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LIVRO: A Chave
Junichiro Tanizaki
Companhia Das Letras
Tradução Jefferson José Teixeira

As formas do corpo de minha mulher eram na realidade tais como as imaginara. A pureza da pele de todo o seu corpo ultrapassava a minha imaginação. A maioria das pessoas possui em algum lugar do corpo um sinal qualquer, uma pinta marrom ou negra. Mesmo procurando minuciosamente não encontrei nenhuma em seu corpo. Virei-a de bruços e investiguei até mesmo a reentrância de suas nádegas. Mesmo ali sua pele é branquíssima. Por todo o corpo a pele se preservara sem marcas ou pintas apesar de já ter atingido quarenta e cinco anos e ter dado à luz a uma filha. Durante os longos anos de nosso casamento só me fora permitido acariciá-lo com as mãos, no escuro, sem poder admirar a grandiosidade de seu corpo. Quando penso nisso creio ter sido uma grande felicidade não poder tê-lo contemplado. Após mais de vinte anos de vida em comum, um marido que se espanta ao descobrir pela primeira vez a beleza do corpo nu da própria esposa sente como se recomeçasse um novo casamento. Chegou o tempo de deixar para trás o cansaço matrimonial. Posso amar minha esposa com a paixão transbordante do passado, redobrada.

Tornei a virá-la de frente. Por alguns momentos meus olhos devoraram seu corpo. Suspirei de lamentação. De repente, voltei a me perguntar se ela estaria realmente dormindo, acreditando estar fingindo apenas. No início, estaria adormecida, mas em certo momento acordara, espantara-se diante de tão insólita situação e, envergonhada de sua aparência, fingira dormir. Pelo menos, assim eu imaginava. Talvez fosse apenas ilusão de minha parte, mas, mesmo que improvável, acreditava nessa ilusão. O corpo de mulher possuidor de pele tão alva e bela deixava-se movimentar à minha revelia, tal qual um cadáver e, no entanto, estava bem vivo e consciente. Assim pensava eu, invadido de incomensurável alegria. Mas, se ela estivesse dormindo de verdade, seria melhor não escrever sobre esses jogos indecentes a que me entreguei. Se ela souber, não evitará se embriagar daqui em diante? Não, na certa não deixará de lado a bebida. Parar seria uma prova de que lê meu diário às escondidas. Se não lê, não deverá saber o que eu fiz enquanto ela estava inconsciente.


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