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EDIÇÃO EXTRA
 
 
EDIÇÃO HISTÓRICA DO PENTACAMPEONATO
30/06/2002

A vendeta de Ronaldo
O bico da chuteira do Fenômeno põe o Brasil na final e
mostra para os turcos quem ainda são os reis do futebol

Edmundo Clairefont

Kimimasa Mayama/Reuters  
Semifinal: Brasil 1 X 0 Turquia 26 de junho Saitama, Japão  

Turquia à pátria torna. Após passar com show e garbo pela Inglaterra, a afamada “final antecipada do Mundial”, o Brasil lembrou que antes, no meio do caminho, existiam 11 conhecidas pedras turcas, sedentas de vingança. A seleção verde-amarela, em Saitama, enfrentaria o derradeiro adversário de camisas vermelhas. O último passo antes da decisão, contra a Alemanha do arqueiro Oliver Kahn.

Um jogo onde recordes seriam perdidos e outros, conquistados. Antes da partida, bastante discussão de bastidores. Sem Ronaldinho Gaúcho, ainda vivendo os louros do tiro de quase 40 metros, que foi morrer no bálsamo de rede entre a unha do arqueiro Seaman e a trave, o Brasil precisava pôr em campo um substituto à altura. Anunciava-se a hora e a vez de Ricardinho. Entrou Edílson.

Restava a outra, e maior, querela pré-jogo. Ronaldo sentiu, durante todos os dias que precederam a partida, dores na coxa direita. Os médicos garantiam sua presença. A imprensa desconfiava. Luizão, seu reserva natural, assanhava-se no banco. Discussão somente eclipsada pelo novo, e exótico, corte de cabelo do atacante.

Iniciada a peleja, uma sombra da final de 1998 pairava: Ronaldo cambaleava em campo. Tirava o pé das disputas, corria pouco, postava-se apático. Vaticínio: sem condições de jogo. Rivaldo, puxado por Scolari para o meio de campo, produzia abaixo das expectativas. Edílson, apático, correndo, correndo e correndo.

  Itsuo Inouye/AP
  Categoria: os turcos entraram em campo achando que poderiam vencer. Ronaldo e Rivaldo demonstraram que não podiam

Enquanto isso, a Turquia, com sangue nos pés, pressionava nosso escrete – na bola e na catimba, elegendo o Fenômeno como saco de pancadas oficial. Hakan Sukur, estrela-mor dos vermelhos, apagado até aqui na Copa, resolveu botar os pulmões de Roque Júnior para bailar. O zagueiro Lúcio, herói inglês e, depois, brasileiro, no jogo passado, ainda não aprendeu a sair com a bola, mas formou com Edmilson e Roque Júnior uma zaga quase intransponível.

Até o final do primeiro tempo, o Brasil perdeu várias chances de gol. Mas o que seria do desporto sem sua imprevisibilidade, sem seus ditos e desditos. Na segunda etapa, o Fenômeno redivivo e serelepe. Aos quatro minutos, numa arrancada característica, envolto por quatro vermelhos, uma bastilha quase inexpugnável mandou no
contrapé do goleiro Recber, de bico, sem cerimônia, um balaço certeiro no cantinho
do arco. Gol dedicado à lembrança do genial Romário, espírito vitorioso da Copa de 1994, ausente neste certame.

“É condenável o chute de bico?”, pergunta o enciclopédico bicampeão mundial
Nilton Santos. A resposta é dele: “Geralmente o bico é uma ofensa à bola. Mas ali
foi coisa de craque. O Ronaldo estava sendo perseguido por quatro zagueiros. Não tinha distância. Deu o chute no contrapé do goleiro. Lindo. Por mim, ele pode acertar todos os bicos que quiser.”

Dylan Martinez/Reuters  
Defesa: na bola ou na marra, Lúcio não deu
espaço para Sukur e seus companheiros
 

A partir do gol, Ronaldo tomou para si a condução das rédeas do jogo. E os turcos ficaram sambados. Armou, marcou, atacou, até sentir avisos na forma de cãibras – hora de descansar, guardar a panturrilha para a final. Com sua saída, o time perde em produção. Luizão, o substituto, apático. Com a entrada de Denílson, em bom momento, o time volta a jogar.

Num dos lances mais curiosos do torneio, quatro beques vermelhos, chamados por Denílson, largam sua posições e promovem uma caça no canto do campo. “Nunca tinha visto uma coisa dessas. A zaga inteira abandonou a posição”, diverte-se Márcio Santos.

O que se seguiu, fora a grande partida de Cafu, foi o Brasil administrando o carimbo à final em Yokohama. Missão cumprida. Rivaldo, eficiente no segundo tempo, não marcou. Perdendo, com isso, a chance de igualar o feito de Jairzinho na Taça de 70, quando fez gols em todos os embates. Mas Ronaldo, ao amealhar seu sexto tento, assumia a artilharia da competição.

Os deuses da pelota resolviam, com a vitória da Alemanha sobre a Coréia do Sul, pôr um final nesta Copa afeita aos cenários de savana, onde a zebra corria solta. Restava, pois, o segundo peso na balança para uma final, se não exatamente equilibrada, justa e inédita, mas aguardada desde que a Copa é Copa: o Brasil.

Wilson Simoninha, músico
"A Seleção jogou bem. Mostrou a cara do time. Apesar de ter falhado em alguns
lances, de ter assustado a torcida, teve personalidade. A Turquia tem uma
equipe sem experiência. Mesmo assim, tudo podia acontecer. Jogo imprevisível.
Cara, mas o que chamou a atenção foi aquele lance da defesa turca em
cima do Denílson. Foi uma imagem divertida, enigmática, os quatro turcos
correndo atrás dele. Como destaque, não dá para deixar de falar do Cafu.
Acho que foi sua melhor partida nessa Copa. Aliás, deve ter sido seu
melhor jogo pela Seleção Brasileira."

 

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