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Carga Perigosa
Ivan Sant'Anna
Editora Objetiva

Nenhum detalhe da estrada preocupava a mente de Dimas, entorpecida pelo cansaço. Ele se limitava ao essencial: manter as 18 rodas de sua carreta Scania 112 HW entre a faixa amarela do centro da rodovia e a faixa branca da direita, coisa que fazia maquinalmente. Às vezes falhava, por causa da exaustão. Alguns minutos antes, por exemplo, distraíra-se um pouco. Permitira que as rodas do lado direito ultrapassassem a faixa de acostamento e fossem mordiscar o capim ao lado da estrada, felizmente sem encontrar nenhuma pedra ou obstáculo maior, mas o suficiente para espantar um pouco o sono.
O relógio localizado um pouco acima do pára-brisa marcava onze e meia. Depois de olhar as horas, Dimas usou o polegar e o indicador da mão direita para girar um botão no lado esquerdo do painel e diminuir um pouco a luminosidade dos instrumentos, que o incomodava. Cada uma daquelas pequenas tarefas o ajudava a manter-se acordado. Encontrava-se ao volante desde as seis da manhã da véspera. Com exceção de duas horas de sono na noite anterior, em Vilhena (cidade de Rondônia, na divisa com Mato Grosso), parara apenas para o almoço, banho, janta e abastecimento de combustível.

Os olhinhos de gatos fixados a cada 20 metros na risca central amarela pareciam correr como balas traçadoras ao encontro do caminhão, como se este estivesse parado e a estrada se desenrolasse sob as rodas, à maneira de um jogo de videogame.
Como se não bastasse o cansaço, nas pernas repletas de varizes as articulações do joelho começaram a doer, por causa da grande quantidade de horas na mesma posição. Para aliviar a dor, Dimas puxou um botão localizado no centro do painel - semelhante ao manete de um avião monomotor -, acionando o acelerador de mão. Pôde então tirar o pé do pedal. Esticou a perna para o lado, sentindo enorme alívio. Observou o conta-giros. Viu que acelerara um pouco demais. Empurrou ligeiramente o manete e restabeleceu o ritmo ideal do motor, que antes vinha mantendo com os pés. Girou o botão ligeiramente para a esquerda, apertando-o bem, para manter constante a aceleração.

Aquele trecho da BR-163, no sul de Mato Grosso, entre a cidade de Rondonópolis e a divisa com Mato Grosso do sul, é formado por uma sucessão de retas bem pavimentadas, com amplo acostamento, com quase toda a Rota Noroeste - que liga São Paulo a Porto Velho e Rio Branco. Com exceção de alguns pontos críticos, é uma estrada "leve" (adjetivo que os caminhoneiros usam para definir rodovias planas, com poucas curvas, nas quais se pode manter uma média alta de velocidade, mesmo com o veículo carregado).

Dimas de Souza - 55 anos, mineiro de Governador Valadares, morador havia muitos anos na cidade de São Paulo - costumava dizer que na subida um caminhão gasta óleo. Na descida, freios. Por isso sempre procurava fretes para Mato grosso, Rondônia e Acre, estados que visitava umas 15 vezes por ano. Mas, sendo vantajoso, viajava para qualquer lugar. Orgulhava-se de conhecer quase todo o Brasil.
Considerava São Paulo a melhor cidade para um caminhoneiro morar. Lá havia carga o ano inteiro. Dimas era proprietário de um modesto, mas confortável, sobrado em Guaianazes, na zona leste da periferia da cidade, onde vivia com a mulher, Marilda, e a filha, Priscila. Quase todas as suas viagens se iniciavam ou terminavam na capital paulista. Raramente ficava mais de 20 dias sem ir em casa.

Evangélico, seguidor da Igreja Universal do reino de deus, Dimas não era dos fiéis mais fervorosos. Embora não bebesse em casa, bebia na estrada. Seu dízimo não fazia jus ao termo. Quando muito, doava dois ou três por cento do que lucrava líquido nos fretes. Mas apreciava a dignidade que a religião lhe emprestava. A igreja também servia como pretexto para não ter de ficar se gabando sobre mulheres com os colegas. Pois caminhoneiro, quando não é evangélico, adora falar de mulher. De mulher indecente, saliente, mulher de brega (como são chamados os puteiros de beira da estrada), bem entendido. Dimas era homem de família. Não pegava mulher na rua. Já nem se lembrava da última vez.

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