| Praia
de paulista
Num
domingo ensolarado, o paulistano dribla a ausência de praia
e mar em lugares como a arquibancada do Pacaembu, o Parque
do Ibirapuera, o improvável Minhocão e a Cidade Universitária
Por
Gustavo Fioratti
Fotos: Kiko Ferrite
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| Estádio
do Pacaembu, às 11h: o céu por testemunha
e o borrifador de água como única alternativa refrescante
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Curiosa, a expressão “praia de paulista”
– ignore-se aqui um equívoco – deveria
ser “praia de paulistano” ao se referir especificamente
a quem nasceu na cidade de São Paulo. Curiosa porque
não há praias na capital. Mas “praia de
paulista” não diz respeito a um lugar com areias
e coqueiros, mas a um mar de manias – melhor dizer “costumes”?
– que materializam uma frustração: tantas
cidades do País banhadas pelas águas azuladas
do Atlântico e Sampa com esses minguados recursos hídricos,
quase todos poluídos. Ah! Se a avenida Paulista fosse
à beira-mar.
Não chegamos a surfar no Tietê, como falam os
cariocas. Mas tomar banho de sol na laje é cultural.
Não há muitas opções mesmo. Onde
quer que se ponha o pé, há concreto. Encontrar
um pedacinho de grama é difícil. Um pedacinho
de areia, só no quintal das construtoras. Engraçado
lembrar que o concreto é feito de areia. Então
vamos de laje mesmo – como flagrou o fotógrafo
e antropólogo Kiko Ferrite num passeio de domingo por
tradicionais “praias” de São Paulo. A exemplo
do Pacaembu, cujas imagens renderiam horas para o delicioso
humor do carioca. Homens, mulheres e crianças fritando
num sol de 30 graus, sem uma gota de água, sem árvores
ao redor. Autoflagelação, prazer masoquista?
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Estádio
do Pacaembu, ao meio-dia: paulistanos fritam
na laje, faltam árvores, paisagem, mas sobra tranquilidade
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Eis a melhor resposta nesta pesquisa caseira – um bate-papo
informal com pequena amostragem da população
presente naquele balneário cimentado: “É
uma delícia. Eu evito o cinza do concreto olhando para
cima, para o céu”, diz a assessora de imprensa
Ednéia Ferri, 44 anos. À sua frente, havia um
edifício; atrás e debaixo dela, a rígida
arquibancada.
Paulistana assumida, Ednéia leva na bolsa seu bronzeador,
uma toalha e o borrifador de água, daqueles usados
para molhar plantas. Todos os domingos, pela manhã,
vai se borrifar na laje do Pacaembu. “Prefiro aqui a
uma praça ou uma praia. Aqui é sossegado, não
há crianças gritando”, justifica. Tudo
por um bronzeado caiçara. Não dá nem
para chamar de atípico. Cerca de 50 pessoas exercitavam
a mesma rotina, com Ednéia.
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| Parque
do Ibirapuera, 15h: descanso nas redes,
num dia de diversidade esportiva em que se pratica quase
tudo |
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A história não é diferente no elevado
Costa e Silva, a movimentada via de tráfego apelidada
de Minhocão, que aos domingos fecha para ser ocupada
por pedestres. O corredor suspenso tangente aos velhos edifícios
das avenidas Marechal Deodoro e Amaral Gurgel – que
hoje vivem sob a sombra do elevado – se transforma em
praia sem mar. Ferve ao sol, quando há sol, para deleite
de ciclistas, skatistas, maratonistas e famílias da
gema. “É falta de opção mesmo”,
assume a recepcionista Camila Gouveia, 23 anos. “Eu
gosto e venho todos os domingos”, rebate o operador
de telemarketing Ricardo Estevan, 26, que iniciava o filho
de cinco meses, Giovani, na prazerosa atividade.
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