| Apelidos
engraçados e perigosos
A brincadeira pode ser divertida.
Mas os traumas que ficam, não
Liv
Soban
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CABEÇA:
André, ao lado, faz piada com o antigo apelido, e acima,
numa foto com os colegas de escola, com penteado tigelinha |
Apesar da doce ingenuidade infantil, são frequentes
as crianças que exibem uma crueldade cortante na hora
de batizar seus amiguinhos com nomes que só fazem realçar
defeitos. Quem teve um apelido sabe bem o tormento que eles
podem causar. Começam na infância e, muitas vezes,
arrastam-se por toda uma existência, deixando um quase
imperceptível, mas poderoso rastilho de mal-estar.
“Por trás da ingênua brincadeira existe
uma desqualificação que deixa a criança
insegura com relação à sua personalidade,
com possíveis traumas”, explica a psicoterapeuta
infantil, Ana Olmos. O estudante
de arquitetura Diogo Vidal, 22 anos, conhece bem o problema.
Nasceu com um nódulo no lado direito do pescoço,
que, apesar de não trazer nenhuma consequência
a sua saúde, virou motivo para que fosse chamado de
“azeitona” e “trampolim de piolho”.
“Me irritava profundamente, chegava a chorar de raiva.
Mas, quando cresci,
acabou, não liguei mais.”
O fotógrafo André Spínola e Castro,
hoje com 31 anos, passou por constrangimentos semelhantes.
Sempre foi chamado de Cabeça, embora detestasse. Ele
até admite que era mesmo meio cabeçudo, e a
mãe, segundo ele, tornava o que “já era
enorme” ainda maior. “Ela me fazia cortar o cabelo
em forma de cuia.” Na infância, foi o Cabeção,
o Beça e Fósforo, entre tantas outras variações.
Os apelidos o incomodaram até a entrada na faculdade,
quando, de Cabeção, virou Cogumelo. “Então
resolvi assumir, desenhava cogumelos por todas as partes.
O melhor foi quando abreviaram para Cogu, mas esse era só
para os íntimos”, diz. Agora, com a cabeça
bem distribuída nos 1,86 metro, perdeu os traumas.
Mas há quem não trate o assunto com tanto humor.
A estudante Luciana Gonçalves, 18 anos, sempre foi
muito magra e era chamada de Madeira. E o pior, por mais que
comesse, não engordava. O apelido ganhou contornos
dramáticos quando aos 11 anos pesava apenas 45 quilos.
Entrou em depressão. E por não desenvolver o
corpo igual ao de suas amigas, pensou até em se matar.
“É muito difícil para uma garota não
ser admirada pelos garotos. Por ser muito magra, ninguém
olhava para mim. Foi uma fase bem sofrida”, conta. Atualmente,
está feliz com seus 54 quilos, satisfatórios
para seus 1,68 metro, e o fato de não engordar é
muito bem-vindo.
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