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24 de abril de 1996
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A terra prometida da seita Moon
ISTOÉ entra na fazenda em Mato Grosso do Sul onde o líder religioso reúne adeptos de todo o mundo


A legião estrangeira de Moon: felicidade aparente, trabalho duro e casamentos arranjados pelo "pai"

EDNA DANTAS E JUCA RODRIGUES (FOTOS), DE JARDIM (MS)

Um dos homens mais polêmicos - e ricos - do mundo, o coreano Sun Myung Moon descobriu onde fica a terra prometida. É no coração do Brasil, no município de Jardim, Mato Grosso do Sul. Lá, o chefe da controvertida Seita Moon, acusado de cooptar jovens e submetê-los a lavagem cerebral, está construindo uma de suas bases mais importantes em todo o mundo. Ele já atraiu gente de mais de 10 países para a Fazenda Nova Esperança, área de 250 hectares registrada em cartório em nome da Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial. São homens e mulheres, com idades entre 20 e 40 anos, dispostos a obedecer cegamente as ordens do reverendo. É ele, por exemplo, que determina quem casa com quem, marca a data da primeira relação sexual do casal e, até, indica as melhores épocas para a concepção de filhos. Não admite contestações. "O 'pai' traz o ponto de vista de Deus", acredita a inglesa Susan Fox, de 39 anos, devota de Moon há 18 anos. "Ele escolhe como as coisas irão se desenvolver no futuro".
Na verdade, mais do que um chefe religioso multinacional, Moon é um bem sucedido homem de negócios, que ergueu nos últimos 40 anos uma fortuna estimada em US$ 8 bilhões. Dinheiro com origem nos estímulos financeiros dados pelos EUA e a Coréia do Sul, que viam com bons olhos a cruzada anti-comunista daquele ex-preso político do regime da Coréia do Norte, onde Moon nasceu. A partir dessa iniciação política, rapidamente ele avançou pelo filão da religiosidade. Em 1952, no lado capitalista da Coréia, organizou sua primeira igreja - a base da seita que, hoje, contabiliza 8 milhões de fiéis e templos esparramados por 160 países. Suprema contradição, Moon foi preso por sonegação fiscal em 1982 pelos mesmos Estados Unidos que o financiaram no passado. Solto e com trânsito irrestrito por todo o planeta, o império do reverendo engloba desde fábricas de armamentos e barcos pesqueiros a um gigantesco parque editorial, com destaque para o jornal norte-americano "Washington Times". Moon também investe em fazendas e para elas direciona fiéis escolhidos a dedo. Nesses campos ecologicamente corretos, eles enfrentam duros estágios que incluem trabalho voluntário e centenas de horas de orações. Na última semana, ISTOÉ conviveu com o dia-a-dia da terra prometida do reverendo Moon no Brasil e descobriu os extremos da devoção.
Quatro e meia da manhã. O sino toca antes mesmo do sol se levantar. Vestidos com roupas simples, alguns com trajes rasgados, jovens sonolentos surgem lentamente de duas grandes barracas de lona amarela e bambu. Os homens dormem na que fica do lado direito a um templo improvisado no mesmo material. As mulheres, no lado oposto. Em breve, eles ocuparão alojamentos de alvenaria e o templo terá uma nave com capacidade para cinco mil pessoas. "Todos aqui são livres para entrar e sair de nossa propriedade na hora que desejarem", apressasse-se em explicar, num inglês pouco fluente, o segundo homem na hierarquia mundial da seita Moon, o reverendo Yoon-Sang Kim. Ele supervisiona todas as atividades na Fazenda Nova Esperança, que passou para as mãos da organização há um ano e quatro meses. "Nosso objetivo é produzir alimentos para quem tem fome". Para ganhar simpatia dos habitantes da cidade de Jardim e região, parte da produção da propriedade é doada a entidades assistenciais. A seita também costuma abrir a fazenda para banquetes e reuniões religiosas, nas quais as pessoas mais influentes dos arredores são convidadas. No último desses encontros, para 300pessoas, em 3 de fevereiro, o reverendo Moon em pessoa, acompanhado por sua mulher, compareceu. Aproveitou para falar durante uma hora e meia sobre religião. Enquanto isso, seu segundo Yoon-Sang Kim aproveitava para sondar os fazendeiros vizinhos sobre possibilidades de bons negócios imobiliários na região. Na última semana, a seita comprou mais 3 mil hectares de terra no município de Porto Murtinho, onde uma fazenda à semelhança da Nova Esperança já vai sendo organizada. O plano de Moon e seus homens é ousado: adquirir 300 mil hectares de terra e implantar no coração do País o maior centro de difusão de sua doutrina religiosa em todo o mundo.
De olho numa relação mais estreita com os moradores locais, os homens do reverendo tentaram comprar um supermercado e uma padaria, sem êxito. Para angariar simpatias, Moon prometeu durante sua última passagem pelo País, no início de abril, a doação de 26 ambulâncias importadas que serão distribuídas entre 26 municípios próximosa Jardim. Em cada uma das cidades contempladas, a seita pretende investir no trabalho de missionários. Moon não dá ponto sem nó. Enquanto prepara terreno nas bases, seus representantes selecionam discípulos na política local. O escolhido para concorrer à prefeitura de Jardim é Luiz Ribas, dono de uma funerária que até um ano atrás só conhecia o reverendo Moon por notícias de televisão. Hoje, Ribas ocupa o cargo informal de porta-voz da seita.
Alheios aos negócios, os seguidores da seita são um exemplo da disciplina que impera no reino de Moon. Na fazenda Nova Esperança, o dia mal acabou de nascer e eles já estão em campo. "Aqui, o mais difícil é resistir aos desejos", diz o tcheco Roman Velicka, de 22 anos. "Acordar cedo é muito difícil". Ninguém, entre eles, porém, desacata o horário estabelecido. Às cinco horas, o pastor coreano Hee Sun Ji puxa as primeiras orações do dia. A sessão dura meia hora. É o pastor Ji, também, que acompanha a pequena legião estrangeira de Moon na lida com a terra, os animais e organiza pescarias, o passatempo preferido do chefe. Antes de partirem para o trabalho, os próprios "moonies", como são conhecidos os adeptos da seita no exterior, ou "lunáticos", apelido adquirido no Mato Grosso, dividem entre si as tarefas a serem realizadas até às cinco e meia da tarde, quando atingem o primeiro momento de descanso e partem, em seguida, para os estudos da bíblia segundo Moon (leia quadro ao lado). Eles só poderão dormir a partir das dez da noite. Ao grupo de 40 pessoas, que chegou à fazenda em datas diferentes e de regiões tão distintas quanto o Japão, Nova Zelândia, Áustria, Paraguai e Estados Unidos, é vedada qualquer prática sexual. Há apenas três casais estabelecidos. Dois coreanos, cujos cabeças são o reverendo Kim e o pastor Ji, e um terceiro formado pelo japonês Futoshi Hirano e a americana Sita. Esses dois tiveram o casamento determinado pelo reverendo Moon seis anos atrás. Hoje tem um casal de filhos pequenos e aguardam a chegada do terceiro, em dois meses. "Desde que conheci a igreja do reverendo Moon, minha vida melhorou muito", garante o japonês Futoshi, um ex-modelo profissional que aderiu à seita sete anos atrás. Sua mulher, Sita, fala pouco, mas costuma exibir um sorriso constante.
A comunidade internacional de Moon no Brasil, de fato, parece feliz. "Quando o reverendo voltar, saberei quem será a minha esposa", aguarda o paraguaio Fernando Ramirez, de 20 anos. Ele é o único solteiro do grupo e não tem nenhuma pista sobre de qual parte do mundo o reverendo irá pinçar sua mulher. "O que o 'pai' escolher é o melhor para mim." Há cinco brasileiros entre os aprendizes de missionários. Um deles é o paulistano Edivaldo Oliveira. Formando em Teologia pela Faculdade que a seita Moon mantém em São Paulo, no bairro de Santo Amaro, Oliveira ainda tem de esperar dois anos para ser autorizado a manter sua primeira relação sexual com a mulher Jacqueline Fabros, 20 anos, que neste momento vive numa propriedade da seita nas Filipinas. O casamento entre eles foi celebrado pelo próprio Moon - o único autorizado a comandar este tipo de cerimônia -, via satélite, em agosto do ano passado. "Em meu coração, estava preparado para receber alguém de qualquer parte do mundo", diz o brasileiro Oliveira, a quem foi destinada uma mulher filipina. "O Brasil e o mundo ainda não compreenderam a importância da obra do reverendo Moon. Ele é o 'Messias'". É este tipo de devoção cega que preopuca ao menos um dos habitantes de Jardim. "Há tanto lugar no Brasil, porque ele veio parar justamente aqui na minha cidade", irrita-se o bispo Onofre Cândido da Rosa, de 71 anos, responsável pela Igreja Católica em doze cidades da região. "Nosso povo não tem conhecimento capaz de enfrentar uma doutrinação tão poderosa". Preocupado, o religioso aguarda uma resposta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) às suas constantes consultar, para saber como combater um inimigo tão poderoso.


Bíblia reescrita

Criado em uma família presbiteriana, o reverendo Moon reeditou a história bíblica ao fundar sua própria igreja. O livro Princípio divino, escrito por ele, derruba dogmas cristãos, reconta a trajetória de Jesus Cristo na terra e investe na teoria de que ele é o enviado de Deus, o Messias. A bíblia cristã serve, apenas, para justificar algumas de suas interpretações. Para começar, alardeia Moon, Jesus Cristo não foi gerado pelo Espírito Santo, como apregoam os cristãos em geral, mas concebido a partir de uma relação sexual de Maria com o sacerdote Zacarias. O ato, na concepção "moonista", geraria um ser puro. Por consequência, Jesus seria irmão de João Batista, o responsável pelo anúncio da vinda do Messias.
Para desespero dos cristãos, Moon afirma que Jesus fracassou em sua missão de salvar o mundo porque não constituiu uma família. Não casou e nem teve filhos. Na concepção do reverendo, só através do casamento é possível se encontrar a plenitude espiritual. Moon se define como um ser iluminado, enviado por Deus para fazer o que Jesus não conseguiu fazer. Por isso ele tem o poder de escolher quem casa com quem, além de determinar quando cada casal deve ter sua primeira relação sexual. O movimento da unificação, liderado por ele, proíbe qualquer prática impura. A masturbação, por exemplo, não é sequer abordada na doutrinação dos fiéis.

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