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Intimidade
Hanif Kureishi
Editora Companhia das Letras
Tradução: Celso Nogueira
É
a noite mais triste, pois estou indo embora e não vou voltar.
Amanhã de manhã, quando a mulher com quem vivi durante
seis anos sair de bicicleta para o trabalho e as crianças
forem jogar bola no parque, arrumarei a mala, deixarei minha casa
levando pouca coisa, torcendo para que não me vejam, e pegarei
o metrô até onde Victor mora. Lá, dormirei no
chão por um período indeterminado, no quartinho que
ele me ofereceu gentilmente, ao lado da cozinha. Devolverei o fino
colchão de solteiro ao guarda-louça, todas as manhãs.
Guardarei o acolchoado malcheiroso numa caixa. Ajeitarei as almofadas
de volta no sofá.
Não retornarei a esta vida. Talvez deva deixar um bilhete
informando: "Cara Susan, não vou voltar...". Talvez
seja melhor telefonar amanhã de tarde. Ou fazer uma visita
no fim de semana. Ainda não resolvi os detalhes. Mas tenho
quase certeza de que hoje à tarde ou à noite não
revelarei minhas intenções. Adiarei. Por quê?
Porque palavras são atos e provocam acontecimentos. Depois
que saem não se pode recolhê-las. Algo irrevogável
terá sido feito, e eu estou temeroso e inseguro. A bem da
verdade, trêmulo. Passei a tarde assim, o dia inteiro.
Portanto, esta pode ser nossa última noite como uma família
inocente, completa, ideal; minha última noite com uma mulher
a quem conheço há dez anos, uma mulher sobre a qual
sei quase tudo e de quem não quero mais saber. Logo seremos
dois estranhos. Não, jamais chegaremos a tanto. Ferir alguém
é um ato de relutante intimidade. Seremos perigosos conhecidos
com um passado em comum. Naquela primeira vez em que ela segurou
meu braço, preferia ter me afastado. Por que não fiz
isso? Desperdício; desperdício de tempo e de sentimento.
Ela disse algo parecido a meu respeito. Falávamos a sério?
Vejo pelo menos três lados em todas as questões.
Sentado na beirada da banheira, observo meus filhos, de três
e cinco anos, um em cada ponta. Os brinquedos bóiam, animais
e frascos de plástico; estão falando sozinhos ou um
com o outro, para variar sem brigas ou provocações.
São agitadas e incontroláveis, as pessoas comentam
que crianças felizes e afetivas eles são. Naquela
manhã, antes de iniciar o dia, sabendo ser preciso dar um
jeito no que passava pela minha cabeça, ouvi o mais velho
dizer quando eu já ia fechar a porta, pedindo mais um beijo,
insistente: "Papai, eu amo todo mundo".
Amanhã tomarei uma atitude que irá feri-los e marcá-los.
O mais novo tinha usado calça cáqui, camisa cinza,
suspensório e capacete de policial. Enquanto punha as roupas
no cesto fui despertado por um ruído lá fora. Respirei
fundo.
Já chegou!
Ela está empurrando a bicicleta no corredor. Está
tirando as sacolas de compras do cesto.
Nos últimos meses, e particularmente nos últimos dias,
onde quer que eu estivesse - trabalhando, conversando, esperando
o ônibus -, contemplei este rompimento, por todos os ângulos.
Deixei passar a estação do metrô, várias
vezes, ou quando dava por mim estava num lugar familiar que eu não
havia reconhecido. Nem sempre sei onde estou, o que pode ser uma
experiência agradável e instigante. Todavia, atualmente
ando com a impressão de que eu estou vendo tudo de cabeça
para baixo.
Tento me convencer de que abandonar uma pessoa não é
a pior coisa que se pode fazer a alguém. Talvez seja melancólico,
mas não precisa ser trágico. Se a gente nunca deixa
para trás nada nem ninguém, não sobra lugar
para o novo. Naturalmente, avançar é uma infidelidade
- para com os outros, o passado, as antigas idéias que cada
um faz de si. Quem sabe se cada dia não devesse conter pelo
menos uma infidelidade essencial ou uma traição necessária.
Seria uma atitude otimista, esperançosa, que garantiria a
crença no futuro - uma declaração de que as
coisas podem ser melhores, e não apenas diferentes.
Portanto, estou trocando Susan, meus filhos, minha casa e o quintal
cheio de pés de maconha e cerejeiras em flor que avisto pela
janela do banheiro por um canto na casa de Victor, por vento frio
e poeira no chão.
Há oito anos Victor deixou a mulher. Desde então -
exceto pela prostituta chinesa que toca piano pelada e que leva
todos os apetrechos aos seus encontros - seus relacionamentos amorosos
foram todos insatisfatórios. Se o telefone toca ele executa
uma espécie de dança do pânico, imaginando a
humilhação que terá pela frente, e de que tipo.
Victor é capaz de dar esperança às mulheres,
mesmo quando não lhes dá satisfação.
Achamos os pubs e os restaurantes mais aconchegantes. Reconheço
que Victor, quando não está num canto escuro, com
os olhos fundos e as pupilas dilatadas de incompreensão e
ressentimento, é boa-praça, divertido até.
A ele pouco importa se permaneço calado ou se tagarelo. Acostumou-se
ao modo como pulo de um assunto para outro, seguindo os impulsos
naturais das idéias. Quando pergunto por que a mulher ainda
o odeia, ele responde. Como meus filhos, adoro uma boa história,
principalmente se já a ouvi antes. Quero conhecer os detalhes,
a atmosfera. Mas, como alguns ingleses, ele fala devagar. Por vezes,
não faço idéia se está apenas esperando
que outra palavra lhe ocorra ou se nunca mais vai falar. Resta-me
apenas aproveitar esses intervalos como uma oportunidade para o
devaneio. Será que vou querer monólogos e pausas,
chopes e pubs, todos os dias?
Susan está no quarto, agora.
Ela diz: "Por que você nunca fecha a porta do banheiro?".
"Como é?"
"Por que não fecha?"
Não consigo pensar num motivo.
Ela beija as crianças animadamente. Adoro seu entusiasmo
por elas. Quando conversamos de verdade, é sobre nossos filhos,
o que disseram ou aprontaram , como se fossem uma paixão
que ninguém mais pudesse compartilhar ou compreender.
Susan não me toca, apenas coloca a face a alguns centímetros
de meus lábios, de modo que para beijá-la preciso
me bebruçar, algo humilhante para ambos. Recende a perfume
e rua.
Vai trocar de roupa e volta de jeans e blusão de moletom,
com uma taça de vinho para cada um de nós.
"Oi, tudo bem?"
Ela me olha com dureza, para me obrigar a notar sua presença.
Sinto que meu corpo se contrai e encolhe.
"Tudo bem", respondo.
Balanço a cabeça e sorrio. Será que ela vê
alguma diferença em meu rosto, hoje? Revelei minhas intenções?
Acho que pareço cansado. Normalmente, antes de encontrá-la
ensaio dois ou três assuntos prováveis, como se nossas
conversas fossem chamadas orais. Sabe, ela me acusa de não
ser capaz de dialogar. Se ao menos soubesse o quanto gaguejo por
dentro. Hoje, estive agitado demais para ensaiar. A tarde foi particularmente
difícil. O silêncio, como a escuridão, pode
ser aconchegante; também é uma linguagem. Casais têm
bons motivos para não conversar.
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