21 de maio de 1997

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Congresso valorizado


Há dez anos, quando o jornal satírico Planeta Diário lançou em manchete a frase estampada na capa desta edição de ISTOÉ ("Deputados comprados vieram com defeito"), vivíamos a Constituinte do governo José Sarney. O grande escândalo da ocasião era a concorrência de cartas marcadas para a construção da ferrovia Norte-Sul, obra na qual o governo chegou a gastar US$ 300 milhões. A moeda corrente no Congresso era o fisiologismo, a sanha por cargos públicos. O balcão de negócios instalado no Parlamento tratava com discrição a venda de votos e mandatos.

Passaram-se dois anos da manchete do Planeta Diário e a Comissão do Orçamento do Congresso começou a funcionar com seus anões comprovando que o humor da previsão tinha se transformado em realidade pouco engraçada. Nesse período, os fundadores do Planeta Diário se associaram a outros humoristas de sua geração e criaram a turma do Casseta & Planeta. Em 1995, já promovido a estrela dominical da televisão, o grupo repetiu a piada num quadro do Fantástico. Dessa vez, os deputados comprados que estavam com defeito faziam parte de uma cena que tratava da defesa dos direitos do consumidor. Em dez anos, o baixo nível dos políticos brasileiros conseguiu conferir à frase irreverente do Casseta o raro mérito de piada de duradoura permanência. Pior: quanto mais antiga fica, mais atual parece estar.

Tirando os anões do Orçamento, nos últimos quatro anos o Congresso viveu os escândalos da compra de deputados pelo PSD (US$ 30 mil para quem se dispusesse a trocar de partido), dos donos de bingo (que disseram ter pago US$ 300 mil ao deputado Marquinhos Chedid, de São Paulo) e de uma tentativa de ressuscitar a cobrança de comissões pela aprovação de emendas no Orçamento (o deputado Pedrinho Abrão queria uma comissão de 4% sobre uma verba de R$ 42 milhões).

Na última semana, o jornal Folha de S.Paulo revelou diálogos nos quais dois deputados - Ronivon Santiago e João Maia, do Acre - admitem ter recebido R$ 200 mil para votar a favor da emenda que cria a reeleição para presidente, governador e prefeito. Eles envolvem o nome de outros três deputados acreanos e citam dois governadores como responsáveis pelo pagamento. Como diria a turma do Casseta & Planeta, esse pessoal teve pelo menos o mérito de valorizar o Parlamento. A reportagem com os humoristas que animam a política começa à pág. 102. A reportagem com os políticos que só não desanimam os humoristas está à pág. 20.




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