
28 de maio de 1997
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A eterna transição
Fernando Henrique Cardoso costuma sorrir com satisfação quando algum interlocutor o compara a Getúlio Vargas. Como estudioso da sociologia e da história brasileiras, o atual presidente acredita que seu projeto de governo conferirá ao País uma profunda mudança estrutural, como a ocorrida na Revolução de 30. Naquela época, o Brasil trocou uma economia predominantemente agrária por um bem-sucedido processo de industrialização. FHC acha que, após seu governo, o fosso social ficará menor (no discurso de posse, chegou a prometer o fim da miséria e da fome no País, não custa lembrar) e o empresariado estará revitalizado para a competição globalizada.
Nada mais justo, portanto, que, ao compará-lo a seus antecessores, os livros de história do futuro registrem o retrato do atual chefe de Estado com o mesmo descompasso que marcou as fotografias entre a Era Vargas e a República Velha. Uma consulta aos livros do presente mostra o presidente Washington Luiz com uma barba secular, herdada do Império, monóculo e terno que cheira a naftalina. Vargas vem de uma época em que a produção em escala popularizou a gilete, limpando-lhe a face, e os avanços da ciência substituíram os monóculos por óculos.
Mudar o rosto de uma sociedade viciada em sua própria desigualdade, contudo, exige mais que um projeto de governo. Exige ação. O espírito conciliador de FHC tem levado seu governo a tentar implantar uma nova estrutura sem romper com o antigo sistema. Esta eterna transição tem sido a maior característica da atual administração e talvez seu maior problema. Na política, ele prometeu governar com os líderes dos partidos no Congresso, mas na hora de aprovar a reeleição fechou com os velhos caciques regionais. Cada um entregou-lhe uma cota de votos a favor, sabe-se lá quantos ao preço de R$ 200 mil por deputado. O presidente diz que não tem nada a ver com isso. Sua relação com os caciques ficou no limite legal, das nomeações para cargos públicos e liberação de verbas para obras nos Estados. Mas não era para mudar este sistema que ele defendia uma reforma política?
O Ministério da Educação desclassifica uma série de livros didáticos, mas, quando vai imprimir a lista para as escolas, mantém os títulos de baixa qualidade. Assim, avisa aos professores e evita confronto com as editoras. O Ministério da Saúde anuncia a impropriedade de vários antibióticos, mas concede um prazo para que eles sejam retirados do mercado. Vende-se a ilusão de que o governo agradou a dois lados. Cumpriu seu papel ao informar o consumidor e evitou que a indústria farmacêutica fosse prejudicada com o recolhimento da produção já distribuída às farmácias. Este é o dilema da eterna transição: o governo tem em mente uma sociedade mais saudável, mas como chegar lá com remédios de comprovada impropriedade?
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