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Entrevista
- 13/12/2000
Uma
mulher na
Bolsa dos homens
Renata Rizkallah, 38 anos, diretora da Corretora
Novação, torna-se a primeira mulher a entrar no Conselho de Administração
da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que desde sua criação
em 1890. Formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio
Vargas, a filha de Alfredo Rizkallah, atual presidente da Bovespa
foi eleita no último dia 4 de dezembro, quando recebeu 631 dos 780
votos para ser suplente de uma das cadeiras do Conselho.
Luciana
Ackermann
ISTOÉ
Online - Qual foi sua trajetória para chegar a ser eleita
a primeira mulher para o Conselho de Administração
da Bolsa de Valores de São Paulo? Como surgiu seu nome?
Renata
Rizkallah - Percorri uma trajetória natural para consolidar
minha carreira profissional. É claro que o fato de ser mulher
faz com que haja enorme desdobramento para administrar uma jornada
dupla. Conclui a graduação, fiz estágios e
sempre convivi com o mercado de capitais. Também trabalhei
em companhias abertas. Atuei na área de controladoria da
Alpargatas e fui assistente da diretoria do grupo Villares. Também
é uma questão de oportunidades. Como todo ano há
a renovação de algumas vagas no Conselho de Administração,
que é formado por representantes das corretoras, e eu estava
tendo muito contato com outros conselheiros coloquei-me como interessada
na vaga. Muitos já me conheciam e fui aceita naturalmente.
ISTOÉ
Online - Houve algum tipo de campanha?
Renata - Foi uma eleição pacífica
porque existia apenas uma chapa concorrendo, mas mesmo assim conversei
com muita gente, colocando não só a disposição
para trabalhar como algum diferencial que eu possa acrescentar.
Acredito que essa diferença não se refere apenas ao
fato de ser uma mulher, mas também por ser uma pessoa nova
para o conselho com uma visão distinta daquela que já
existe, acredito que eu possa perceber algumas questões e
assim ajudar a bolsa como um todo e ao mercado.
ISTOÉ Online - Como é quebrar uma tradição
masculina dentro da bolsa?
Renata - Na realidade no mercado financeiro há
muitas mulheres. Na parte de análises nós representamos
cerca de 40% deste universo. E até mesmo em mesa de operação
é grande participação feminina. Vejo de forma
natural essa quebra de tradição, as mulheres estão
conquistado mais espaço em várias áreas ao
longo dos anos. Trata-se de um sinal de a mentalidade está
mais aberta. Mesmo assim acredito que as mulheres precisam mostrar
mais capacidade, empenho e dedicação. A expectativa
em torno da mulher acaba sendo maior, mas depois normaliza. Também
considero extremamente positivo e saudável um ambiente de
trabalho misto.
ISTOÉ
Online - Quais são as suas metas para o novo cargo?
Renata - Uma das metas é tentar melhorar
a imagem da Bolsa perante ao mercado e à sociedade, mostrar
realmente a importância que ela tem. É importante que
a bolsa se torne um mercado pulverizado, pois quanto mais democrática
e mais gente participando, a bolsa se fortalecerá, tornando-se
um centro ainda mais atrativo para as empresas, que ao lançarem
ações e capitalizarem estarão desenvolvendo
a economia. É preciso oferecer condições para
atrair o investidor. Eu estarei de alguma forma contribuindo com
novas idéias para conseguir uma melhor divulgação.
E para isso é preciso ter regras claras, maior transparência
e eficiência. Não basta mudar apenas a imagem. Deve
ser um processo de mudança da imagem junto com o produto.
A bolsa já tem feito isso ao longo dos anos. O lançamento
do Novo mercado é um dos exemplos, pois vai admitir empresas
que dêem uma condição de proteção
e transparência aos investidores minoritários. Há
ainda o desejo de criar uma escola profissionalizante e acredito
que o lado feminino será útil para questões
como essas.
ISTOÉ
Online - Ser filha o presidente da Bolsa Alfredo Riskallah influenciou
de alguma forma o resultado da eleição?
Renata - É inegável que influencia,
principalmente no que se refere aos contatos que estabeleci ao longo
dos anos, mas apenas ser filha não traz qualquer sustentabilidade.
| Saiba
como é a estrutura da Bovespa |
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Fundada
em 23 de agosto de 1890, até meados da década
de 60, a Bovespa e as demais Bolsas brasileiras eram entidades
oficiais corporativas, vinculadas às secretarias de
Finanças dos governos estaduais e compostas por corretores
nomeados pelo poder público. Mas a partir das reformas
do sistema financeiro nacional e do mercado de capitais implementadas
em 1965/66, as Bolsas assumiram a característica institucional
que mantêm até hoje. Foram transformardas em
associações civis sem fins lucrativos, com autonomia
administrativa, financeira e patrimonial. A figura individual
do corretor de fundos públicos foi substituída
pela da sociedade corretora, empresa constituída sob
a forma de sociedade por ações nominativas ou
por cotas de responsabilidade limitada.
Há uma Assembléia Geral das Corretoras Membros
que é o órgão deliberativo máximo
da Bovespa que se reúne ordinariamente duas vezes por
ano, para deliberar sobre proposta orçamentária,
aprovação das demonstrações financeiras
do exercício anterior e para a eleição
dos membros do Conselho de Administração.
O Conselho de Administração é integrado
por 10 conselheiros efetivos, dos quais 6 são representantes
das sociedades corretoras membros e deste grupo, são
eleitos o presidente e o vice-Presidente do Conselho, com
mandatos de 1 ano. No Conselho de Administração
há ainda 3 conselheiros efetivos representantes, respectivamente,
dos investidores individuais, dos investidores institucionais
e das companhias de capital aberto. Cabe ao Conselho de Administração
traçar a política geral as diretrizes da bolsa.
Ao todo são 130 corretoras e cada uma tem a quantidade
de votos proporcional ao número de títulos que
ela possui.
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