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EDIÇÃO HISTÓRICA DO PENTACAMPEONATO
30/06/2002

Enfim, o futebol brasileiro
No seu jogo de “estréia” na Copa, Ronaldinho Gaúcho decide
com um drible genial, um passe para Rivaldo e um gol de craque

Carolina Cassiano

Paulo Whitaker/Reuters  
Céu e inferno: Ronaldinho Gaúcho foi fundamental para a virada, mas depois sofreu com a expulsão
Quartas-de-final: Brasil 2 X 1 inglaterra 21 de junho Shizuoka, Japão
 

Brasil entrou no jogo contra a Bélgica, nas oitavas-de-final, sabendo que, se vencesse, seu próximo adversário seria a resistente Inglaterra, treinada pelo competente técnico sueco Goran Sven Eriksson. Até então, o Brasil não havia enfrentado nenhum time de tradição e, mesmo contra os adversários da primeira fase aparentemente inofensivos, a equipe de Felipão não havia apresentado um jogo que deixasse os brasileiros convictos da vitória.

A partida estava marcada para o dia 21 de junho, dia da comemoração de 32 anos do tricampeonato mundial, no México. O futebol do Brasil que ia enfrentar a Inglaterra não tinha a mesma beleza daqueles dribles, passes e arremates da era Pelé, Tostão e Jairzinho. Ainda assim, os torcedores estavam à espera do primeiro jogo em que o Brasil ia tentar fazer jus ao seu passado glorioso.

O escritor Ruy Castro, autor de Estrela Solitária – biografia do craque Mané Garrincha –, não botava fé na Seleção, não. Para ele, o futebol apresentado é o mais sem graça que o Brasil já jogou. “Os jogos foram muito chatos. Essa Copa do Mundo se apaga da minha mente com uma velocidade espantosa”, disse o escritor, que em nenhum momento acreditou que a Seleção fosse longe.

Mesmo entre os mais bem-humorados, também havia torcedores descrentes na vitória. Gente que achava que o Brasil sucumbiria no quinto jogo. Mas o que ninguém poderia imaginar é que um campeão do mundo como a Inglaterra entraria em campo na defensiva. Em todo o jogo, o time brasileiro precisou que o goleiro Marcos fizesse apenas uma grande defesa. Entretanto, foi jogando no contra-ataque e na falha do adversário que o time inglês abriu o placar. Aos 24 minutos, depois de um lançamento de Heskey, o zagueiro Lúcio acabou ajeitando a bola para Michael Owen, que converteu seu único chute a gol na partida. Apesar da bobeada da defesa, o setor foi considerado eficiente por críticos, técnicos e jogadores. Dos 113 desarmes feitos pelo time, 54 foram de autoria da zaga brasileira, composta por Lúcio, Edmílson e Roque Júnior.

Foi apenas no final do primeiro tempo, aos 48 minutos, que o Brasil conseguiu empatar. Ronaldinho Gaúcho arrancou pelo meio, driblou Scholes e Sinclair, passou por mais um marcador e enfiou para Rivaldo, que olhou para Seaman e tocou no canto direito do goleiro.

Pawel Kopczynski  
Fim de linha Nem a competência do técnico sueco Eriksson salvou a Inglaterra  

Se no primeiro tempo o ataque da Inglaterra estava mal das pernas, na segunda etapa, então, foi só decepção para a torcida inglesa. Ao total, foram três finalizações a gol. Mas o Brasil, sim, estava disposto a fazer seu segundo gol. Aos cinco minutos, Kléberson sofre falta na intermediária e Ronaldinho Gaúcho se posiciona para cobrar. Ele deu um tapa na bola e o Brasil virou o placar. Um golaço digno de muitas reprises. A bola encobriu o goleiro Seaman e entrou no ângulo superior direito do gol. Ronaldinho declarou que Cafu teria alertado sobre o erro de posicionamento de Seaman, que por vezes se colocava adiantado. O atacante garantiu que chutou para o gol. Mas muitos ainda acreditam que ele teria feito o gol sem querer. Fez um cruzamento e a bola acabou entrando.

Seja por sorte ou competência, fato é que o Brasil chegou ao segundo gol na partida em que Ronaldinho tinha tudo para ser o melhor entre os jogadores em campo. Mas sete minutos depois, o atacante entra com a sola da chuteira no pé do lateral-direito Mills. Resultado: o destaque da partida acaba expulso. Esse foi o nono cartão vermelho do Brasil em Copas do Mundo. Até então, o Brasil dividia o topo do ranking com a Argentina, cada qual com oito jogadores expulsos. Com o cartão de Ronaldinho, o Brasil assumiu isoladamente a liderança.

Com a expulsão, não restaram dúvidas acerca do melhor jogador em campo: pela terceira vez no mundial, Rivaldo foi eleito a peça mais eficiente da partida brasileira. A decepção, no entanto, ficou a cargo de David Beckham, o jogador mais badalado da Inglaterra. Casado com uma ex-Spice Girl (banda inglesa composta por cinco belas mulheres), o jogador foi lembrado muito mais pelo seu corte de cabelo fashion (arrepiado para cima) do que por seu futebol. Se, para as câmeras de televisão e máquinas fotográficas, ele brilha como um astro da música pop, em campo estava apático. O mundo esperava mais do futebol de Beckham.

Mas o cantor pop brasileiro Supla – que não fica atrás em ousadia quando o assunto é corte de cabelo – disse que não esperava nada melhor do que o inglês apresentou. “O Beckham até bateu bem as faltas. Mas o caso é que o futebol dele é mesmo pior do que o nosso. Ele até jogou bem para o que ele sabe jogar. Não esperava mais do que ele fez. Aliás, fiquei bem contente com a vitória sobre os ingleses. Eles já têm a melhor música, já derrotaram o Tyson no boxe (Lenox Lewis derrotou o campeão americano em 15 de junho), tinham que perder para a gente. Eles criaram o futebol, mas a gente sabe fazer melhor.”

Paulo Miklos, músico
Torcedor brasileiro é apaixonado. E torcedor apaixonado é sempre otimista. Sempre imagino que o Brasil vai ganhar. Às vezes tenho que ver o jogo na estrada, quando o grupo faz shows. Esse jogo foi legal porque eu pude assistir em casa, com minha filha Manoela e minha mulher, a Rachel. Eu sabia que o jogo ia ser duro, mas acreditava na vitória. Mesmo quando a Inglaterra fez o gol. Sei que temos poder de reação, mas isso estava baseado no lampejo de genialidade individual. Até então, o Brasil não tinha mostrado jogo de conjunto que convencesse. Só tinha provado a individualidade. Mas o mais bacana foi perceber que o time tinha vencido com o conjunto. A defesa foi capaz de cozinhar os caras da Inglaterra. Aguentaram a pressão. Atacaram com os zagueiros e os atacantes ajudaram na defesa. Aquele gol do Ronaldinho... não sei quantos desse ele é capaz de fazer em mil! Mas o que importa é que esse gol valeu por mil

 

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