| De
cara com o futuro
Sete crianças retratam as diferenças
da vida em São Paulo, ao mesmo tempo que dividem sonhos quase
sempre iguais
Gustavo
Fioratti e
Marina Caruso
Colaboraram:
Liv Soban e Letícia de Almeida
Tente imaginar 2,5 milhões de crianças, entre
sete e 14 anos. Um exército de gente miúda,
superativa, com a estranha mania de ter fé
no futuro. E uma cidade de suor e sonhos. É isso mesmo,
são 2,5 milhões delas espalhadas na região
metropolitana de São Paulo. A enorme Belíndia,
que em sua face Bélgica cerca suas crianças
de cuidados
e proteção, embora seja impossível que
elas não percebam a porção Índia
cada vez maior à sua volta, com degredados mirins,
náufragos
das ruas. Mesmo afastadas pelas diversidades sociais e empurradas
para mundos diferentes, elas, as crianças, são
paradoxalmente iguais
na disposição de vislumbrar uma cidade até
bem acolhedora e de exalar um certo bom astral, mesmo diante
das dificuldades. Pelos olhos das crianças, São
Paulo parece melhor do que é, e através delas
nos damos conta de que a cidade, sem o pragmático pessimismo
adulto, é até
bem legal. Quer exemplo maior que Vanderlei Martins, nove
anos e
sorriso maroto? Como milhares de meninos, ele perambula pelas
ruas
de São Paulo. Mas, apesar de tudo, mantém inoxidável
sua vivacidade infantil, e, muitas vezes, parece feliz.
Passa seu dia sob a sombra da Catedral da Sé, marco
zero da cidade.
É lá, por exemplo, que existe a Fundação
Projeto Travessia – organização não
governamental –, responsável por trabalhos de
recreação e reinserção social
de menores como Vanderlei. Os cadastros da fundação
registram a passagem de três mil menores pelo lugar
nos últimos cinco anos. Não é tão
pouco quanto pode parecer, quando se consegue desviar a criança
do crime e da droga. Vanderlei, por exemplo, abomina cola
e crack. A Secretaria de Assistência Social do Município
de São Paulo também tenta fazer sua parte. Ajuda,
com diferentes programas assistenciais, 43.190 menores por
mês. Um dos principais é o Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil (Peti), criado há cinco meses,
que conseguiu atender 900 menores. Cada família ganha
uma bolsa de
R$ 40/mês por criança, que deixa de trabalhar
e é inscrita no Renda Mínima. Mas o desafio
é hercúleo. São 61.528 crianças
entre cinco e
15 anos trabalhando hoje na zona rural do Estado de São
Paulo.
Número que cresce para 248.521 na zona urbana do Estado.
Vanderlei engrossa as estatísticas tenebrosas. Mas
é apenas uma criança ao chutar embalagens meladas
de iogurte e sonhar em jogar no Corinthians. Só quando
a noite ameaça começar é que se entrega
a um trabalho frenético, e tão cansativo como
jogar uma partida de futebol. Vai de lanchonete em lanchonete
– se não depara com um segurança turrão
– catando latinhas de cerveja e refrigerante. Vende
o que recolhe a
R$ 0,025 a latinha, para empresas de reciclagem. Depois, vai
para
casa em Diadema. Mora num apartamento de dois cômodos,
num
edifício que foi alvo de invasores – de sua família
inclusive –, com a
mãe grávida, o pai e duas irmãs. Vai
para a escola todos os dias. Para aprender e comer. Arroz,
feijão, macarrão, às vezes carne, às
vezes
ovo. “Pena que não deixam repetir o prato”,
queixa-se. Mesmo sem perder a ternura, Vanderlei, na opinião
da consultora comportamental Cassilda Paranhos, especialista
em violência infantil, tende a “endurecer mais
rápido” que as outras crianças. “Ele
tem contato com realidades adultas mais cedo: sexo, violência,
injustiças sociais”, explica. É notória
a vocação de Vanderlei para tentar tirar algum
proveito de quem se aproxima dele. Uma questão de sobrevivência.
| Vanderlei
Martins, 9 anos, o catador de latinhas da praça da Sé |
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Sonho de consumo: "Uma casa
para minha mãe"
O que quer ser quando crescer: "Técnico
em computação ou jogador de futebol"
Brinquedo preferido: "Videogame, mas não
tenho o controle. Quebrei tentando consertar"
O que te deixa triste: "Não ter o
que comer quando estou com fome"

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