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Daniel Wainstein  
“O consumidor estará protegido
das turbulências do mercado”
 

Petróleo 100% brasileiro / Entrevista
"Realizamos
um sonho"
José Sérgio Gabrielli de Azevedo,
presidente da Petrobras, festeja
auto-suficiência e prevê vôos ainda
mais altos para a empresa

Sonho acalentado desde os tempos da campanha O petróleo é nosso, a auto-suficiência brasileira na produção de petróleo acaba de ser conquistada. É uma equação simples: produção igual ou maior que a demanda – mas sua mística ultrapassa o caráter de mero feito empresarial, carregando um importante significado simbólico para o Brasil. “É mais uma afirmação da capacidade de realização de nosso país”, destaca o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli de Azevedo. No terreno prático, o maior significado é a independência energética, com a segurança total no abastecimento interno, que vai gerar benefícios para toda a população. “Energia é um insumo básico para todas as atividades econômicas. O consumidor estará protegido das turbulências do mercado internacional”, garante ele. A seguir, sua entrevista.

Qual o significado da auto-suficiência para o Brasil?
JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI –
A auto-suficiência do País em petróleo, que está sendo obtida exclusivamente pela Petrobras, uma empresa genuinamente brasileira, é mais uma afirmação da capacidade de realização de nosso país. É uma conquista coletiva firmada ao longo da história de 53 anos dessa companhia que muito nos orgulha. O maior significado é a independência energética que passamos a ter em relação ao mercado mais sensível do mundo, que é o de petróleo.

A quem se deve creditar essa conquista?
GABRIELLI –
Aos nossos empregados em todos os níveis, com destaque para o quadro de geofísicos, geólogos e engenheiros que, apesar das dificuldades geológicas e logísticas encontradas em nossas bacias sedimentares, conseguiram desvendar os mistérios do subsolo e superar as vicissitudes do trabalho em alto-mar para descobrir e colocar em produção as grandes jazidas de águas profundas do litoral fluminense. Nos últimos três anos, a expansão do portfólio de áreas para exploração e os elevados investimentos em desenvolvimento da produção proporcionaram um crescimento mais rápido e seguro, preparando a companhia para os desafios de longo prazo, entre os quais se insere a manutenção sustentável da auto-suficiência.

Qual a principal vantagem para o Brasil?
GABRIELLI –
Teremos a segurança total do abastecimento interno de um produto essencial, cujas condições atuais de mercado são excessivamente voláteis e com futuro ainda mais incerto, diante do crescimento do consumo mundial e das perspectivas não muito promissoras de grandes descobertas no mundo no curto e no médio prazos.

E para o consumidor de combustíveis?
GABRIELLI –
Não só quem consome gasolina, diesel e GLP, mas todos os brasileiros se beneficiarão, uma vez que estamos falando de auto-suficiência energética e energia é um insumo básico para todas as atividades econômicas. O consumidor estará protegido das turbulências do mercado e a Petrobras terá mais flexibilidade na gestão dos preços, tornando os impactos mais suaves. Por outro lado, parte do petróleo pesado excedente ao nosso consumo, que seria exportado por preços inferiores aos do petróleo leve, será utilizado para aumentar o volume nacional processado por nossas refinarias, que estão sendo ampliadas e modernizadas. Outra providência para valorizar o petróleo pesado nacional é a implantação do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro que vai utilizar esse produto como insumo.

Arquivo Petrobras/Steferson Faria
“Não vamos nos descolar
dos preços internacionais,
mas teremos maior capacidade para amortecer impactos”

Os preços continuarão acompanhando
o mercado internacional?
GABRIELLI –
Como estamos lidando com
uma commodity, não podemos nos descolar
dos preços internacionais do petróleo e seus derivados, mas teremos uma capacidade muito maior de amortecimento dos impactos. Se antes
da auto-suficiência nós já não praticávamos
ajustes no curto prazo com a produção superior
ao consumo, teremos ainda mais tempo para observar as tendências internacionais. Considerando que o mercado brasileiro de combustíveis é totalmente aberto, não é possível manter, no longo prazo, o preço doméstico maior
ou menor que o internacional.

O que levou à auto-suficiência?
GABRIELLI –
Nossa taxa de crescimento da produção está entre as maiores do mundo, superior à de quase todas as grandes corporações internacionais do setor. A auto-suficiência é, entre outros fatores, resultado de investimentos realizados no passado, da concentração de recursos no segmento de exploração e produção e do elevado conhecimento tecnológico de nossas equipes de geofísicos, geólogos e engenheiros de petróleo que se especializaram em pesquisa e desenvolvimento de projetos para águas profundas. É importante lembrar que, além do crescimento da produção, estamos repondo os volumes produzidos a cada ano e ainda aumentando as reservas.

E para o futuro?
GABRIELLI –
Nos últimos anos a Petrobras descobriu jazidas suficientes para garantir a manutenção futura da auto-suficiência nos próximos dez anos e adquiriu novas áreas exploratórias nos leilões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural
e Biocombustíveis, suficientes para um vigoroso programa exploratório destinado a prolongar por muitos anos nossa autonomia em petróleo.

A Petrobras já tem definidos novos projetos para garantir essa autonomia?
GABRIELLI –
O esforço realizado pela companhia, desde 2003, para apropriação de reservas levou à concepção de uma carteira de cerca de 50 projetos já nominados, dos quais 30 estão em fase de implantação ou finalização de projeto, envolvendo 55% dos investimentos previstos para os próximos cinco anos no Brasil, que serão de US$ 49,3 bilhões. Para garantir a sustentabilidade da auto-suficiência, o segmento de exploração e produção vai receber a maior parcela dos investimentos, US$ 28 bilhões, até 2010. No mesmo período serão investidos US$ 12,9 bilhões na ampliação e modernização do refino, na petroquímica e na logística do transporte e US$ 6,5 bilhões na área de gás, energia e bio-combustíveis.

Quais os fatores para o sucesso de uma empresa de petróleo?
GABRIELLI –
Além da capacitação tecnológica e financeira, o sucesso de uma empresa de petróleo depende também da disponibilidade de áreas para pesquisa. Nosso portfólio hoje é de 131 blocos exploratórios no Brasil e outras dezenas de áreas no Exterior, com excelentes perspectivas de resultados positivos.

Por que o Brasil ainda vai continuar importando petróleo?
GABRIELLI –
O Brasil é, hoje, um dos poucos países do mundo auto-suficientes em produção e refino. Até meados do ano estaremos produzindo mais de dois milhões de barris por dia e nossa capacidade de refino também está nesse nível, que é superior à demanda nacional. Acontece que, por um capricho da natureza, a maior parte do petróleo produzido internamente é pesada, enquanto as nossas refinarias, que foram construídas antes das grandes descobertas desse petróleo, precisam de uma pequena fração de petróleo leve para formar a mistura necessária à produção dos derivados que o consumo nacional exige. Porém, a exportação de petróleo pesado será muito maior do que a importação do produto leve, o que configura a condição de exportadores líquidos.

Qual o volume a ser importado?
GABRIELLI –
Vamos importar apenas 10% do petróleo a ser refinado, algo como 200 mil barris/dia, mas estaremos exportando mais do que os atuais 500 mil barris diários de óleo que vendemos hoje para diversos países. Esse volume será reduzido no futuro, quando as nossas refinarias estiverem todas adaptadas para aumentar o processamento do produto pesado. Por outro lado, também estamos descobrindo reservas de óleo leve para entrar em produção nos próximos anos.