 4 de setembro de 1996 | Índice | Abertura| Capa | Cartas | Arquivo | Expediente

Culpa no cartório
PM recebeu ligação do palácio do governo horas antes do massacre
FOTO: ANDRÉ DUSEK
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Almir Gabriel: situação difícil
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GILBERTO NASCIMENTO
Mais de quatro meses depois do massacre dos sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), a Justiça Militar recebeu uma importante documentação da Telepará (empresa de telecomunicações paraense) que poderá deixar o governador tucano Almir Gabriel em situação difícil. Os rastreamentos telefônicos comprovam que em 17 de abril, horas antes do conflito que resultou na morte de 19 sem-terra, duas ligações foram feitas do Palácio dos Despachos, onde se localiza o gabinete do governador, para o quartel da Polícia Militar, em Marabá. A primeira ocorreu às 13h12 e durou 15 minutos. A segunda às 14h26, com duração de meia hora. É impossível comprovar o teor da conversa. Mesmo assim, para a Justiça Militar, o documento não deixa dúvidas sobre a participação do governo no episódio. Um total de 26 contatos telefônicos foram feitos entre a sede do governo, a Secretaria de Segurança Pública, o comando da Polícia Militar em Belém e o quartel em Marabá, no dia do massacre. Desses, 13 telefonemas foram dados antes das 17h, o horário em que começou o conflito entre sem-terra e policiais. O juiz-auditor militar Flávio Roberto Soares de Oliveira avalia que a documentação poderá levar ao descobrimento de "uma cadeia de mando superior", que teria ordenado a matança.
Em abril, ISTOÉ divulgou que a ordem para a Polícia Militar enfrentar os sem-terra "à força" teria partido do próprio governador. Na ocasião, um oficial da PM afirmou que o coronel Mário Colares Pantoja, que comandou a operação, recebera ordens diretas do governador, pelo telefone. Almir Gabriel, segundo o oficial, teria ligado pessoalmente a Pantoja exigindo a imediata desocupação da rodovia PA-150, então ocupada pelos sem-terra, "custe o que custar". Temendo os riscos de um conflito, Pantoja se recusara, num primeiro momento, a cumprir a missão. "Quem você pensa que é? Quem dá as ordens aqui sou eu. Quero a retirada, e já", teria bradado o governador pelas linhas da Telepará. Gabriel negou veementemente essa versão. Pantoja foi responsabilizado solitariamente pela ação da polícia, punido com "prisão domiciliar" e até hoje está proibido de falar. Agora, diante dos documentos fornecidos pela Telepará, o Ministério Público tem indicíos suficientes para apurar o possível envolvimento do governador, do secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, e do comandante da PM, Fabiano Diniz Lopes, no massacre.
Na quinta-feira 29 e na sexta-feira 30, a coordenadora de Comunicação do governo do Pará, Sula Maciel, que em abril se apressou em defender o chefe tucano, não foi encontrada no Palácio dos Despachos e nem deu retorno aos telefonemas de ISTOÉ. Indicado para responder em nome do governo, o procurador-geral do Estado, Pedro Bentes, também alegou que não poderia comentar o documento apresentado pela Telepará. "Não cabe ao Executivo avaliar os procedimentos e atitudes tomadas pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário no exercício de suas atribuições", justificou.
As investigações para apurar as responsabilidades pela matança foram conduzidas pela própria polícia do governador Gabriel. Agora, por decisão do juiz Oliveira, o inquérito deverá ser encaminhado para a Justiça Comum. Ele rejeitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público por considerar que não foram individualizadas as condutas dos 155 acusados, todos soldados da PM. O juiz entende que é possível identificar os autores dos disparos, a partir das balas encontradas nos corpos dos 19 sem-terra mortos. Ele também quer descobrir quem ordenou a ação policial. Os documentos da Telepará são uma boa pista.
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