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CAPA
09/10/2002

De cara com o futuro
Sete crianças retratam as diferenças da vida em São Paulo, ao mesmo tempo que dividem sonhos quase sempre iguais

O que as crianças fariam se fossem
o prefeito da cidade de São Paulo?
A cara da infância: Os números da
educação, violência e Analfabetismo

Gustavo Fioratti e Marina Caruso
Colaboraram: Liv Soban e Letícia de Almeida

Tente imaginar 2,5 milhões de crianças, entre sete e 14 anos. Um exército de gente miúda, superativa, com a estranha mania de ter fé
no futuro. E uma cidade de suor e sonhos. É isso mesmo, são 2,5 milhões delas espalhadas na região metropolitana de São Paulo. A enorme Belíndia, que em sua face Bélgica cerca suas crianças de cuidados
e proteção, embora seja impossível que elas não percebam a porção Índia cada vez maior à sua volta, com degredados mirins, náufragos
das ruas. Mesmo afastadas pelas diversidades sociais e empurradas
para mundos diferentes, elas, as crianças, são paradoxalmente iguais
na disposição de vislumbrar uma cidade até bem acolhedora e de exalar um certo bom astral, mesmo diante das dificuldades. Pelos olhos das crianças, São Paulo parece melhor do que é, e através delas nos damos conta de que a cidade, sem o pragmático pessimismo adulto, é até
bem legal. Quer exemplo maior que Vanderlei Martins, nove anos e
sorriso maroto? Como milhares de meninos, ele perambula pelas ruas
de São Paulo. Mas, apesar de tudo, mantém inoxidável sua vivacidade infantil, e, muitas vezes, parece feliz.

Passa seu dia sob a sombra da Catedral da Sé, marco zero da cidade.
É lá, por exemplo, que existe a Fundação Projeto Travessia – organização não governamental –, responsável por trabalhos de recreação e reinserção social de menores como Vanderlei. Os cadastros da fundação registram a passagem de três mil menores pelo lugar nos últimos cinco anos. Não é tão pouco quanto pode parecer, quando se consegue desviar a criança do crime e da droga. Vanderlei, por exemplo, abomina cola e crack. A Secretaria de Assistência Social do Município de São Paulo também tenta fazer sua parte. Ajuda, com diferentes programas assistenciais, 43.190 menores por mês. Um dos principais é o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), criado há cinco meses, que conseguiu atender 900 menores. Cada família ganha uma bolsa de
R$ 40/mês por criança, que deixa de trabalhar e é inscrita no Renda Mínima. Mas o desafio é hercúleo. São 61.528 crianças entre cinco e
15 anos trabalhando hoje na zona rural do Estado de São Paulo.
Número que cresce para 248.521 na zona urbana do Estado. Vanderlei engrossa as estatísticas tenebrosas. Mas é apenas uma criança ao chutar embalagens meladas de iogurte e sonhar em jogar no Corinthians. Só quando a noite ameaça começar é que se entrega a um trabalho frenético, e tão cansativo como jogar uma partida de futebol. Vai de lanchonete em lanchonete – se não depara com um segurança turrão – catando latinhas de cerveja e refrigerante. Vende o que recolhe a
R$ 0,025 a latinha, para empresas de reciclagem. Depois, vai para
casa em Diadema. Mora num apartamento de dois cômodos, num
edifício que foi alvo de invasores – de sua família inclusive –, com a
mãe grávida, o pai e duas irmãs. Vai para a escola todos os dias. Para aprender e comer. Arroz, feijão, macarrão, às vezes carne, às vezes
ovo. “Pena que não deixam repetir o prato”, queixa-se. Mesmo sem perder a ternura, Vanderlei, na opinião da consultora comportamental Cassilda Paranhos, especialista em violência infantil, tende a “endurecer mais rápido” que as outras crianças. “Ele tem contato com realidades adultas mais cedo: sexo, violência, injustiças sociais”, explica. É notória
a vocação de Vanderlei para tentar tirar algum proveito de quem se aproxima dele. Uma questão de sobrevivência.

Vanderlei Martins, 9 anos, o catador de latinhas da praça da Sé
Felipe Leal  

Sonho de consumo: "Uma casa
para minha mãe"
O que quer ser quando crescer: "Técnico em computação ou jogador de futebol"
Brinquedo preferido: "Videogame, mas não tenho o controle. Quebrei tentando consertar"
O que te deixa triste: "Não ter o que comer quando estou com fome"

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