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4 de setembro de 1996
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Presidente em campanha
FHC articula a reeleição, faz uma atrapalhada operação para tirar Itamar do páreo e deixa ministros na berlinda

FOTO: ANDRÉ DUSEK

Maciel, Itamar e FHC: desencontros com o ex-presidente atrapalham projeto de reeleição

ANDREI MEIRELES E PATRÍCIA ANDRADE

Contagiado pelo clima eleitoral que predomina em todo o País, o presidente Fernando Henrique resolveu entrar de cabeça na campanha para permanecer no Palácio do Planalto até o ano 2002. Na última semana, FHC jogou pesado. Promoveu encontros no Palácio da Alvorada com seus principais aliados e escolheu seu ex-padrinho político, Itamar Franco, como a primeira pedra a ser afastada do seu caminho rumo à reeleição. Na quarta-feira 28, o Planalto divulgou uma pesquisa feita pela MCI/Ibope sob encomenda do governo e paga com dinheiro público da Petrobrás mostrando que Fernando Henrique ganharia a disputa presidencial com 41% dos votos, disparando na frente de Maluf e Sarney, que teriam 11%, e do próprio Itamar, com 5%. Empolgado pelo clima dos palanques, Fernando Henrique fez um discurso de comício durante um jantar articulado pelo deputado Newton Cardoso na mesma quarta-feira. "Aqui estão as pessoas que têm articulação e mostram os votos e não aqueles que articulam pelos jornais", exaltou-se o presidente diante de uma platéia de duas dezenas de parlamentares, quase todos do PMDB.

Seguindo à risca seu estilo temperamental, Itamar vestiu rapidamente a carapuça. Na manhã seguinte, durante conversa com FHC e Marco Maciel no Palácio do Planalto, ele deixou claro que estava lá como adversário. "Fernando, você sabe que sempre fui e continuo sendo contra a reeleição", disparou Itamar. "E você sabe que eu sempre fui a favor", retrucou FHC. Mais tarde, ao sair do almoço na casa do presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), oferecido para ele e para o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com o objetivo único de atrapalhar a reeleição de FHC, Itamar mandou um recado mais duro para o presidente. "Esta pesquisa foi feita pelo Palácio do Planalto e divulgada no momento oportuno para eles, que foi a véspera do meu encontro com os presidentes Paes e Sarney. Pesquisas levantam números e os números não mentem. Mas os mentirosos fabricam os números", disparou Itamar. O encontro entre os três, bolado para oficializar uma frente política contra a reeleição, quase morreu na praia. Numa postura oscilante, Sarney resistiu o quanto pôde em assinar uma nota conjunta contra a reeleição. Motivo: há várias semanas, Fernando Henrique vem paparicando Sarney. Em conversas reservadas com o ex-presidente, FHC acenou com a possibilidade de Sarney ganhar um Ministério ou indicar um afilhado para integrar o governo. O presidente do Senado descarta apenas a primeira hipótese: "O único patrão que aceito é o povo brasileiro. Quem já foi presidente, não pode ser ministro."

FOTO: ANDRÉ DUSEK

A construção da casa para Itamar morar em Brasília: sede do "comitê anti-reeleição"


Também de flerte com Sarney, Itamar precisou de um tête-à-tête com o presidente do Senado para tentar colocá-lo a favor da frente contra a reeleição. Antes de ir para o almoço na casa de Paes, reuniu-se com Sarney e conseguiu convencê-lo de que alguma posição teria de ser tomada ao final do encontro. Depois das negociações, o texto acabou sendo mais brando do que o esperado. Esperto, Sarney concordou apenas em endossar a decisão da convenção do PMDB de adiar a discussão da emenda da reeleição para 1997. "O Itamar estava um fera", justificou Sarney numa roda de amigos, tentando explicar o porquê de ter assinado a nota. Mesmo assim, a concessão de Sarney pode dificultar a intenção palaciana de votar a proposta na Câmara ainda este ano. "Continuo disposto a indicar em outubro os membros do PMDB para a Comissão. Mas diante desta nota vou conversar antes com Sarney", disse o líder do partido na Câmara, Michel Temer (SP), peça importante no jogo governista.

Ciente da barreira oposicionista que terá de enfrentar nos próximos meses, Fernando Henrique se mexe para todos os lados. Da mesma forma que reuniu o baixo clero do PMDB na noite da quarta-feira passada, ofereceu um dia antes um seleto jantar no Alvorada para o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, o governador do Ceará, Tasso Jereissati, o presidente da Câmara, Luís Eduardo (PFL-BA), e o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Ali, delineou-se toda a estratégia para a votação da emenda no Congresso. Além da adoção de medidas de incentivo à produção e ao consumo para aumentar a popularidade presidencial, ficou combinado que a reforma ministerial prevista para dezembro terá como principal critério o atendimento às reivindicações de quem tem votos no Congresso. "O Ministério ficou velho", diz o presidente do PFL, deputado José Jorge (PE). O ponto central da mexida na equipe do governo está em encontrar uma vaga para Luís Eduardo, que tanto pode assumir a coordenação política no Ministério da Justiça como ser escalado para as Minas e Energia no lugar do também pefelista baiano Raimundo Brito. Dentro do PFL, os parlamentares acham que Brito começou muito bem no Ministério, sendo duro na greve dos petroleiros, mas de lá para cá tem-se revelado um autêntico parceiro dos interesses corporativos.

Enquanto os políticos disputam com avidez cada metro da Esplanada dos Ministérios, os atuais ocupantes das vagas tentam se segurar nos cargos como podem. O ministro da Previdência, Reinhold Stephanes, que não tem agradado nem mesmo seus correligionários do PFL, vem-se empenhando para dar a volta por cima desde o início do ano. Os problemas de Stephanes começaram com a exposição de sua separação da mulher Marlene Almeida depois de uma arrebatadora paixão por uma ex-assessora, Magda Nápolis. Naufragaram o novo amor e a condução da reforma da Previdência no Congresso. A cada dia é mais incerta a permanência de Stephanes no governo. "A imprensa todo dia está tirando alguém e eu estou sempre nesta lista. Não recebi qualquer sinalização do presidente, por isso estou tentando tocar meu trabalho normalmente", disse Stephanes a um amigo. Na semana passada, o ministro participou de uma cerimônia no Planalto em que quatro juízes do Rio receberam a medalha Ordem Nacional do Mérito por combater as fraudes na Previdência. Stephanes aproveitou a ocasião para mostrar serviço ao presidente e fez um balanço positivo de sua gestão.

Na corda bamba desde que assumiu a bandeira da CPMF - o imposto sobre o cheque - como a única de sua pasta, o ministro da Saúde, Adib Jatene, também pode perder o cargo na reforma ministerial. E o ambiente no seu Ministério é de incertezas. Há duas semanas, a equipe de publicidade se envolveu em longas reuniões para definir como seriam as propagandas que pretendiam divulgar as ações da gestão de Jatene. O Ministério da Saúde está com uma verba de cerca de R$ 50 milhões para deslanchar uma série de campanhas publicitárias ainda este ano. Depois de uma semana inteira de encontros, o primeiro escalão do Ministério resolveu suspender a campanha pelo menos por enquanto, alegando falta de clima político para esse tipo de divulgação. Na visão palaciana, Jatene é daqueles auxiliares que vivem criando problemas para o presidente.

Mais à vontade no cargo está o gaúcho Alcides Saldanha, que há quinze dias assumiu interinamente o Ministério dos Transportes no lugar do deputado Odacir Klein (PMDB-RS). "Estou melhor do que o Klein. Nos últimos meses, toda semana diziam que ele iria cair, quanto a mim, dizem que vou embora apenas em dezembro, portanto tenho quatro meses pela frente", diz o peemedebista Saldanha num surto de pragmatismo pefelista. Seu lugar na Esplanada é um dos mais cobiçados porque a partir de agora o Ministério vai receber a injeção de R$ 7,9 bilhões para as obras previstas no Plano de Metas. A vaga está sendo intensamente disputada no PMDB pelo grupo articulado pelo deputado Newton Cardoso, que tem como forte candidato o senador goiano Íris Rezende, e por aliados de Sarney. "Eu adoraria indicar. Quando você não indica, não tem ninguém para tomar conta de seus interesses e eu quero mesmo as minhas rodovias", reconhece a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL).

Sempre dispostos a queimar o filme de seus colegas de Pernambuco, os parlamentares do PFL baiano já ensaiam a derrubada do ministro Gustavo Krause, do Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Os baianos acham que Krause faz pouco no Ministério e, o pior, o que faz não dá publicidade. "Queríamos dar uma cara mais jovem ao partido, por isso escolhemos o Meio Ambiente, mas o Krause não está correspondendo às nossas expectativas", critica um dos pupilos de ACM. Nas rodas do partido no Congresso, Krause já ganhou até o apelido de "Colombina", aquele que só aparece no Carnaval. "Não quero dar provas de virilidade ambiental, sei que o que estamos fazendo vai dar um retorno a médio prazo", provoca Krause. "Disse para o presidente que se ele precisar fazer um rearranjo político, o meu cargo está à sua disposição. Só quero ser avisado com 24 horas de antecedência", diz o ministro, temendo o "efeito Dorothéa". A então ministra da Indústria, Comércio e do Turismo, Dorothéa Werneck, foi informada de sua demissão pela imprensa. Outro ministro preocupado em evitar esse tipo de constrangimento é Nelson Jobim, da Justiça. Como Krause, ele também pediu a FHC para ser comunicado previamente de sua demissão. Tranquilo, Jobim planeja voltar ao seu escritório de advocacia enquanto espera a abertura de uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Há algum tempo, Jobim tem se queixado a amigos das dificuldades financeiras por que vem passando e anunciou até a venda de uma casa no Rio Grande do Sul para manter o padrão de vida em Brasília.

Apesar da ganância dos aliados governistas pela reforma ministerial, a obsessão de FHC atende pelo nome de Itamar Franco. Desde que saiu do Palácio do Planalto, o ex-presidente tem sido um pesadelo nas pretensões de Fernando Henrique de permanecer no cargo por mais quatro anos. Itamar é candidatíssimo nas eleições presidenciais de 1998 e já está até preparando uma casa no Lago Sul em Brasília para servir de quartel-general da sua campanha. Preocupado em jogar água no chope de Itamar, FHC acabou se complicando. A primeira versão palaciana de que a fatura da pesquisa sobre a corrida para o Planalto teria sido paga pelo PSDB ficou insustentável depois do requerimento do senador Pedro Simon (PMDB-RS), aliado de Itamar, pedindo esclarecimentos sobre quem bancou a conta. Logo após o discurso de Simon no Senado na quinta-feira 29, o porta-voz da Presidência, Sérgio Amaral, tratou de divulgar que a pesquisa tinha sido custeada pela Petrobrás. Foi uma trapalhada digna de Itamar Franco.


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