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DOIS
IRMÃOS
Milton Hatoum
"Quando
os meninos nasceram, Halim passou dois meses sem poder tocar no
corpo da Zana. Ele me contou como sofreu: achava um absurdo o período
de resguardo, e mais absurda ainda a devoção louca
da esposa pelo caçula. Ele passava o dia na loja, entretido
com os fregueses e os vadios que perambulavam pelos arredores do
porto, ensinando-os a jogar gamão, bebendo arak no gargalo,
como nos tempos da conquista amorosa, da recitação
dos gazais de Abbas. Às vezes voltava alegre, o bafo de anis
na boca, e um ou dois dísticos de amor na ponta da língua,
quem sabe assim ela não saía do resguardo. Por fim,
convencido de que o nascimento dos filhos havia interferido em suas
noites de amor tanto quanto a morte de Galib, lançou mão
da mesma manha, dos mesmos galanteios que tinha usado quando da
morte do sogro. Reconquistou Zana, mas deu adeus ao tempo em que
se arrepiavam de prazer em qualquer canto da casa ou do quintal."
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