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4 de abril de 1997


A TV Cultura de São Paulo deve veicular comerciais?


Foto: JUCA RODRIGUES

"É o momento da emissora
lançar-se no mercado em
busca de recursos para
custear a sua programação"

CLÓVIS VOLPI
Deputado (PSDB/SP), autor do projeto que autoriza a veiculação de publicidade pela TV Cultura

O projeto aprovado pela Assembléia Legislativa que autoriza a veiculação de publicidade pela TV Cultura de São Paulo mostra que chegou o momento de a emissora lançar-se no mercado em busca de recursos para custear sua programação. Essa tendência, que é mundial, não descaracteriza os objetivos principais de uma emissora educativa, principalmente se a restrição aos comerciais de bebida alcoólica, cigarros, medicamentos e agrotóxicos for respeitada. A TV Cultura é um serviço público eficiente. Para ter acesso, basta apertar um botão, sem fila ou burocracia. Sua programação, premiada internacionalmente, alcança 14 Estados brasileiros e é assistida por dez milhões de pessoas em todo o País.

Deixar essa potencialidade atrelada às possibilidades financeiras do Estado é submeter a capacidade de profissionais especializados a uma limitação sem sentido e tirar do telespectador-contribuinte a oportunidade de optar por uma programação diferenciada. É necessário que os atuais dirigentes da Fundação Padre Anchieta, que têm restrições ao projeto, façam uma reflexão sobre os fatos antes de fechar questão a respeito do assunto. Ninguém deseja - e muito menos o projeto propõe - que a TV Cultura preencha seus programas infantis com merchandising e o horário nobre com pares românticos e seminus. O que se espera é que sua direção esteja sempre consciente da responsabilidade de educar crianças e jovens e que utilize a verba da publicidade sempre para essa finalidade.



Foto: CARLOS FENERICH

"Sejam feitas concessões ao
consumismo, mas respeitem-se
reservas intelectuais
como a TV Cultura"

STALIMIR VIEIRA
Diretor de criação da WG/Stalimir e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing

Recentemente, provoquei um grande alvoroço entre meus alunos ao determinar que não usassem bonés nas aulas. Não perceberam que eu apenas lhes pedia uma certa reverência ao local em que constroem seu aprendizado: descobrir a cabeça é um símbolo de respeito. Num equívoco colossal, entenderam que eu os estava privando de suas liberdades. Bastaria, no entanto, se perguntarem por que, enfim, usam bonés para compreender o grande paradoxo: sua bandeira de luta, o boné, não passa de um símbolo que a publicidade lhes impôs. Ocorre-me tudo isto, ao opinar sobre a possibilidade de a TV Cultura exibir anúncios. Acho que usar bonés na sala de aula ou exibir comerciais na TV Cultura são atitudes que carregam os mesmos desvios conceituais e pecam pela inadequação. Quando o professor Jorge Cunha Lima alerta que a TV Cultura deve ter o ritmo da reflexão, enquanto a televisão comercial tem o ritmo do mercado, está dizendo que a educação é um processo paulatino e cumulativo e que a publicidade é imediatista. É claro que a publicidade gera os recursos que viabilizam muitos projetos. Mas da mesma forma com que o homem, em nome da própria sobrevivência, começa a estabelecer as reservas naturais do planeta, onde o progresso devastador não entra, com relação à cultura não deve ser diferente. Sejam feitas as concessões necessárias ao consumismo, a fim de estimular os investimentos que geram empregos, mas respeitem-se reservas intelectuais como a TV Cultura. Só assim formaremos jovens de cujas cabeças, no futuro, possamos, quem sabe, aproveitar alguma coisa, além de seus bonés.


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