 |
|
RICARDO STUCKERT
|
|
Manifestantes anti-Oviedo marcham em apoio ao presidente
|
P A R A G U A I
Golpe anunciado
Psicose paraguaia: tentativa golpista armada pelos seguidores do general Oviedo fragiliza ainda mais o governo de Luis Angel Macch
Ricardo Miranda - Assunção
Uma velha mania paraguaia voltou a assombrar o país na semana passada: o golpismo. E voltou como um vendaval. Em meio à mais grave crise política de seu governo, o presidente colorado Luis Angel González Macchi tenta arrastar o país para fora de uma encruzilhada política. Sem dinheiro para seu plano de reformas, sem propostas para enfrentar o maior desemprego dos últimos 50 anos e sem comando para unir suas Forças Armadas, o governo de “conciliação nacional” de González Macchi, formado há apenas oito meses, após o assassinato do vice-presidente Luís María Argaña e a renúncia do presidente Raul Cúbas, corre o risco de ter vida curta. De um lado, o jogo partidário de colorados e liberais coloca em xeque a capacidade de Macchi de levar até o fim os três anos de mandato que ainda lhe restam. De outro, o general golpista Lino César Ovie-do, asilado na Argentina desde o assassinato de Argaña, do qual é suspeito, articula com oficiais leais para voltar ao país na marra. O filme triste do golpe voltou a passar na semana passada, quando 14 ofi-ciais da Artilharia do Exército foram presos ao preparar um plano para prender e destituir o presidente Macchi. Para a platéia, o governo tratou o caso como um ato de “indisciplina grave”. Punição exemplar: foram presos os oficiais que acenavam para a volta do inimigo Oviedo. Como ninguém é preso por fazer fofoca, o desmonte da Operação Caaguazú – nome do povoado de onde talvez Oviedo voltasse ao país – foi levado muito a sério. Entre os oficiais presos, estavam o major de Artilharia Agustin Brizuela e cinco tenentes. Pretendiam prender o presidente Macchi assim que ele voltasse de uma viagem a Cuba e asfaltariam o caminho para o retorno do golpista reincidente. A prisão dos oficiais foi comandada pelo chefe da Inteligência, coronel Sócrates Ramirez, homem de confiança do ministro da Defesa, Nelson Argaña, filho do vice assassinado. Na terça-feira 23, o coronel e chefe do Estado-Maior Gustavo Piñeiro Saguier foi afastado do Exército sem explicações após os rumores de golpe. Oviedo e Brizuela não estão sozinhos. Fontes do Exército apontam o general Augusto Nuñez González e o coronel Lorenzo Fretas, ex-chefe do Estado-Maior, como mentores do grupo. A faxina poderá continuar, com o afastamento do coronel Victor Groselle, ligado ao ex-presidente Juan Carlos Wasmosy. “Todos os que participaram desse ato de indisciplina foram presos e são ofi-ciais de patentes menores. Só com eles, um golpe de Estado seria impraticável”, diz o principal conselheiro presiden-cial, ministro Juan Ernesto Villamayor, chefe do Gabinete Civil da Presidência. O senador liberal Armando Vicente Espínola, presidente da Comissão de Economia do Senado, discorda: “Os graves cenários político e econômico transformaram o Paraguai no palco perfeito para todo tipo de loucuras. E esse clima de instabilidade é a pior imagem que pode ter um país no mundo. É destruir o Paraguai!” O deputado Angel Borchini também alerta para a possibilidade de um golpe. “Não podemos permitir que novos aventureiros atraiam os bolsões de autoritarismo ainda existentes dentro das nossas Forças Armadas”, diz. “Quem quiser fazer política que tire a farda. Não se pode fazer política dentro das Forças Armadas, muito menos tentar levar adian-te golpes de Estado.” Mas despolitizar as Forças Armadas é uma tarefa difícil em um país onde durante o governo de Alfredo Stroessner (1954-1989) todos os oficiais foram obrigados a ser filiados ao Partido Colorado. Esta é, sem dúvida, a mais séria crise desde a morte do vice-presidente Argaña, que provocou a renúncia de Cúbas, a fuga de Oviedo e uma onda de protestos no país – um deles, no dia 26 de março, deixou um saldo de oito mortos. Macchi assumiu o cargo por ser o presidente do Senado. Na semana passada, as manifestações voltaram. Na manhã de quinta-feira 25, ao som de guaranias e polcas, um grupo da organização Memória Viva cercava o prédio da Câmara pedindo o afastamento dos “oviedistas”. “O que restou para legitimar esse governo é a perseguição a Oviedo”, descreve uma fonte diplomática brasileira. Reação de Macchi – “Golpe é a psicose paraguaia”, resume o funcionário público Isidro Recalde, 63 anos. Dentro da Casa de Lopez, o palácio presiden-cial, o clima ainda é tenso: reuniões entre o presidente González Macchi e autoridades militares se sucedem diariamente. Na noite de quarta-feira 24, o presidente perdeu a paciência. Chamado de “frouxo” por um senador, Macchi reagiu ao clima de golpismo. “Este governo de união nacional não tolerará o retrocesso aos dias de março. Seremos intolerantes com aqueles que querem desestabilizar o país”, disse o presidente, que assumiu o lugar de Cúbas depois de uma delicada costura partidária. Para garantir um governo de unidade nacional sem uma nova eleição, Macchi rateou o Ministério entre os três maiores partidos nacionais: os colorados, os liberais e os encuentristas. Mas nem tudo saiu como no roteiro. Com a popularidade de Macchi em baixa, o “acordo de cavalheiros” pode virar uma briga de foice no escuro. E a crise tem até calendário. Em março do próximo ano, o Partido Colorado escolherá seu candidato à eleição para vice-presidente marcada para agosto – forma encontrada pelo Judiciário local para preencher a vaga de Luís Maria Argaña. Da convenção colorada poderá sair o futuro presidente do Paraguai. “Se a profunda crise que vivemos piorar, as eleições para o vice vão se tornar um plebiscito contra ou a favor de Macchi”, diz o senador Armando Espínola. E a sucessão presidencial, que só deveria ocorrer em 2003, irá para as ruas. O indicado dos colorados, com todas as chances de ganhar a eleição para vice, passará a ser uma sombra para Macchi, um homem que não foi eleito para o cargo e terá de governar ao lado de um vice aclamado nas urnas. Entre os nomes fortes estão Félix Argaña, outro filho do vice morto, e Enrique Riera, apontado como um “oviedista” de carteirinha. “Se ganhar alguém ligado a Oviedo, a crise, que é séria, se tornará gravíssima”, afirma uma alta fonte diplomática em Brasília. O presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa, poderá aceitar extraditar Oviedo ao Paraguai, limpando a lambança diplomática herdada de Carlos Menem, que concedeu o asilo. Na Terra do Fogo, Oviedo já busca alternativas: Alemanha, Israel, Bolívia e, claro, Brasil – país onde já se encontram dois ex-presidentes paraguaios, o ditador de pijamas Alfredo Stroessner, em Brasília, e o trapalhão Raúl Cúbas, em Camboriú. “Não há a mais remota hipótese de o Brasil aceitar Oviedo”, garante o Itamaraty. Em exílio forçado e em silêncio, Oviedo demonstra que está na ativa. A cria de Chávez Em berço polêmico, nasceu El Muchachito – apelido que o presidente venezuelano Hugo Chávez deu a sua mais recente obra: a nova Constituição. Com seus 395 artigos, a Carta Magna foi aprovada pela Assembléia Nacional Constitutinte. Mal saiu da incubadora e a Constituição já gerou prostestos: sete mil manifestantes foram às ruas de Caracas na quinta-feira 25. A nova carta prevê a reeleição presidencial e Hugo Chávez aproveitou o momento para lançar-se candidato às eleições de 2000. Entre os artigos polêmicos está o referente à fronteira da Venezuela: “O espaço geo-gráfico da República é o que correspondia à Capitania-Geral da Venezuela antes de 19 de abril de 1810”, ou seja, um pedaço da ex-Guiana britânica. A Carta favorece os direitos humanos, mas é contra o aborto. A hora do “sim” ou do “não” acontecerá no plebiscito popular de 15 de dezembro e Chávez já iniciou a campanha do “Sí”.
|