquema urdido para esconder a verdade sobre Inri", diz a enfermeira Ângela Schimidt, 48 anos, uma de suas féis.

Foto: ANDRÉ DUSEK

Os penitentes do Cariri: influência do "Padim Ciço" e espera do apocalipse


Inri condena a clonagem ("são as bestas usando a Ciência para fins negativos"), considera o presidente Fernando Henrique Cardoso "um governante coerente", mas pragueja contra a venda da Vale do Rio Doce. "Sou contra a venda da terra dessa empresa e de qualquer terra de Deus. Eles podem entregá-la para os exploradores. Eu a recuperarei junto com todas as terras do Senhor, após a hecatombe nuclear que irá purificar o mundo. Sobrarão apenas 144 mil escolhidos de Deus para a formação de seu Reino." Todos os seus 15 discípulos foram rebatizados. Eles não revelam o nome de batismo. O ex-professor de História Jean, que recebeu de Inri o sobrenome "de Patmos", 54 anos, era ateu até conhecer Inri em Beauvais, Norte da França, sua cidade natal, no início da década de 80. Jean deixou a mulher e dois filhos na França para seguir "as ordens do Senhor". "Não acreditamos em Inri. Crer é ter devoção por algo que não se conhece. Nós simplesmente sabemos que Inri é filho de Deus", diz. "Não existe sentido em recordar o passado", diz outra discípula, a paulistana Asusana de Cristo. Mas a Justiça "dos pecadores" espera que Inri pague pelo seu passado. "Esse sujeito tem vários processos nas costas, inclusive alguns na Polícia Federal, por falsidade ideológica. Ele já usou nomes como Iuri Thais, Nostradamus e Inri Cristo", diz a delegada Márcia Braga, do 8º Distrito de Curitiba. "Esse maluco tomou banho pelado em um clube de Ponta Grossa", atesta Ricardo Chab, jornalista e deputado estadual no Paraná pelo PSDB. Chab é figura de destaque no Rol do Malditos, os inimigos "amaldiçoados" de Inri. A lista inclui, entre outros, o papa João Paulo II, os arcebispos Pedro Fedalto, Luciano Mendes e Eugênio Sales, o jornalista da Rede Globo José-Itamar de Freitas e o ex-deputado federal Matheus Iensen, autor da emenda que deu o quinto ano de mandato ao ex-presidente José Sarney, além de vários jornalistas.



O sociólogo Lisias Nogueira Negrão, professor da USP, estabelece a diferença entre religião e seitas como a liderada por Inri Cristo. "Igrejas são grupos estabelecidos, vinculados à sociedade", define. "Já as seitas são movimentos emergentes que apresentam restrição ou desconforto em relação à regra teológica e apresentam contestações aos valores sociais estabelecidos. A partir do momento em que se acomodam, deixam de ser uma seita para se tornar uma nova igreja." A Universal do Reino de Deus hoje se autodenomina uma igreja, mas, dentro dessa visão sociológica, é ainda uma seita, pois contesta os valores vigentes. "A palavra seita, aliás, vem de sectarismo, que significa romper, separar", completa Negrão. No Brasil, existiram messiânicos sertanejos, como Antônio Conselheiro. Ele dizia que o mar ia virar sertão e o sertão virar mar e, assim, Canudos se tornou uma seita historicamente importante. "O próprio cristianismo começou como uma seita. Cristo era judeu, frequentava sinagogas e fundou um grupo religioso. Lutero, que não era messias como Jesus, também formou uma seita no século XVI. Liderava um grupo contestador e não-dominante. Assim, o protestantismo, na época, também foi chamado de seita", esclarece o filósofo Mario Sergio Cortella, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP.

Foto: ANDRÉ DUSEK

A purificação para os penitentes de Cabeceiras: açoites de chicote


O fim do mundo, da forma como está descrito no Apocalipse de São João, é uma realidade para muita gente no sertão do Cariri, no sul do Ceará. São seitas que praticam uma religiosidade medieval, transmitida de geração a geração. Buscam no castigo corporal, para os homens, e nas preces intermináveis, para as mulheres, a garantia da entrada no céu. Esta teologia remonta aos frades cartuxos espanhóis do primeiro milênio do cristianismo. Permaneceu congelada no sertão do Nordeste, estimulada periodicamente por líderes místicos como o Padre Ibiapina e o Padre Cícero Romão Batista, o "Padim Ciço", venerado como santo pelos nordestinos.

Nesse cenário, seitas como os Penitentes do Rosário da Mãe de Deus, do bairro Tiradentes, em Juazeiro, com cerca de 40 integrantes que se vestem de azul e branco, encontram terreno fértil. Todos os homens dizem chamar-se José Alves de Jesus e as mulheres Maria Alves de Jesus. Não fazem sexo nem para procriação. Os penitentes, que se inspiraram nos Borboletas Azuis da Paraíba, têm certeza de uma coisa: o mundo vai mesmo acabar no ano 2000. "Só falta o cumprimento da palavra de Deus", afirma o líder da seita, um dos "José Alves de Jesus". Em meio a um discurso que mescla partes do Apocalipse com citações do Antigo Testamento, o "mestre", como os outros "Josés de Jesus" o chamam, garante que, no mundo atual, a exemplo dos tempos de Noé, apenas uns poucos escolhidos serão salvos. O "mestre" acredita que o Cariri é a Terra Prometida, por ser o local onde viveu e pregou o Padre Cícero. "O mundo começou aqui e aqui será terminado e renovado."



A vida desses penitentes é comparável aos monges e peregrinos que percorriam a Europa medieval mendigando e vivendo da caridade. Eles não usam dinheiro, não trabalham, não compram nem vendem nada. Suas casas são de taipa e não têm nem luz elétrica nem água encanada. Não matam nenhum animal e dependem da caridade para ter carne e frango para comer. E isso não falta. Vestidos de azul, com cabelos e barbas compridos, os penitentes passam o dia andando pela cidade e sempre conseguem comida nas feiras e mercados da periferia.

Mas o Cariri não abriga apenas fanáticos aguardando o fim do mundo. Grupos de penitentes que praticam a autoflagelação como forma de penitência para aplacar a ira de Deus, obter o perdão dos pecados e chegar ao paraíso, são ainda mais numerosos. Um dos mais tradicionais é o do Sítio Cabeceiras, em Barbalha, cidade a menos de 20 quilômetros de Juazeiro do Norte. Liderado por Joaquim Mulato de Souza, 77 anos, o grupo é uma tradição que vem sendo mantida há pelo menos quatro gerações. Os homens saem para as procissões vestidos com capas pretas, decoradas com cruzes e capuzes brancos. As mulheres se vestem de cinza, com a cabeça coberta por véus brancos. As orações são centenárias. A penitência diária para as mulheres é a oração. Já os homens se submetem a um ritual muito mais impressionante que remete aos primeiros séculos da Igreja e a santos mártires e guerreiros como São Sebastião e São Bernardo. Usando chicotes com lâminas afiadas de metal nas pontas, eles se autoflagelam durante longos períodos, enquanto cantam orações onde se louvam sacrifícios, a dor e a redenção que ela traz, como aconteceu com Cristo.

Uma versão mais sofisticada e menos fanática de fervor teológico é praticada pelos seguidores do Santo Daime. Nas noites de sexta-feira, cerca de 200 devotos da seita Céu do Mar se reúnem no alto da estrada das Canoas, em São Conrado, bairro da zona sul carioca, em torno de um mesmo fim: intensificar a percepção e expandir a consciência. O veículo é o chá que mistura o cipó jagub (Banisteriopis caapi) e a erva rainha, colhidos no quintal do terreno de 230 mil metros quadrados, na fronteira com o Parque Nacional da Tijuca. A seita surgiu no Amazonas e é carregada de religiosidade. Tudo começou com o mestre Irineu (1892-1971), seringueiro considerado pelos seguidores como a reencarnação de Jesus Cristo. Irineu foi o embrião de um movimento difundido em todo o Brasil pelo padrinho (todos os sacerdotes são chamados de padrinhos) Sebastião (1920-1990), tido como a reencarnação de São João Batista, santo padroeiro dos daimistas.

A origem amazônica mesclou elementos da religião católica ao espiritismo, aos rituais indígenas e africanos. O resultado foi uma salada que mistura o canto de hinos ao bailado e à meditação, tendo sempre como suporte o chá do Daime. Um dos maiores atrativos da seita é o livre arbítrio: não há regras a seguir. "Os princípios estão escritos dentro de cada um. Ninguém precisa ensinar nada a ninguém", ressalta o padrinho Paulo Roberto, responsável pela igreja Céu do Mar, das Canoas. Segundo explica, o chá provoca experiências visionárias que proporcionam aos usuários as chamadas mirações. "São esses insights que vão ditar a ética para cada um", completa Paulo Roberto.

O Santo Daime ficou popular quando pessoas famosas, como Cazuza, Ney Matogrosso, Maitê Proença e Lucélia Santos, passaram a frequentar a Céu do Mar. Ney, hoje, está afastado. Para ele, é como se tivesse tido alta de uma profunda terapia. Para começar, o cantor descobriu o quão carrasco ele era para si mesmo. Ney avisa aos curiosos: "Não é nada fácil. Se as pessoas pensam que é só tomar uma beberagem e ficar doidonas, enganam-se."

Os críticos condenam os hábitos das pessoas se agruparem em rituais usando uniformes ou vestidos semelhantes aos dos seringueiros nos primeiros anos do século, enquanto entoam hinos ou bailam. A essas acusações, Paulo Roberto reage: "Essas críticas são inveja de nossa capacidade de atingir outros planos de espiritualidade", revida. Paulo Roberto, psicólogo que já trabalhou no Instituto Pinel (hospital psiquiátrico), faz questão de deixar claro que o Daime não é um alucinógeno, mas um enteógino, "substância que leva ao sagrado e a Deus". O consumo foi liberado pelo Ministério da Justiça em 1987, quando o governo aceitou a tese de que o chá só é tomado dentro de rituais religiosos.



Outro motivo de reclamações em relação ao Daime é o fato de os adultos levarem crianças para as sessões. O Ministério da Justiça já proibiu formalmente esse tipo de coisa, e os adeptos evitam tomar qualquer atitude que possa prejudicá-los legalmente. A pediatra Dóris, por exemplo, usa os efeitos curativos do Daime em seus filhos de oito e 18 anos. Quando o menor tem bronquite, faz um xarope à base do cipó. "Outro dia, meu filho mais velho estava com 40 graus de febre. Tomou o chá e voltou ao normal, só com a sudorese que o Daime provocou", revela. Embora não siga princípios ou normas, a seita do Santo Daime tem uma ideologia. Para eles, a Virgem Maria é a rainha da floresta e a natureza, uma manifestação de Deus. Portanto, a preservação ecológica é absolutamente implícita em tudo o que fazem. A maior parte dos hinos repete refrões de preservação ambiental. "Quem destrói a natureza está ferindo nosso Pai", diz um deles. No meio de tantos caminhos que supostamente levam a Deus, o difícil é perceber quando se está diante de um profeta ou de um maluco.

Colaborou Carla Gullo


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