![]() 28 de maio de 1997
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CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO
Ninguém em sã consciência poderá afirmar que o presidente Fernando Henrique Cardoso não goze da confiança da opinião pública. Afinal, ele tem o apoio de 49% dos brasileiros, de acordo com a mais recente pesquisa do Ibope, divulgada na quinta-feira 22. Trata-se de um índice elevado, sem dúvida. Mas parece evidente que algo mudou. Há dois meses, FHC comemorava uma popularidade que era computada em índice estratosférico de 70% de aprovação a seu governo. A queda de 21 pontos, a primeira significativa desde a sua posse, em janeiro de 1995, deve levar o governo a pensar. As causas não podem ser minimizadas. E elas são perceptíveis a qualquer observador. O principal fator da redução do índice nacional de aprovação ao governo, não resta dúvida, foi o reduzido reajuste do salário mínimo. Com a estabilidade da economia, as pessoas passaram a consumir muito mais do que no tempo em que viviam sacrificadas pela inflação. A expectativa era de que o novo salário permitiria não apenas manter os atuais índices de consumo mas inclusive elevá-los. Como o governo optou por um reajuste de não mais do que R$ 8, provavelmente porque não dispõe de caixa suficiente para um salto maior, houve grande desilusão. À frustração com o novo mínimo de R$ 120 soma-se o desgaste político enfrentado pelo governo com a venda da Vale do Rio Doce. A campanha contra a privatização da companhia foi mais ruidosa do que imaginava o presidente. O suspense que resultou do festival de liminares obtidas pela oposição na Justiça para adiar o leilão em cima da hora foi negativo para o governo. Além disso, o estilo truculento de um de seus ministros, Sérgio Motta, que trata de forma radical e próxima da arrogância alguns assuntos, depõe contra a linha moderada de FHC, que prefere um estilo de homem de Estado. Mas o presidente não pode se enganar. Outro fator de declínio de sua popularidade é a falta de solução para o problema da reforma agrária. Tal como ocorreu no episódio da privatização da Vale do Rio Doce, a ação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) acaba atingindo a figura do chefe do governo. Tudo isso poderia ser contornado se o governo tivesse respostas concretas para o problema fundiário. Para completar o quadro, o País vive uma sucessão de escândalos. A cada semana, uma nova denúncia abala a opinião pública. A tal ponto que, no momento em que um caso começa a ser apurado, surge logo outro a causar impacto. Embora nada tenha a ver diretamente com o presidente, a crise de credibilidade afeta a imagem de toda a classe política. O ambiente de descrédito atinge também o governo e respinga nos índices de popularidade do presidente. Ressalte-se que a pesquisa do Ibope foi realizada entre os dias 7 e 13 de maio, portanto antes da divulgação do escândalo da compra de votos para a reeleição no Congresso. Isso, obviamente, afetou ainda mais a credibilidade do governo. Quando a popularidade de um presidente cai, não adianta requisitar uma rede nacional de rádio e televisão para fazer um pronunciamento à Nação. A resposta precisa vir com realizações. E note-se que o real continua muito bem, obrigado. A população quer manter a estabilidade da economia. Só que, nos últimos meses, o governo deu a impressão de ficar paralisado por conta do esforço em aprovar a tese da reeleição no Congresso Nacional e as reformas administrativas. O fato de não ter realizado as reformas também desgasta o presidente. Agora, prever se esse declínio constatado pelo Ibope vai se acentuar ou não é tarefa para adeptos da futurologia, o que não é, definitivamente, o nosso caso.
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