EDIÇÃO Nº 1668
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O LEITOR DECIDE

 

Entrevista - 20/12/2000

Muito dinheiro no seu bolso
Com sacrifício e sem ostentação a classe média pode
ficar rica. E ninguém precisa ter culpa por ter dinheiro,
diz o economista e escritor Victor Zaremba

Eliane Lobato

Renato Velasco

"Quem quer ganhar dinheiiiiiiiiiiiro?" O apresentador de TV faz a pergunta e todos respondem: Eu! Eu! Eu! Ninguém duvida que todo mundo deseja enriquecer, mas quantos estão dispostos a sacrifícios para isso? Poucos. O economista Victor Zaremba dá dicas para conquistar a independência financeira em seu livro O milionário que existe em você, que já está na segunda edição pela editora Record. Rastreando a trajetória do enriquecimento, o autor chegou à cultura da ostentação, um inimigo da prosperidade financeira. Pagar R$ 3 mil por um terno que pode ser comprado por R$ 800 é um dos exemplos reais que ele usa no livro. No Brasil, onde a classe média e classe média alta são fenômenos recentes, de poucas décadas, pagar caro para exibir o que conseguiu ganhar é quase uma regra entre novos ricos.

E os que ainda vão ficar ricos? Zaremba atribui aos pais a responsabilidade de preparar a nova geração para a independência financeira. Caso contrário, virá uma safra de adolescentes preguiçosos, jovens grudados na sombra dos pais, adultos despreparados. O autor quer que seus leitores tenham dinheiro sem culpas. Que sigam o exemplo dos bobos americanos - o termo, do ensaísta David Brooks, é a abreviação de boêmios burgueses. Eles enriqueceram nas últimas décadas e conciliam os valores burgueses/consumistas com os idéias políticos do passado. Fortunas só saem dos bolsos em casos de necessidade, jamais para exibir poder financeiro. No Brasil, entretanto, bobo ainda tem o significado do dicionário mesmo - e a ideologia dos ricos, com honrosas exceções, óbvio, leva a chancela de grifes caras.

Zaremba, escritor que fez sucesso com Cuidando de seu dinheiro (Saraiva) e com Você: prioridade no. 1 (Objetiva), foi executivo na companhia Esso por 17 anos, cargo que abandonou para comandar sua própria empresa de prestação de serviços de viabilidade econômica e marketing para a indústria de shopping centers, e hoje é consultor financeiro. Ele deu a seguinte entrevista a ISTOÉ:

ISTOÉ - O senhor discute o conceito de independência financeira, que é chegar ao ponto de viver sem um contracheque. Quanto é necessário acumular para chegar a esse ponto?
Victor Zaremba - Isso é muito relativo, depende muito do padrão que a pessoa pretende ter. Uma família de classe média, que gaste R$ 3 mil por mês, por exemplo, precisa de alguma coisa como R$ 300 mil acumulado, além de um imóvel próprio. Ela terá que aplicar bem esse dinheiro e conseguir ganhar 10% a 12% ao ano para manter o padrão normal.

ISTOÉ - Mas isso é viável? Como se forma esse patrimônio?
Zaremba - Dá para juntar sim. Claro que no início o processo é muito lento. Se a pessoa começa juntando R$ 200 por mês, o resultado demora a aparecer. O que muitas vezes acontece é que, quando chega a juntar R$ 4 mil ou R$ 6 mil, a pessoa não resiste e gasta essa reserva numa viagem, na troca do carro. Há uma tendência para comer o bolo enquanto ele é ainda pequenininho. Poucos têm a paciência para deixar crescer mais. Claro que isso implica em sacrifícios a curto prazo. Não existe milagre, não tem solução mágica. Para conseguir dinheiro a longo prazo tem que fazer sacrifícios a pequeno prazo.

ISTOÉ - Tem que ser pão-duro?
Zaremba - Não precisa ser pão-duro, mas tem que ser controlado, não pode sair gastando em besteira, principalmente quem está começando a vida e quem não ganha salário alto.

ISTOÉ - Mas que besteiras são essas? Carros, jóias, roupas, viagens...?
Zaremba - Esse é um caso real que serve como exemplo. Duas pessoas que se formaram juntas estão começando a trabalhar, ganham R$ 2 mil por mês, ambos na mesma situação. Uma delas entra num consórcio para comprar um Gol; a outra vai na financeira fazer um empréstimo para comprar um Ômega. O que acontece com elas? O cara que vai comprar um Gol se propõe a andar de ônibus por mais um ano até sair seu carro. Enquanto isso, paga R$ 300 reais por mês de prestação. O outro não vai mais andar de ônibus, vai pegar o dinheiro na financeira, comprar o Ômega e sair dirigindo. Só que vai pagar R$ 1 mil de prestação. Então, grande parte de seu dinheiro será canalizado para o automóvel. Esse exemplo é de uma pessoa que conheci. Por sorte, ele se casou e o sogro deu um apartamento de presente.

ISTOÉ - Então, ele fez um bom investimento? Ao se preocupar em ostentar poder econômico, ele, com seu Ômega, conquistou uma garota rica e ganhou casa do sogro...
Zaremba - Hum, não é bem assim. Se você olhar a longo prazo, o apartamento não é dele porque o sogro deu para a filha. Se o casal se separar, o apartamento vai ficar com a esposa. O que eu quero dizer com esse exemplo é o seguinte: automóvel não é um luxo, é uma necessidade. Mas existe uma diferença entre você comprar um carro de R$ 15 mil ou outro de R$ 40 mil. Não é só a diferença de preço, tem seguro etc. A ostentação é inimiga da independência financeira.

ISTOÉ - No seu livro, o senhor cita o exemplo do sujeito que paga R$ 3 mil por um terno de grife podendo desembolsar R$ 800 por um modelo igualmente bom, mas sem etiqueta. Isso é ser otário?
Zaremba - Não vou usar essa palavra, afinal de contas a pessoa tem direito de fazer com o próprio dinheiro o que bem entender. Agora, pagar R$ 3 mil ao invés de R$ 800 é não estabelecer relação custo-benefício. Tudo tem custo. Se você quer tomar um bom vinho ou champanhe, é claro que não ficará satisfeito tomando num copo de requeijão. Mas também não precisa gastar R$ 10 mil num jogo importado, chique, a não ser que já seja milionário. Mas não chamaria isso de imbecilidade. Cada um sabe das suas necessidades e faz do dinheiro o que bem desejar. Ressalto que saúde financeira não combina com extravagância.

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