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Brasil brasileiro: Crônicas do País, das Cidades e do Povo
Paulo Mendes Campos

Na minha opinião era melhor

Que o Amazonas não fosse o maior rio do mundo em volume de água; o azul dos céus brasileiros não fosse tão escandalosamente azul; Pelé não fosse o melhor jogador de futebol de todos os tempos; nosso hino dispensasse algumas de suas luxuriantes figuras de gramática e outros tantos pararatimbuns; nossas várzeas tivessem menos flores e os nossos bosques menos amores; menos estrelejadas fossem as noites; as borboletas e os pássaros não ostentassem tão variegadas cores; Minas não fosse um peito de ferro num coração de ouro; não existissem tantas e tão deslumbrantes cascatas (véus de noiva) no recesso de nossas matas; os prados se apresentassem um pouco menos verdejantes; os ipês e as quaresmeiras não tingissem de amarelo e de roxo o esplendor de nosso campo; a mulher carioca (até isto) não fosse a mais bela, a mais elegante e a mais encantadora do universo; a nossa mulata cor da lua vem surgindo cor de prata não fosse tão espetacular; a brisa do Brasil beijasse e balançasse menos o auriverde pendão da esperança; o samba se tornasse um ritmo um pouquinho menos irresistível; idem para a moçada brasileira em relação a todas as mulheres da Terra; os irmãos Wright tivessem sido os pioneiros do mais pesado; Carlos Gomes não chegasse a ser um gênio; o sabiá cantasse menos nas palmeiras; o algodão do Seridó fosse o segundo em qualidade; Rui Barbosa tivesse abafado menos em Haia; o Marechal de ferro tivesse sido um pouco mais brando; as praias do nosso litoral não fossem incomparáveis; nossos compatriotas não fossem os donos exclusivos daquilo que se chama modestamente bossa; o brasileiro não fosse tão inteligente e tão fogo na roupa; os nossos pratos típicos não humilhassem tanto as cozinhas estrangeiras; a Europa não se curvasse tão freqüentemente perante o Brasil; a Baía de Guanabara não fosse um escândalo de tão bonita; o Rio fosse um tiquinho menos maravilhoso; São Paulo desse de vez em quando uma paradinha; o sertanejo não fosse antes de tudo (mas depois de umas duas ou três coisas) um forte; não fôssemos logo recebendo os ingleses a bala; o Aleijadinho não tivesse ficado tão doente; Dom Pedro II não tivesse se interessado tanto pelo invento de Graham Bell; a vitória-régia não embasbacasse tanto os forasteiros; os americanos não tivessem tanto pavor da nossa faca e da nossa navalha.

Contanto que:
Tivéssemos água canalizada em abundância; a mortalidade infantil não apresentasse em certas regiões índices negativamente exemplares; a esquistossomose e outras moléstias parasitárias não destruíssem uma bonita percentagem da população; o tracoma, o bócio, a doença de Chagas, a opilação e a lepra não fossem banais; os ladrões públicos não fossem tão numerosos, tão simpáticos e tão ladrões; o brasileiro pudesse comer mais; a carne não fosse tão cara; o leite não fosse tão caro e tão aguado; os remédios e os hospitais dessem para todos; todo brasileiro possuísse pelo menos um par de sapatos; muitos milhões de nossos patrícios não vivessem em condições subumanas; existissem escolas para todas as crianças; nossas câmaras representativas contassem com uma percentagem mínima de 33 homens sinceros e capazes em 100; não exportássemos matérias-primas que virão a faltar-nos daqui a pouco; a competição política fosse menos corrosiva; um largo vento de honestidade lavasse as cabeças reacionárias ainda recuperáveis; não fôssemos tão convencionais; o sertanejo não fosse, antes de tudo, um pobre coitado; os nossos técnicos não fossem tão nebulosamente teóricos; as melhores regiões do Centro e do Sul não estivessem em agressiva disparidade com o resto do Brasil; a frivolidade das classes de cima não tivesse maiores conseqüências; a burocracia fosse um meio e não um sistema.


 
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