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COMPORTAMENTO
09/10/2002

Apelidos engraçados e perigosos
A brincadeira pode ser divertida. Mas os traumas que ficam, não

Liv Soban

  Felipe Leal
  CABEÇA: André, ao lado, faz piada com o antigo apelido, e acima, numa foto com os colegas de escola, com penteado tigelinha

Apesar da doce ingenuidade infantil, são frequentes as crianças que exibem uma crueldade cortante na hora de batizar seus amiguinhos com nomes que só fazem realçar defeitos. Quem teve um apelido sabe bem o tormento que eles podem causar. Começam na infância e, muitas vezes, arrastam-se por toda uma existência, deixando um quase imperceptível, mas poderoso rastilho de mal-estar. “Por trás da ingênua brincadeira existe uma desqualificação que deixa a criança insegura com relação à sua personalidade, com possíveis traumas”, explica a psicoterapeuta infantil, Ana Olmos. O estudante
de arquitetura Diogo Vidal, 22 anos, conhece bem o problema. Nasceu com um nódulo no lado direito do pescoço, que, apesar de não trazer nenhuma consequência a sua saúde, virou motivo para que fosse chamado de “azeitona” e “trampolim de piolho”. “Me irritava profundamente, chegava a chorar de raiva. Mas, quando cresci,
acabou, não liguei mais.”

O fotógrafo André Spínola e Castro, hoje com 31 anos, passou por constrangimentos semelhantes. Sempre foi chamado de Cabeça, embora detestasse. Ele até admite que era mesmo meio cabeçudo, e a mãe, segundo ele, tornava o que “já era enorme” ainda maior. “Ela me fazia cortar o cabelo em forma de cuia.” Na infância, foi o Cabeção, o Beça e Fósforo, entre tantas outras variações. Os apelidos o incomodaram até a entrada na faculdade, quando, de Cabeção, virou Cogumelo. “Então resolvi assumir, desenhava cogumelos por todas as partes. O melhor foi quando abreviaram para Cogu, mas esse era só para os íntimos”, diz. Agora, com a cabeça bem distribuída nos 1,86 metro, perdeu os traumas. Mas há quem não trate o assunto com tanto humor.

A estudante Luciana Gonçalves, 18 anos, sempre foi muito magra e era chamada de Madeira. E o pior, por mais que comesse, não engordava. O apelido ganhou contornos dramáticos quando aos 11 anos pesava apenas 45 quilos. Entrou em depressão. E por não desenvolver o corpo igual ao de suas amigas, pensou até em se matar. “É muito difícil para uma garota não ser admirada pelos garotos. Por ser muito magra, ninguém olhava para mim. Foi uma fase bem sofrida”, conta. Atualmente, está feliz com seus 54 quilos, satisfatórios para seus 1,68 metro, e o fato de não engordar é muito bem-vindo.

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