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O
pediatra, a criança e
a família
Encontro ou desencontro?
O
recém-nascido deve se sentir cuidado e confiante
para ser capaz de suportar doses de frustração
Leonardo
Posternak *
| André
Sarmento |
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A
família é uma fabrica de gente, como diz minha
amiga e psicóloga Gilda Montoro. A trama familiar é
o meio natural no qual se gera, se organiza e é mantida
a vida do ser humano. O bebê é dependente ao
nascer. Por meio dos cuidados e do apego dos pais, se constituirá
progressivamente num indivíduo com forças próprias,
que fica em pé, anda, fala, faz xixi e cocô no
penico e aprende os códigos universais de convivência.
Quando nasce, é envolvido numa complexa rede de fantasias,
desejos e proibições dos pais. Precisará
trabalhar duramente para corresponder ao que se espera dele.
A profissão de bebê não é
fácil.
A alquimia que liga pais e bebês guarda muitos mistérios.
O primeiro é que existe algo no nascimento
que provoca reações surpreendentes e até
opostas. Ele pode ser o portador de um sonho, a promessa do
amor perfeito, ou um sopro de alento às ambições
não realizadas dos pais. No entanto, também
pode ser portador da frustração, da não
realização do sonho, da desilusão (pela
aparência, sexo, doença ou lembrança de
algo que não gostamos em nós ou em alguém).
O segundo é que os seres humanos têm medo do
que não conhecem. Diante do recém-nascido, que
é um desconhecido, rapidamente definem atributos ou
semelhanças, determinando uma identidade: o nariz do
tio, o sorriso do avô, a orelha de fulano, etc. E também
outros, mais sutis e perigosos: bravo igual ao avô paterno!
Isso facilita o aparecimento de velhos fantasmas que habitarão
o quarto infantil. Outro mistério é, em segundos,
sermos obrigados a nos unir pela vida toda a um desconhecido.
Somos forçados a criar o novo, porém, recriando-o
a partir de modelos anteriores. Nunca mais a vida será
a mesma!
Descobrimos o bebê através das lembranças
infantis que guardamos para sempre. É por meio delas
que as mães entendem a linguagem dos filhos. Eles falam
por meio do corpo. Podem recusar o seio, evitar olhares, chorar,
ficar tensos e até regorgitar o alimento. Linguagem
só compreendida se a relacionarmos ao mal-estar compartilhado
pela mãe. Os bebês são sensíveis
às reações maternas. Assim se estabelece
a comunicação recíproca, com a repetição
de mensagens de forma regular e previsível.
Então...
o bebê é uma pessoa competente? A resposta é
sim, mas até pouco tempo atrás não eram
reconhecidos nem o psiquismo, nem as emoções,
nem os sentimentos da criança até dor
se afirmava que ela não sentia! Os pequenos eram seres
totalmente passivos e vazios, objetos a ser cuidados. A nova
imagem do bebê, com o reconhecimento da sua competência
(enxerga melhor do que se acreditava, tem percepções,
intenções, sensibilidade, escolhas próprias),
determina que nunca mais possamos considerá-lo um vaso
de gerânios, que basta ser adubado e molhado para
crescer bem. O que realmente tem significado não é
o que o genitor e a criança trazem ao encontro e sim
o que ocorre entre eles. Winnicott, pediatra e psicanalista,
resumiu tudo nesta frase: Um bebê não pode
existir sozinho. Ele é parte de uma relação.
É preciso de dois para dançar o tango. Esta
metáfora se ajusta e descreve as primeiras e íntimas
relações entre mãe e filho, nas quais
a qualidade da dança depende das contribuições
de cada um dos parceiros, conforme seus talentos e possibilidades.
Manual
Neste início de século não existe
um estilo único e específico para criar os filhos.
Sem modelos, abre-se um espaço mais criativo no qual
podemos ter nossas próprias opiniões. Isso,
porém, também faz com que muitos pais se sintam
confusos e perdidos. Por sorte ou não? ,
o que diferencia as crianças dos liquidificadores é
que elas não vêm com manual de instruções
para solucionar dúvidas no manejo. Se a rigidez do
manual não é recomendável, o excesso
de criatividade também não resulta num método
confiável. Portanto, alguns conceitos básicos
deveriam constar no manual virtual dos pais. O bebê
recém-nascido deve sentir-se seguro, confiante e cuidado
para posteriormente, apoiado nessa base sólida, ser
capaz de suportar doses apropriadas de frustração.
A criança tem que respeitar os limites que os pais
lhe colocam e precisa ter respeitados os seus limites. Não
é certo que seja visto como injusto só aquilo
que os pais deixam de fazer ou que fazem menos com seus filhos.
O excesso também é injusto. É bom falar
sempre a verdade, já que a pior verdade traz menos
danos à criança do que a mais piedosa das mentiras.
Os pais devem saber dizer não. Na nossa cultura, para
ser simpático, atencioso e bem-educado não se
pode, nem se deve, dizer não, quando na realidade é
a consequência lógica e necessária de
dizer sim. Ambas as palavras são importantes e decisivas.
próxima>>
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