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LAZER
12/11/2003

Praia de paulista
Num domingo ensolarado, o paulistano dribla a ausência de praia
e mar em lugares como a arquibancada do Pacaembu, o Parque
do Ibirapuera, o improvável Minhocão e a Cidade Universitária

Por Gustavo Fioratti
Fotos: Kiko Ferrite

Kiko Ferrite  
Estádio do Pacaembu, às 11h: o céu por testemunha e o borrifador de água como única alternativa refrescante  

Curiosa, a expressão “praia de paulista” – ignore-se aqui um equívoco – deveria ser “praia de paulistano” ao se referir especificamente a quem nasceu na cidade de São Paulo. Curiosa porque não há praias na capital. Mas “praia de paulista” não diz respeito a um lugar com areias e coqueiros, mas a um mar de manias – melhor dizer “costumes”? – que materializam uma frustração: tantas cidades do País banhadas pelas águas azuladas do Atlântico e Sampa com esses minguados recursos hídricos, quase todos poluídos. Ah! Se a avenida Paulista fosse à beira-mar.

Não chegamos a surfar no Tietê, como falam os cariocas. Mas tomar banho de sol na laje é cultural. Não há muitas opções mesmo. Onde quer que se ponha o pé, há concreto. Encontrar um pedacinho de grama é difícil. Um pedacinho de areia, só no quintal das construtoras. Engraçado lembrar que o concreto é feito de areia. Então vamos de laje mesmo – como flagrou o fotógrafo e antropólogo Kiko Ferrite num passeio de domingo por tradicionais “praias” de São Paulo. A exemplo do Pacaembu, cujas imagens renderiam horas para o delicioso humor do carioca. Homens, mulheres e crianças fritando num sol de 30 graus, sem uma gota de água, sem árvores ao redor. Autoflagelação, prazer masoquista?

  Kiko Ferrite
  Estádio do Pacaembu, ao meio-dia: paulistanos fritam na laje, faltam árvores, paisagem, mas sobra tranquilidade

Eis a melhor resposta nesta pesquisa caseira – um bate-papo informal com pequena amostragem da população presente naquele balneário cimentado: “É uma delícia. Eu evito o cinza do concreto olhando para cima, para o céu”, diz a assessora de imprensa Ednéia Ferri, 44 anos. À sua frente, havia um edifício; atrás e debaixo dela, a rígida arquibancada.

Paulistana assumida, Ednéia leva na bolsa seu bronzeador, uma toalha e o borrifador de água, daqueles usados para molhar plantas. Todos os domingos, pela manhã, vai se borrifar na laje do Pacaembu. “Prefiro aqui a uma praça ou uma praia. Aqui é sossegado, não há crianças gritando”, justifica. Tudo por um bronzeado caiçara. Não dá nem para chamar de atípico. Cerca de 50 pessoas exercitavam a mesma rotina, com Ednéia.

Kiko Ferrite  
Parque do Ibirapuera, 15h: descanso nas redes, num dia de diversidade esportiva em que se pratica quase tudo  

A história não é diferente no elevado Costa e Silva, a movimentada via de tráfego apelidada de Minhocão, que aos domingos fecha para ser ocupada por pedestres. O corredor suspenso tangente aos velhos edifícios das avenidas Marechal Deodoro e Amaral Gurgel – que hoje vivem sob a sombra do elevado – se transforma em praia sem mar. Ferve ao sol, quando há sol, para deleite de ciclistas, skatistas, maratonistas e famílias da gema. “É falta de opção mesmo”, assume a recepcionista Camila Gouveia, 23 anos. “Eu gosto e venho todos os domingos”, rebate o operador de telemarketing Ricardo Estevan, 26, que iniciava o filho de cinco meses, Giovani, na prazerosa atividade.

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