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7 de agosto de 1996
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Operação Planalto
Governo elabora um pacote com 44 grandes obras em todo o País para ajudar os candidatos do PSDB e tentar garantir o projeto de reeleição de FHC

JOSÉ VARELLA

Sérgio Motta: ataques para ajudar José Serra

ANDREI MEIRELES

Pressionado pelo fraco desempenho da candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo, o Palácio do Planalto decidiu agir. O objetivo é tentar evitar o fracasso eleitoral do PSDB nas principais cidades do País e ainda assegurar o projeto de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Parte da estratégia é o anúncio de um ambicioso e pomposo Plano de Metas. Trata-se nada mais nada menos do que um pacote contendo 44 grandes obras espalhadas por todo o País. Uma iniciativa tão nova quanto a calvície de José Serra. O governo também estuda a possibilidade de tomar uma série de medidas para reativar a indústria e reduzir o desemprego, principalmente em São Paulo. Com essas providências e o início, na sexta-feira 2, da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, FHC aposta numa virada eleitoral na capital paulista. "O presidente e nós todos temos que fazer o possível e o impossível para ajudar a eleger Serra", justifica o presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho (AL).

Precavido, mesmo apostando na possibilidade de uma reação do candidato tucano na maior cidade do País, o presidente Fernando Henrique já prepara alternativas para tentar aprovar a emenda da reeleição caso Serra não consiga fazer sua candidatura decolar. Com agrados e acenos nos bastidores, FHC está tentando neutralizar a oposição do prefeito paulistano Paulo Maluf e do presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney (PMDB-AP), a seu projeto de permanecer no poder até o ano 2002. Para afagar o presidente do Congresso, na segunda-feira 29, Fernando Henrique resolveu inflar o balão da governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Ele prometeu a ela que a ferrovia Norte-Sul e a construção da BR 230 - que ligará as áreas de produção agrícola do Estado ao porto de São Luís - serão incluídas no tal Plano de Metas. Disse também que a idéia do governo é divulgar esse pacote até o final de agosto. Tudo indica que os afagos na governadora não trouxeram resultados concretos. Candidatíssimo a voltar ao Planalto em 1998, Sarney não está nem um pouco interessado em ajudar os planos continuístas de FHC. "É puro delírio. Não há a menor possibilidade de Sarney apoiar o projeto de reeleição", assegura o presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE).

A ofensiva palaciana parece fadada ao fracasso também quando o paquerado é o PPB de Paulo Maluf. Apesar de contar com a ajuda do presidente do partido, senador Esperidião Amin (SC), e do ministro da Indústria, do Comércio e Turismo, Francisco Dornelles, o Palácio do Planalto não está tendo êxito na tentativa de um entendimento com o prefeito de São Paulo. Candidato à sucessão de FHC, Maluf continua empenhado em derrotar a proposta de reeleição. "Nem pensar. A reeleição já está morta", descarta Maluf, sempre que questionado sobre o tema. Uma de suas principais preocupações, agora, é unir seu partido contra os planos de Fernando Henrique. Pesa a seu favor o fato de seu candidato em São Paulo, Celso Pitta, não parar de crescer nas pesquisas. Um levantamento feito pelas lideranças governistas, porém, estimula o Planalto a não desistir da luta. Segundo a pesquisa, faltam apenas 43 votos para que a emenda da reeleição seja aprovada na Câmara. Para conseguir esses votos, sem os quais a proposta será rejeitada, os coordenadores do movimento pró-reeleição aconselharam o presidente a garimpar no terreno pouco favorável dos malufistas e sarneysistas.

JOSÉ VARELLA

Brizola: "O governo será punido"


Enquanto nos bastidores faz acenos a adversários, Fernando Henrique aprovou em reunião com o alto tucanato, na quarta-feira 24, a adoção de uma série de providências para tentar ajudar o desempenho do PSDB nas urnas. Além do anúncio de grandes obras que estão sendo mantidas em sigilo para provocar um impacto eleitoral maior, FHC escalou o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, para bater nos principais concorrentes de Serra em São Paulo. Serjão, conhecido por sua tagarelice e capacidade de vencer obstáculos, não perdeu tempo. Na sexta-feira 26, ele transformou em comício uma solenidade no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para anunciar a implantação de 18,5 mil telefones públicos em conjuntos habitacionais no Estado de São Paulo. "A escolha dos paulistanos se dá entre a enganação da população com a adoção de atos administrativos nojentos e o caminho de compromisso com a maioria dos contribuintes. E todos sabem que Serra é o único que pode trilhar esse caminho", discursou o ministro, num ataque aberto a Maluf.

Com a corda toda, na terça-feira 30, aproveitou a presença em seu Ministério dos medalhistas olímpicos Gustavo Borges e Fernando Scherer, o Xuxa, para aumentar o tom dos ataques aos adversários de Serra. "Em São Paulo, há um candidato que explora a crendice popular, uma candidata que deixou a prefeitura com os piores índices sociais do País e um outro que parece um boneco de ventríloquo", disparou Serjão. Dessa vez, recebeu o troco. "O governo está sendo punido pelas urnas e parte para o desespero", reagiu o presidente do PDT, Leonel Brizola. "Francisco Rossi (candidato do PDT à prefeitura paulistana) é um homem correto e equilibrado e tem correspondido plenamente à nossa expectativa", completou. Em carta endereçada ao ministro das Comunicações, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) rebate as críticas ao desempenho da Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo. "Já que o senhor se preocupa tanto com o social, recomendo que ressalte a evolução do desemprego no governo Fernando Henrique", ironizou Suplicy.

Mesmo com as dificuldades enfrentadas nas duas direções em que o Planalto aposta para viabilizar a reeleição de FHC, o PSDB não se dá por vencido. Há duas semanas, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, fez a líderes partidários governistas uma exposição na qual previa que a economia estará reativada no final de setembro. "Sem dúvida, isso ajudará nossos candidatos", diz o líder do governo no Congresso, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF). Nesta terça-feira 6, a direção nacional do PSDB se reúne em Brasília para avaliar o que pode ser feito para ajudar os candidatos do partido em todo o País. Além de São Paulo, a nobre tucanagem tem uma preocupação especial com as eleições no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, que compõem o chamado "Triângulo das Bermudas" da política nacional.

Além de distribuir vasto material de propaganda com vinhentas e peças publicitárias que vinculam o partido ao Plano Real, o comando do PSDB tem preocupações mais concretas para ajudar seus candidatos. A idéia é influir ao máximo no Plano de Metas e nas próximas decisões da política econômica para tentar faturar eleitoralmente com medidas como o estímulo às exportações. "Esses projetos serão uma prova de que a melhor candidatura em São Paulo é a de José Serra, porque mostrarão que as coisas boas para a indústria paulista estão ligadas a ele", afirma o secretário-geral do PSDB, deputado Arthur Virgílio Neto (AM). "Se o governo federal fizer isso, vai estar usando dinheiro público para fazer política. Até agora, só fizeram marketing", responde o presidente nacional do PT, José Dirceu. Para alavancar a candidatura do deputado estadual Sérgio Cabral Filho (PSDB) à Prefeitura do Rio de Janeiro, pelo menos os recursos para a ampliação do Porto de Sepetiba estarão previstos no Plano de Metas. "Quando o governo, às vésperas das eleições, começa a anunciar a contratação de obras milionárias é porque bateu desespero e já não consegue mais recuperar a credibilidade perdida", critica Brizola. "O que ocorrerá em outubro nos grandes centros urbanos será um julgamento do governo Fernando Henrique. E não vai adiantar a apelação para o Plano Real, pois essa bananeira já deu cacho", acrescenta o ex-governador carioca.

Nas hostes tucanas, apesar das pesquisas eleitorais, o real é ainda considerado um grande eleitor. "Claro que o real ajuda", diz Arthur Virgílio. Por isso, o PSDB insiste em apostar na vinculação de seus candidatos com o governo federal e com a queda da inflação. Todo o esforço do Planalto, porém, pode não ser aceito. Mesmo municiado para a defesa da política econômica durante a campanha, Serra não parece convencido de que uma ajuda do governo resulte em votos. "Pode até atrapalhar", admite com inimaginável franqueza. Apesar disso, vai usar nos programas de televisão depoimentos de ministros populares em São Paulo, como Paulo Renato, da Educação. A primeira-dama Ruth Cardoso também vai gravar uma mensagem de apoio para a campanha de Serra. Já o presidente Fernando Henrique Cardoso não pretende usar o palanque eletrônico em favor de seu candidato. No Palácio do Planalto, a informação é a de que o presidente continuará, sempre que perguntado, a dar declarações de apoio a Serra, mas não vai gravar para a propaganda na televisão e nem participar de comícios.

A ausência de FHC na propaganda de Serra não significa que o presidente tenha jogado a toalha. "Só depois de um mês de horário eleitoral na televisão é que as pesquisas vão captar a verdadeira tendência dessa disputa", comentou Fernando Henrique com assessores na semana passada. Se o presidente estiver certo e Serra conseguir virar o jogo para vencer a eleição, será a glória do PSDB paulista. Afinal, desde que foi criado, em 1988, o partido nunca elegeu o prefeito de São Paulo e hoje tem o governador do Estado e o presidente da República. Mas, se o eleitor continuar resistindo a votar no candidato peessedebista, a cúpula do partido entrará em estado de alerta porque o sonho da reeleição ficará muito mais distante.


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