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Foto: MARCELO MIN
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Representante do laboratório Vepê, que fabrica o Minical, faz uma demonstração de como a substância absorve a gordura
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E S P E C I A L
A nova onda do mar
CARLA GULLO e CILENE PEREIRA
Pergunte a alguém ao lado qual a última novidade em matéria de produtos para emagrecimento. A resposta certamente estará na ponta da língua. São as pílulas à base de quitosana, um extrato de fibra natural que promete ajudar a perder os quilos indesejáveis de maneira simples, rápida e eficaz. Lançados há poucos meses, os produtos já se trans-formaram em verdadeira febre. Só para se ter uma idéia, apesar do pequeno espaço de tempo em que estão disponíveis, essas cápsulas hoje já são responsáveis pela venda de nada menos do que 5,5% das unidades totais comercializadas no competitivo mercado da obesidade. Isso quer dizer que, por mês, estão sendo vendidas 27,5 mil unidades. É muita coisa. E a previsão é de que as vendas cresçam ainda mais com a chegada do verão, quando a corrida para um corpo esbelto se acelera. As razões de tamanho sucesso são claras. A primeira - e a mais óbvia - é a eterna procura por respostas rápidas, indolores e práticas quando o assunto é perder peso. E os novos produtos prometem tudo isso, já que são vendidos em forma de comprimido e podem ser adquiridos nas farmácias ou mesmo por telefone, pelo conhecido sistema de televendas. No entanto, as pílulas poderiam se perder entre tantas outras que já entopem o mercado com a mesma promessa e praticidade. Na realidade, o que está alavancando de forma estrondosa as vendas desses produtos é o fato de eles prometerem agir de maneira semelhante ao Xenical, o festejado remédio da indústria farmacêutica que elimina até 30% da gordura ingerida. Os produtos à base de quitosana afirmam mandar para fora do organismo até 15% de gordura. Mas com duas vantagens consideráveis em relação ao queridinho da farmácia. Não teriam contra-indicação nem provocariam o desconfortável efeito colateral da diarréia incontrolável. Essas vantagens - que renderam aos remédios a alcunha de novos Xenicais - se deveriam ao modo de ação da quitosana. Extraída da casca de crustáceos como camarão, caranguejo, lagosta e de plantas como as algas marinhas, a fibra teria no organismo mecanismos peculiares de funcionamento segundo as duas hipóteses formuladas até agora. Ao ser ingerida, a molécula da fibra atrai a molécula de gordura. Cada grama de quitosana conseguiria absorver, como uma esponja, cerca de 8g de gordura. E como, teo-ri-camente, a fibra passa ilesa pelo intestino, a gordura aprisionada seria eliminada sem maiores problemas. A outra possibilidade é a de que a fibra da quitosana se entrelace às gotas de gordura, impedindo o organismo de aproveitar esse nutriente. Vista de perto e ao vivo, essa ação “limpa-gordura” da quitosana é ainda mais impressionante. O Minical System, da Vepê, um dos produtos mais badalados do gênero, montou um esquema de demonstração pública do mecanismo de fun-cionamento da fibra capaz de deixar qualquer um boquiaberto. Em algumas farmácias, demonstradoras do produto mostram que, ao ser despejado em um recipiente com água e óleo, o Minical absorve toda a gordura, formando um gel e deixa a água pura novamente. Estudos - Parece o milagre de transformar água em vinho. Mas os efeitos podem não ter nada de fantástico ou sobrenatural. Dezenas de estudos sugerem a eficácia da quitosana. Grande parte das pesquisas vêm do Japão, um dos primeiros países a se interessar pela fibra e onde ela é recomendada por mais de dez mil médicos e nutricionistas. No Brasil, ainda são poucos os estudos - até porque o interesse pelas propriedades terapêuticas da fibra também é recente. Mas há pelo menos dois centros de pesquisa no País debruçados na investigação da quitosana - a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal do Ceará. No centro nordestino, os estudos começaram de um modo singular. A indústria pesqueira local não sabia o que fazer com as sobras de carapaças e cabeças dos crustáceos, que poluíam rios e mares, e bateu na porta das universidade à procura de ajuda. Por meio de diversos estudos, os pesquisadores chegaram à quitosana e começaram a investigar seu potencial. Verificaram que, além de combater a gordura, a fibra tinha outros poderes. “Testes clínicos mostraram que a quitosana também diminui o LDL, o mau colesterol, no organismo”, diz Afrânio Craveiro, um dos autores do livro Quitosana, a fibra do futuro. Pode parecer estranho camarão e outros crustáceos, famosos pelo alto teor de colesterol, combate-rem justamente essa substância no orga-nismo. “O colesterol está na carne do camarão, e não na sua casca”, ex-plica Craveiro. E como toda fibra, a quitosana dificulta a absorção do colesterol proveniente da dieta. Os cientistas da UFC ajudaram a desenvolver um produto comercial à base de quitosana, batizado de Fybersan, comercializado pelo sistema de televendas. Em Santa Catarina, os estudos com a quitosana começaram em 1996 e hoje se obtém também uma fibra pura, a partir principalmente dos resíduos das cascas de camarão - produto abundante na pesca catarinense. Assim como no Ceará, essa iniciativa ajudou a diminuir a poluição local e a pesquisa também resultou num produto, o Phytomare, comercializado em farmácias e por televendas. Os outros laboratórios que comercializam a quitosana usam matéria-prima importada. Mas, segundo a professora Ivanilda Teixeira, uma das responsáveis pela pesquisa de Santa Catarina, a única diferença entre a nossa quitosana e as outras é a fonte da qual ela é retirada. “Geralmente as importadas são feitas a partir das cascas de outros crustá-ceos, como o caranguejo”, diz Ivanilda. Independentemente da origem, o fato é que os pesquisadores catarinenses estão convencidos dos benefícios da fibra. Suas pesquisas indicam uma redução de 20% a 30% nos níveis de colesterol em cerca de 45 dias. “Já em relação ao peso, 90% dos consumidores obtêm uma redução de três a cinco quilos por mês”, aponta a professora. Milagre - Fora dos laboratórios é impossível saber se os resultados serão tão expressivos assim. Até porque os produtos são muito novos e seu uso deve ser acompanhado sempre com uma dieta e exercícios físicos. Como sempre, não existe milagre. Mais. Não se pode esquecer que cada organismo reage de maneira diferente e nem sempre uma substância funciona para todos (leia depoimentos). Um estudo publicado na semana passada no jornal Obesity Research, dos Estados Unidos, realizado com 23 voluntários, por exemplo, mostrou que o orlistat (ou Xenical) foi bem mais eficiente na absorção da gordura do que a quitosana. No entanto, a atração exercida pela fibra é inegável. Não só para os milhares de consumidores que estão garantindo as vendas espetaculares dos produtos como também entre alguns médicos. É o caso do clínico paulista Fernando Flaquer, que indica a substância a seus pacientes e costuma receitar fórmulas para serem manipuladas em farmácias especializadas. “É um auxílio, não um milagre”, diz. Na sua opinião, a maior vantagem da quitosana é combater o colesterol. “A fibra se liga à gordura como se fosse um ímã e, a longo prazo, ajuda mesmo a controlar o LDL, o mau colesterol”, afirma. No consultório do endocrinologista Filippo Pedrinola, em São Paulo, o médico não recrimina os pacientes que eventualmente associam a quitosana aos programas de emagrecimento, embora tenha ressalvas. “Qualquer remédio ou suplemento é uma solução artificial e temporária. Quando parar de tomar, se a pessoa não tiver treinado uma mudança de hábitos alimentares, voltará a engordar”, afirma. Também é bom lembrar que, mesmo sendo natural, é preciso tomar cuidado com as contra-indicações da fibra. O produto não deve ser usado por gestantes, mulheres que amamentam e crianças até três anos porque nesses casos a ingestão de gordura é importante para cumprir diversas funções orgânicas. Quem tem alergia a camarão também deve evitar a quitosana ou ainda quem sofra de constipação intestinal, pois, por inibir a gordura, a fibra pode agravar o problema. Por enquanto, porém, ainda é cedo para afirmar com certeza se os novos produtos são realmente eficazes ou não passam de mais uma onda de promessas vazias. Por isso, muitos médicos preferem olhar com extrema cautela mais essa mania na luta contra a gordura. “Como a quitosana tem esse apelo natural, as pessoas ficam atraídas pela promessa de redução das medidas sem risco”, afirma o endocrinologista Márcio Mancini, do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Pode ser lucrativo para os laboratórios, mas os pacientes podem estar jogando dinheiro fora”, critica. O que intriga demais vários especialistas é a falta de estudos mais conclusivos e definitivos sobre os reais efeitos da quitosana. “Não há nenhum trabalho científico bem elaborado que justifique a substituição do Xenical por esses novos medicamentos. Os fabricantes dos produtos deveriam procurar instituições científicas sérias para fornecer demonstrativos dos efeitos dos novos produtos ao final de seis meses ou dois anos”, afirma o Endocrinologista Isaac Benchimol, professor de endocrinologia da faculdade UniRio. Registro - A inquietação dos médicos com os novos produtos é compreensível. Oficialmente, nem o Ministério da Saúde tem uma resposta definitiva sobre a eficácia da fibra. Nenhum produto à base de quitosana tem registro no órgão. Muitos, como o Fybersan, circulam com número de registro provisório - e sempre como suplemento alimentar, não como medicamento. As respostas definitivas talvez possam vir das conclusões de uma comissão de oito cientistas instaurada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A missão do grupo é fiscalizar se os rótulos de alguns suplementos alimentares e outros produtos naturais condizem com aquilo que realmente fazem. Ou seja, se o rótulo do suplemento diz que ele pode melhorar a saúde ou estimular algum efeito terapêutico, ele tem, de fato, de fazer isso. E para tanto é preciso avaliar as provas científicas. Por isso, a comissão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, coordenada por Franco Lajolo, chefe do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Universidade de São Paulo, está analisando as pesquisas feitas pelos laboratórios e fabricantes dos suplementos. O objetivo é checar se a metodologia empregada foi correta, se os resultados não foram forjados e também fazer testes bioquímicos. Já chegaram às mãos dos cientistas estudos sobre a quitosana feitos pelas empresas que comercializam o produto. Mas as análises apenas começaram. “Não se pode afirmar nada sobre a quitosana antes de os estudos da comissão serem concluídos”, diz Lajolo. O cientista calcula que até o próximo verão, no entanto, as perguntas sobre a eficácia da quitosana deverão estar devidamente respondidas. Colaboraram: Kátia Stringueto e Valéria Propato (RJ). Agradecimento: Drogaria Iguatemy (SP) Leia também: Vedete Multiuso
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