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Entrevista
- 20/12/2000
Muito
dinheiro no seu bolso
Com sacrifício e sem ostentação a classe média
pode
ficar rica. E ninguém precisa ter culpa por ter dinheiro,
diz o economista e escritor Victor Zaremba
Eliane
Lobato
| Renato
Velasco |
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"Quem
quer ganhar dinheiiiiiiiiiiiro?" O apresentador de TV faz a
pergunta e todos respondem: Eu! Eu! Eu! Ninguém duvida que
todo mundo deseja enriquecer, mas quantos estão dispostos
a sacrifícios para isso? Poucos. O economista Victor Zaremba
dá dicas para conquistar a independência financeira
em seu livro O milionário que existe em você,
que já está na segunda edição pela editora
Record. Rastreando a trajetória do enriquecimento, o autor
chegou à cultura da ostentação, um inimigo
da prosperidade financeira. Pagar R$ 3 mil por um terno que pode
ser comprado por R$ 800 é um dos exemplos reais que ele usa
no livro. No Brasil, onde a classe média e classe média
alta são fenômenos recentes, de poucas décadas,
pagar caro para exibir o que conseguiu ganhar é quase uma
regra entre novos ricos.
E os que ainda vão ficar ricos? Zaremba atribui aos pais
a responsabilidade de preparar a nova geração para
a independência financeira. Caso contrário, virá
uma safra de adolescentes preguiçosos, jovens grudados na
sombra dos pais, adultos despreparados. O autor quer que seus leitores
tenham dinheiro sem culpas. Que sigam o exemplo dos bobos americanos
- o termo, do ensaísta David Brooks, é a abreviação
de boêmios burgueses. Eles enriqueceram nas últimas
décadas e conciliam os valores burgueses/consumistas com
os idéias políticos do passado. Fortunas só
saem dos bolsos em casos de necessidade, jamais para exibir poder
financeiro. No Brasil, entretanto, bobo ainda tem o significado
do dicionário mesmo - e a ideologia dos ricos, com honrosas
exceções, óbvio, leva a chancela de grifes
caras.
Zaremba, escritor que fez sucesso com Cuidando de seu dinheiro
(Saraiva) e com Você: prioridade no. 1 (Objetiva),
foi executivo na companhia Esso por 17 anos, cargo que abandonou
para comandar sua própria empresa de prestação
de serviços de viabilidade econômica e marketing para
a indústria de shopping centers, e hoje é consultor
financeiro. Ele deu a seguinte entrevista a ISTOÉ:
ISTOÉ - O senhor discute o conceito de independência
financeira, que é chegar ao ponto de viver sem um contracheque.
Quanto é necessário acumular para chegar a esse ponto?
Victor Zaremba - Isso é muito relativo, depende
muito do padrão que a pessoa pretende ter. Uma família
de classe média, que gaste R$ 3 mil por mês, por exemplo,
precisa de alguma coisa como R$ 300 mil acumulado, além de
um imóvel próprio. Ela terá que aplicar bem
esse dinheiro e conseguir ganhar 10% a 12% ao ano para manter o
padrão normal.
ISTOÉ
- Mas isso é viável? Como se forma esse patrimônio?
Zaremba - Dá para juntar sim. Claro que
no início o processo é muito lento. Se a pessoa começa
juntando R$ 200 por mês, o resultado demora a aparecer. O
que muitas vezes acontece é que, quando chega a juntar R$
4 mil ou R$ 6 mil, a pessoa não resiste e gasta essa reserva
numa viagem, na troca do carro. Há uma tendência para
comer o bolo enquanto ele é ainda pequenininho. Poucos têm
a paciência para deixar crescer mais. Claro que isso implica
em sacrifícios a curto prazo. Não existe milagre,
não tem solução mágica. Para conseguir
dinheiro a longo prazo tem que fazer sacrifícios a pequeno
prazo.
ISTOÉ
- Tem que ser pão-duro?
Zaremba - Não precisa ser pão-duro,
mas tem que ser controlado, não pode sair gastando em besteira,
principalmente quem está começando a vida e quem não
ganha salário alto.
ISTOÉ
- Mas que besteiras são essas? Carros, jóias, roupas,
viagens...?
Zaremba - Esse é um caso real que serve
como exemplo. Duas pessoas que se formaram juntas estão começando
a trabalhar, ganham R$ 2 mil por mês, ambos na mesma situação.
Uma delas entra num consórcio para comprar um Gol; a outra
vai na financeira fazer um empréstimo para comprar um Ômega.
O que acontece com elas? O cara que vai comprar um Gol se propõe
a andar de ônibus por mais um ano até sair seu carro.
Enquanto isso, paga R$ 300 reais por mês de prestação.
O outro não vai mais andar de ônibus, vai pegar o dinheiro
na financeira, comprar o Ômega e sair dirigindo. Só
que vai pagar R$ 1 mil de prestação. Então,
grande parte de seu dinheiro será canalizado para o automóvel.
Esse exemplo é de uma pessoa que conheci. Por sorte, ele
se casou e o sogro deu um apartamento de presente.
ISTOÉ
- Então, ele fez um bom investimento? Ao se preocupar em
ostentar poder econômico, ele, com seu Ômega, conquistou
uma garota rica e ganhou casa do sogro...
Zaremba - Hum, não é bem assim. Se
você olhar a longo prazo, o apartamento não é
dele porque o sogro deu para a filha. Se o casal se separar, o apartamento
vai ficar com a esposa. O que eu quero dizer com esse exemplo é
o seguinte: automóvel não é um luxo, é
uma necessidade. Mas existe uma diferença entre você
comprar um carro de R$ 15 mil ou outro de R$ 40 mil. Não
é só a diferença de preço, tem seguro
etc. A ostentação é inimiga da independência
financeira.
ISTOÉ
- No seu livro, o senhor cita o exemplo do sujeito que paga R$ 3
mil por um terno de grife podendo desembolsar R$ 800 por um modelo
igualmente bom, mas sem etiqueta. Isso é ser otário?
Zaremba - Não vou usar essa palavra, afinal de contas
a pessoa tem direito de fazer com o próprio dinheiro o que
bem entender. Agora, pagar R$ 3 mil ao invés de R$ 800 é
não estabelecer relação custo-benefício.
Tudo tem custo. Se você quer tomar um bom vinho ou champanhe,
é claro que não ficará satisfeito tomando num
copo de requeijão. Mas também não precisa gastar
R$ 10 mil num jogo importado, chique, a não ser que já
seja milionário. Mas não chamaria isso de imbecilidade.
Cada um sabe das suas necessidades e faz do dinheiro o que bem desejar.
Ressalto que saúde financeira não combina com extravagância.
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