157401 de dezembro de 1999  

  S A Ú D E
Ferinhas domadas
Tratamentos abrangentes se mostram cada vez mais eficazes no controle da hiperatividade infantil

MARINA CARUSO

Costuma-se dizer que criança quieta é criança doente. De fato, vitalidade e energia infindáveis são características dos pequenos. Mas quando essa inquietação é exacerbada e a criança distrai-se com extrema facilidade, é preciso ficar atento. Ela pode sofrer de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), mal que atinge de 3% a 6% das crianças e adolescentes. Mas apesar de assustar pais preocupados com o desenvolvimento dos filhos, o distúrbio não é mais um bicho-papão. O tratamento multidisciplinar, que inclui a participação de médicos, psicólogos e fonoaudiólogos, se mostra cada vez mais capaz de assegurar à criança uma vida normal. “A abordagem multidisciplinar é o que mais garante a eficácia do tratamento”, afirma a psicóloga Rute Roman, uma das coordenadoras do Grupo de Estudos em Linguagem (GEL), que orienta pais e escolas sobre o TDAH. O GEL é uma das entidades envolvidas na organização da I Conferência Internacional sobre Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, que está acontecendo em São Paulo.

Desequilíbrio - É fácil entender a razão pela qual a abordagem mais ampla é bem-sucedida. O distúrbio é causado por um desequilíbrio de dopamina e noradrenalina, neurotransmissores (responsáveis pela comunicação entre os neurô-nios). “Essas substâncias inibem a agitação e a dispersão. Quando a criança nasce com elas desreguladas, tem essas características exacerbadas”, explica o psiquiatra Ênio de Andrade, do Hospital das Clínicas de São Paulo. O desequilíbrio pode causar excesso de agitação, o que caracteriza a hiperatividade. Ou também falta de concentração, resultando num déficit de atenção. A vítima pode ter ainda os dois problemas ao mesmo tempo. Crianças de até três anos podem apresentar essas características, que são naturais da fase. Mas se esses sinais persistem, em geral até após os cinco anos, aí sim é hora de procurar um especialista.

As causas do transtorno têm origem genética, e genes relacionados à doença começam a ser identificados com precisão. Um deles está sendo estudado em uma pesquisa feita pelo Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade (ProDAH) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre em conjunto com a Universidade de Harvard e com centros de saúde da Europa. “Vimos que o gene DRD4 é um dos responsáveis pela característica da transmissão da dopamina. Se houver algum problema nele, poderá haver um desequilíbrio dessa substância”, explica o psiquiatra Luiz Rohde, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos coordenadores do estudo. Ter a propensão genética não significa que a criança desenvolverá o transtorno. Isso dependerá de outros fatores, como a ocorrência de problemas familiares.

O desequilíbrio bioquímico no cérebro pode ser corrigido com remédios. “O medicamento mais receitado é a Ritalina, cujo princípio ativo é o metilfenidato, que normaliza a função da dopamina”, explica o neurologista Erasmo Casella, do Instituto da Criança, em São Paulo. Segundo o médico, em pelo menos 10% dos casos, quando o problema é mais grave, utiliza-se medicação. “As crianças medicadas tornam-se menos impulsivas”, diz. Usam-se ainda antidepressivos, que também regularizam a função dos neurotransmissores. A desvantagem do medicamento, além de efeitos colaterais como distúrbios do sono, é que há suspeitas de que ele torne as crianças mais agressivas. Nos Estados Unidos, o Comitê de Educação do Colorado resolveu desencorajar pais e escolas a darem remédios para crianças hiperativas. Como grande parte das que atiraram em colegas nas escolas americanas tomava drogas psquiátricas, entre elas a Ritalina, as autoridades estão achando que os remédios contribuem para aumentar a violência.

De qualquer maneira, o distúrbio tem manifestações no comportamento. Por isso a necessidade de auxílio de outros profissionais, como psicólogos e fonoaudiólogos. Este último, por exemplo, ajuda a definir se a dispersão de uma ordem é na audição da mensagem ou na sua captação. “A criança nasce com a síndrome e morre com ela. Mas com a ajuda dos pais, professores e especialistas é possível minimizar o comportamento desastroso”, diz o psicólogo Sam Goldstein, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos.

Diagnóstico - O primeiro passo para que o tratamento multidisciplinar seja bem-sucedido é um diagnóstico preciso. Pais de crianças levadas podem achar que o filho é vítima da hiperatividade. “É importante lembrar, porém, que antes dos cinco anos a maioria das crianças mostra sinais como dispersão e agitação, o que é saudável e dispensa preocupações”, alerta a fonoaudióloga Ana Maria Alvarez, outra coordenadora do GEL.

A menina Déborah Rocha, sete anos, é exemplo de criança hiperativa. Não pára quieta um segundo e, como todo hiperativo, presta um pouco de atenção em tudo, mas não coloca toda sua atenção em nada. “Quando ela tinha um ano e meio, fomos chamados na escola porque achavam que ela era superdotada. Só aos seis anos, durante sua alfabetização, é que descobrimos que ela tinha o transtorno”, conta a mãe da menina, Sílvia Gorla, 24 anos. Déborah toma medicação e submete-se à terapia com jogos para melhorar sua concentração. Para a mãe, o mais difícil é discernir quando a filha está agindo como hiperativa ou fazendo birra. “Nessas horas, converso com ela para não dar bronca de graça nem ser conivente com as confusões que ela apronta”, ensina Silvia.

De fato, a participação dos pais é fundamental no tratamento do distúrbio. A professora Daisy Assis, 37 anos, sempre dá uma força ao filho Rogério Assis, 13 anos, na hora de gravar as lições. O menino é vítima da falta de concentração. Aluno de uma escola não-especializada, Rogério às vezes sente dificuldade em acompanhar o ritmo da turma e o auxílio da mãe é bem-vindo. “Gosto quando ela me ajuda, fica mais fácil lembrar”, diz Rogério. Para o garoto, depois da ajuda da mãe, a única coisa que prende sua atenção por mais de 15 minutos é o computador. “Posso ficar horas jogando futebol pelo computador”, diz Rogério.

Apesar do transtorno não ter cura, as crianças podem usar suas manifestações de forma produtiva. O hiperativo pode se dar bem numa profissão que exija rapidez e versatilidade, por exemplo. E quem sofre com falta de concentração pode tirar vantagem disso observando melhor tudo o que está a sua volta e mostrando que é possível virar o jogo a seu favor.

 

 
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