 4 de setembro de 1996 | Índice | Abertura| Capa | Cartas | Arquivo | Expediente

Aventura fatal
Brincadeira de crianças em terreno da siderúrgica Mannesmann termina em queimaduras e mortes
ALAN RODRIGUES
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Rosana: teimosia da garotada
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IVAN PADILLA
A falta de um muro alto e de placas de advertência na divisa da siderúrgica Mannesmann com as ruas do bairro das Indústrias, em Belo Horizonte (MG), tem espalhado pavor entre os moradores da região. Em busca de um lugar amplo e sem os fios da rede elétrica, as crianças invadem o terreno da siderúrgica para empinar pipas e outras brincadeiras. O problema é que no terreno são depositados resíduos metálicos incandescentes e, nos últimos 20 anos, duas crianças morreram e pelo menos 40 sofreram queimaduras de terceiro grau. As insistentes recomendações feitas pelos pais não surtem efeito. No início do mês, Cristiano Rabelo dos Santos, de nove anos, e Marcos Josimar Fernandes da Luz, de 10 anos, resolveram brincar na área da siderúrgica. Pularam o muro de três metros de altura e o que seria mais uma aventura infantil acabou em tragédia. Eles pisaram em uma camada de meio metro de profundidade de resíduos metálicos incandescentes. Cristiano queimou os braços e as pernas e morreu na quarta-feira 7. Até a terça-feira 27, Marcos permanecia hospitalizado. No mesmo dia, outro menino, Daniel Silva Vermelho, de 11 anos, invadiu a área da siderúrgica e também pisou na escória, ou borralho, como é conhecido o resíduo metálico.
"Cansei de pedir para ele não chegar perto do muro, mas não adiantou. Era um menino muito travesso e teve azar", lamenta Rosana Aparecida Rabelo, mãe de Cristiano, a segunda vítima fatal. Em agosto de 1988, Marco Aurélio Congo, de cinco anos, brincava com um carrinho perto da casa onde morava. O brinquedo escorregou para o terreno da fábrica através de um buraco na cerca de arame. Marco Aurélio foi buscá-lo e caiu em uma poça de resíduos em brasa. Teve queimaduras de terceiro grau por todo o corpo e morreu duas semanas depois. "Não ficamos sabendo da maior parte dos acidentes. A empresa não pode ser responsabilizada por garotos que invadem a área", alega o gerente de comunicação da Mannesmann, Antônio Carlos Ratton. A siderúrgica ocupa uma área de 300 hectares, mas apenas 1,5 quilômetro de divisa com o bairro é murado. O restante do terreno é cercado apenas por telas de arame. O vasto espaço da empresa sempre foi para todos os meninos da região um convite à aventura. "A terra onde afundamos era avermelhada. Nem desconfiamos que tinha borralho embaixo", lembra Marcos. O borralho que cobre grande parte do terreno é constituído de restos metálicos dos altos-fornos e pó de carvão vegetal, que são jogados ali ainda em brasa. "Todo esse rescaldo demora dias para esfriar e coloca em risco a população local e os próprios funcionários", denuncia João Batista Cassiano, do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem.
ALAN RODRIGUES
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Montanha de pó de carvão da Mannesman
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Por este e outros problemas, a empresa vem sofrendo uma fiscalização sistemática da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Em fevereiro de 1995, a Mannesmann foi multada por descumprir um compromisso firmado em 1993. Um dos pontos do acordo exigia que a siderúrgica cobrisse a pilha de resíduos sólidos com terra e cobertura vegetal. A empresa não cumpriu o acordo. Em março deste ano foi novamente multada. "Estamos passando por dificuldades. Pedimos um adiamento do prazo", afirma Ratton. Desde que se instalou na região, há 42 anos, a Mannesmann nunca adotou qualquer medida para impedir os acidentes e nem para um controle da poluição. Depois da morte de Cristiano, a siderúrgica decidiu tomar algumas providências. Promete espalhar placas de sinalização em volta de todo o terreno e a vigilância será aumentada. Também serão distribuídos folhetos explicativos sobre os perigos existentes na área industrial. "Vamos investir em um programa de conscientização da população", afirma Ratton. "Será bom que de fato alguma coisa seja feita, mas nada trará meu filho de volta", diz José Vicente, pai de Cristiano.
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| ExpedienteCopyright 1996 Editora Três
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