![]() 21 de maio de 1997
abertura
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EDUARDO FERRAZ, DE CUÍTO
Nada ficou intacto. Disputada metro a metro com rajadas, granadas e morteiros, a cidade de belos prédios públicos parece um lugar mal-assombrado. A professora Tereza Chiquamanga, 46 anos, seis filhos, estava lá. "Esta guerra me marcou muito, me tirou muito da vida, levou meus parentes, meu marido, meu pai. Hoje, entretanto, conseguimos dormir em paz, não se ouvem mais ruídos." O sono mais tranquilo de Tereza é o reflexo do acordo de cessar-fogo assinado em 1994 pelo governo de Angola, sob o comando do presidente José Eduardo dos Santos, do MPLA, e pela Unita, personificada na figura de Jonas Savimbi. A animosidade entre as duas partes continua, mas, no mês passado, teve início o governo de coalizão, o que pode significar o fim de uma carnificina que matou entre 500 mil e um milhão de angolanos e feriu gravemente outros 200 mil, fazendo com que o país tenha hoje a maior população de mutilados do mundo. Assim como o casal Justina e Avelino, esses milhares de mutilados perderam pedaços do corpo por causa das minas antipessoais, explosivos que são covardemente enterrados e detonam quando pisados. Estima-se que quase 15 milhões de minas foram colocadas pelos campos do país, o que equivale a mais de uma mina para cada um dos 10,5 milhões de habitantes. Na província de Bié, no vilarejo sem nome da região chamada "terra de ninguém", mora Joaquim, um garoto simpático de 15 anos. Ele convive com o perigo diariamente. Nas terras próximas de sua casa, tem uma noção razoável de onde pode ou não pisar - alguns vizinhos já perderam as pernas. Joaquim lembra bem da época da guerra: "A gente teve muito sofrimento. Quando a Unita vinha aqui tínhamos que nos esconder na mata, senão eles nos matavam. As mulheres, as crianças, iam para a mata mesmo quando chovia. Era muito sofrimento." Assim como os outros adolescentes e crianças do vilarejo, ele corre para a estrada quando enxerga a aproximação dos veículos brancos das tropas de paz da ONU, que estão no país desde 1989. O Brasil participa com 1.100 soldados integrados no Cobravem (Contigente brasileiro em Angola). Os soldados brasileiros descem dos jipes e tanques e são recepcionados com um canto alegre em umbundo, uma das principais línguas nativas de Angola. Em cada rosto, um sorriso que, por pouco, não esconde os traumas do passado. Os maltrapilhos rodeiam os visitantes e começam a fazer pedidos incessantes. Surpresa: a garotada quer canetas, lápis e papéis. Todos eles estudam na Escola 23, uma escola pública que não dá merenda para os alunos, exige que eles se virem para arranjar o material usado em sala de aula, mas que representa para Joaquim e seus colegas uma alternativa de futuro melhor. Nenhuma das crianças, assim como nenhum habitante do país com menos de 30 anos, tinha experimentado o gosto da paz. Mas, apesar de a população estar farta da guerra, a rivalidade entre Unita e MPLA ainda existe. A situação das Forças Armadas Angolanas (FAA) é um exemplo. Pelo acordo de reconciliação nacional, as FAA estão sendo compostas por soldados de ambos os lados. Os guerrilheiros da Unita apresentam-se a um dos muitos locais de aquartelamento no interior do país (controlados pela ONU), onde entregam suas armas e aguardam um processo de seleção para integração às Forças Armadas. "O problema é que nossos soldados recebem 12 quilos de arroz por mês para alimentar 100 homens. Não há quem aguente, mas nós aguentamos em nome da paz", acusa o coronel Huambo, comandante das tropas da Unita aquarteladas nas cercanias da cidade de Vila Nova. Essa área de aquartelamento, inauguranda em novembro de 1995, é maior do que muitas cidades do país. Nela, moram 4.500 soldados da Unita e cerca de 11 mil familiares seus, quase todos em pequenas casas de palha, iguais às que são encontradas nas áreas rurais. É nesse local que trabalha e mora o paulista Wilckens Gimenes Góes, 30 anos, técnico em informática. Ele está em Angola há oito meses, como voluntário da ONU. Com um salário de US$ 2 mil, Góes dedica-se ao processamento de dados, como o registro dos militares, suas fichas médicas e outras tantas informações. "Muitos dos que estão aqui ficaram dez anos ou mais engajados na guerra e agora querem ver a família, que não sabem se está viva ou morta", conta Góes, que manda o cadastro dos menores de idade para a Cruz Vermelha e para uma ONG chamada Save the Children. "A maior satisfação acontece quando a gente passa uma base de dados para Luanda e alguma das organizações consegue localizar a família num ponto distante do país. Aí é feita a reintegração. Quando você vê aquelas crianças de 13 a 17 anos subindo no caminhão e indo efetivamente para sua casa, isso emociona. Elas têm a esperança de reencontrar a família e voltar a estudar, porque acreditam num futuro para elas e um futuro para o país", relata o brasileiro. Muitas, entretanto, perderam a família e não têm destino certo. Samuel Freitas não conheceu seus pais, mortos na guerra. "Eu era bebê quando eles morreram." Hoje, aos 16 anos (ele supõe), Samuel foi adotado informalmente pelo batalhão brasileiro responsável pela segurança na área de aquartelamento de Vila Nova, depois de vagar muito pelo país. Ele vive dentro do quartel desde março e ajuda na cozinha e na lavanderia. Os soldados são sua família e seu "pai de coração" é o cabo Altamair Aguiar, que tem mulher e filhos no Brasil. O cabo Aguiar queria adotar o menino e levá-lo para casa, mas isso é proibido por lei. Samuel, então, será entregue a um orfanato de padres. Isso deve acontecer em julho, quando aquele batalhão retornar ao Brasil. Não se pode esperar que a reconstrução de Angola seja magnífica. Todos os que ficaram vivos guardam seus fantasmas e seus medos. Mas, de maneira meio capenga, seguem adiante. Avelino, que gosta dos cinco filhos da mulher Justina, acha que os dois filhos que não vê há três anos estão mortos. Mesmo assim, alimenta a esperança de que um dia eles voltem para visitá-lo.
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