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0 A N O S D E S A L V A D O R
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Foto: MARCELO MIN
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| FORÇA DE UM JEITO Os
símbolos da baianidade contagiam visitantes que fazem
de tudo para se sentir parte de um universo exótico e
diverso |
Mancha de dendê não sai
O aniversário da primeira capital do Brasil é
um convite para mergulhar nas raízes de nossa história
e para envolver-se nas contradições da cidade mais
exuberante do País
ANGELA KLINKE E MANOEL MARQUES (FOTOS) – SALVADOR
Decifra o acarajé antes que ele te devore. Esse é um bom conselho para quem quer mergulhar nas contradições do tchan, do axé, do jeito, do cheiro que Salvador tem. E, antes de dar o braço à baiana do Pelourinho e sentir arrepios descendo e subindo ladeiras, lembre-se que historicamente é nesse pedaço de chão que tudo começa, antropologicamente se mistura e culturalmente se engrandece. O som dos berimbaus, os meninos que vendem fitinhas do Bonfim e os prédios coloniais formam a deslumbrante espuma numa praia que já era dos índios quando os portugueses atracaram. Antes de ser a primeira capital da colônia, ela já nascia com status de principal cidade do Atlântico Sul nos mapas das navegações. Só bem depois é que os negros chegam e marcam definitivamente a alma do lugar. Por isso, no aniversário dos 450 anos de fundação, completados em 29 de março, Salvador é uma espécie de convite para que os brasileiros se sacudam também da cintura para cima para entender o que se esconde no "nosso mito de origem", como Caetano Veloso a definiu.
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Foto: MANOEL MARQUES
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| ORIXÁS À VISTA
O Dique do Tororó: statusde novo cartão-postal |
Algumas coincidências aproximam a capital nacional de ontem
e a de hoje. Salvador e Brasília foram construídas
na metade do século, uma no XVI outra no XX. Ambas surgiram
de uma decisão política de ocupação
do território. E cada uma a seu tempo trouxe inovações
em sua arquitetura. As semelhanças param por aí. "Tomé
de Souza foi mais moderno que Lúcio Costa. Salvador obedeceu
a uma tecnologia de ponta para a época. Ela incorporou a
seu modelo medieval o porto. E era pelo mar que a cidade se articulava
com o mundo", compara o historiador baiano Cid Teixeira. Salvador,
conclui-se, foi desde o primeiro instante cosmopolita. "Não
se tratava de um povoado que foi crescendo. A cidade já surge
estruturada. Salvador não nasce de um passado, mas de um
projeto de futuro que era construir o Brasil. Por isso desde o início,
a influência internacional na realidade local está
presente em Padre Vieira, Gregório de Mattos, cinema novo
e a tropicália", analisa Antonio Risério, escritor
e estudioso da cultura baiana e da música brasileira.
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Fotos: MANOEL MARQUES
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| Acima, Mãe Stella de Oxóssi:
liderança política. ETeixeira: "Tomé
de Souza foi mais moderno" |
A Salvador de hoje carece da elaboração vanguardista
de outros tempos. A ousadia foi substituída pelos milhões
da chamada indústria do axé. Vale o mesmo que Caetano
disse em Sampa: "é a força da grana que ergue
e destrói coisas belas". A pujança desse mercado se
concretiza numa cidade em que dos 2,3 milhões de habitantes
só 50% vivem em moradias dignas e 42% dispõem de saneamento
básico, segundo dados da própria prefeitura. Por outro
lado, a Salvador dos turistas ganhou policiamento, iluminação
e recolhimento diário de lixo. O Dique do Tororó,
antes cercado de mato, tornou-se o novo cartão-postal. Enquanto
estudantes redescobrem a cidade que está sendo restaurada,
os turistas enlouquecem. Como no Pelourinho há sempre um
pot-pourri do que se imagina ser Salvador – as baianas rendadas,
as rodas de capoeira, os batuques –, os estrangeiros se agarram
aos locais, trançam os cabelos e fotografam até a
fumaça de vatapá. Os festejos dos 450 anos, acredita
o prefeito Antonio Imbassahy, desperta a auto-estima do povo. "Temos
uma beleza natural, um caráter forte da raça, da cultura,
da religiosidade, da música e isso está em pauta",
analisa. É contagiante, não há dúvida.
Mancha de dendê não sai, como canta Moraes Moreira.
Mas esse óleo lubrifica engrenagens mais sofisticadas. Queime
a língua na pimenta e solte-se no tempo.
O rei dom João III nem alcançava a idéia de
Salvador como capital do Brasil. Sua intenção era
constituir uma base de sustentação à navegação
ao sul do equador que viabilizasse o comércio na rota do
Oriente. À revelia da limitação do dono do
trono, gente e idéias do Velho Mundo desembarcavam por aqui
e iam desenhando o território. Portugueses e índios
que levantaram prédios começaram também a se
reproduzir. Daí a inversão do casal-símbolo
de formação: Diogo Álvares Correia, o português
Caramuru, casar-se com Catarina, a tupinambá de nome luso.
"Mulher portuguesa era algo raríssimo. Os colonizadores não
traziam as famílias. Portanto essa mistura foi mais imposição
da biologia que da sociologia", analisa Cid Teixeira.
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Foto: MANOEL MARQUES
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| BOEMIA Juvená:
anfitrião na praia |
Alma negra
Com o início do ciclo da cana-de-açúcar, a
cidade passa a ser uma doca de exportação e aí
sim se constitui como uma capital comercial. "Nos séculos
XVI e XVII, Salvador já era a maior cidade européia
fora da Europa", lembra Teixeira. Os canaviais trouxeram a fortuna
e a mão-de-obra escrava para a Bahia. As igrejas banhadas
a ouro, que hoje embalam as visitas e sustentam os guias de Salvador,
saíam do bolso dos promissores comerciantes e do suor dos
negros. E é bom que se diga que foram várias nações
africanas que aportaram na região. Até o século
XVII, o fluxo era de negros bantos, de Angola e do Congo. Foram
eles que nos deixaram palavras como dendê, bunda, quiabo,
samba, candomblé, macumba e umbanda. Só depois no
século XVIII o tráfico se desloca para a baía
de Benim, marcando a influência sudanesa, com os povos ewê-iorubá.
Seria muito atrevimento mapear o que essa imigração
forçada provocou na Bahia. Ter na cabeça essa origem
múltipla, contudo, é um caminho para se entender a
complexidade da formação da cidade mais negra do País,
que vai além dos tambores do Olodum, do sincretismo religioso
escancarado na lavagem de Oxalá na igreja do Bonfim e no
exuberante tabuleiro da baiana. "Salvador se tornou um lugar mitificado.
É claro que essa combinação faz de nossa cultura
a mais expressiva das Américas, mas nem sempre essa mistura
significa harmonia. A miscigenação não excluiu
o racismo", alerta o antropólogo Jeferson Afonso Barcelar,
diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais.
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Foto: MANOEL MARQUES
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| ORLA POÉTICA
Itapoã, cantada por baianos e não-baianos como
Vinicius, inspira gerações e convida a sábia
preguiça solar |
A vocação mercantil definiu como um raio o destino
da capital baiana. Até hoje a cidade vive do turismo, do
comércio e de serviços. "Aos 450 anos, Salvador é
marcada pela desigualdade social e pelas altas taxas de desemprego",
afirma o prefeito Antônio Imbassahy. Depois do reinado absoluto
em quase todo o período do Brasil-Colônia, vários
golpes abalaram a altivez da cidade como o declínio do açúcar
e o surgimento do ouro e pedras de Minas Gerais. A transferência
da capital para o Rio de Janeiro, em 1763, não só
tirou-lhe o título como fechou-lhe as portas para o mundo.
A corte juntou seus baús e foi embora, deixando a cidade
num período autofágico, tendo como acervo o passado
e desenvolvendo assim um processo civilizatório particular.
Salvador nem se afrancesou nem perdeu a África de vista,
como o Rio de Janeiro. "Esse processo não foi nem melhor
nem pior que o resto do País, mas definitivamente outro",
define Cid Teixeira.
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Foto: MANOEL MARQUES
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| REDESCOBERTA
Alunos visitam pontos da cidade como a igreja de São
Francisco, a mais expressiva do barroco português |
Por "outro" entenda-se os símbolos da baianidade que resultaram
desse passado e do caldeirão cultural. Entre eles, o rótulo
que mais irrita os baianos é a fama de preguiçoso.
Para tentar explicá-la pode-se remontar ao que os senhores
chamavam de indolência dos escravos e que Jean-Paul Sartre
cunhou de "sabotagem", uma vez que nenhum ser humano suporta com
alegria ralar de sol a sol sem recompensa ou reconhecimento. "A
leitura tradicional de que os negros não gostavam de trabalhar
somou-se ao que Oswald de Andrade já falava da nossa ‘sábia
preguiça solar’. Isso é cultivado como mais um mito
baiano que se contrapõe à pressa dos paulistas", analisa
Antonio Risério. Quem mais catalisou essa imagem foi Dorival
Caymmi deitado na rede. Suas músicas refletem um ritmo lento,
com imagens longas, derramadas, de quem fica na varanda olhando
o mar. "Caymmi fica anos elaborando uma canção e quando
fica pronta parece que sempre existiu", completa Risério.
Amado dos pobres
O conceito de baianidade também se expõe magistralmente na obra de Jorge Amado. Quem chega na cidade com seus romances na mala, reconhece todos os ícones que identificam a terra de todos os santos, mas deve ter sensibilidade antropológica para refazer a imagem dos lugares pelo olhar dos meninos abandonados, dos negros, das prostitutas, dos marinheiros, enfim, dos pobres, que afinal, formam a verdadeira alma da região e enriquecem as páginas do escritor. É preciso ler a cidade também pelas barbas brancas do cabaneiro Juvená, amigo de copo de Vinicius de Moraes. Em Itapoã, ele é uma espécie de guardador da história recente do pedaço. Em seu bar de palha e obras de arte, muita gente famosa esqueceu-se da vida. Nos anos 70, Juvená montou uma barraca no percurso dos trios elétricos. O lugar era tão animado que o último Carnaval do escritor João Ubaldo Ribeiro foi lá, pulando em cima da mesa. "Estou sempre aberto a todos, desde que haja amizade", diz Juvená. Salvador é assim. Há sempre mais.
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Foto: MANOEL MARQUES
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| FORÇA DAS BAIANAS
No Pelourinho, o balé das mulheres reverenciadas por
Jorge Amado e Caymmi |
O candomblé, por exemplo, representa uma das maiores resistências
à folclorização que tomou conta da cidade.
Os ialorixás desprezam os foliões fantasiados de orixás
que acreditam estar popularizando a religião. Abominam visitantes
nos terreiros, com olhos de quem presencia uma dança típica.
"Nós conseguimos impor a crença trazida pelos escravos,
pelo respeito humano que sempre guiou nossas ações.
Por isso hoje brancos e negros, pobres e ricos se unem aqui em busca
de paz e equilíbrio. Somos a tradição e o novo",
atesta Maria Stella de Azevedo Santos, a mãe Stella de Oxóssi,
do Axé Opô Afonjé, a maior liderança
da religião hoje na Bahia. Ela completa 60 anos de iniciação
em setembro, e por sua longa trajetória sabe de seu papel
político. Além de resguardar a cultura africana, o
candomblé estabeleceu na sociedade baiana o poder da mulher.
Assim, como orixás do sexo masculino e do feminino dividem
a hierarquia nos terreiros, as mulheres tomam conta do espírito
e do cotidiano da família baiana. É tão explícita
essa alma feminina que os baianos se referem a Salvador como a Cidade
da Bahia. A essa organização matriarcal de 450 anos,
mãe Stella faz a sua generosa homenagem. "Vamos agradecer
até aos algozes que tiraram os povos da África e trouxeram
para cá. Foi tétrico, mas tornou-se um benefício
para o Novo Mundo. A força dos Orixás ficou guardada
no coração das pessoas e hoje se expande como a energia
que respiramos."
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