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Ciência & Tecnologia  
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Sudário nada santo
Pesquisadores italianos causam polêmica ao produzirem uma réplica do manto que teria coberto o corpo de Jesus após a crucificação

Luciana Sgarbi

CRIADOR O italiano Luigi Garlaschelli e a réplica do sudário

O pesquisador italiano Luigi Garlaschelli causou reações inflamadas entre cientistas e religiosos na semana passada ao anunciar o resultado de um experimento ambicioso. Valendo-se somente de materiais e técnicas medievais, sua equipe conseguiu criar uma réplica praticamente perfeita do Sudário de Turim (ou Santo Sudário), o suposto manto usado para envolver o corpo de Jesus em seu sepulcro. Ao conduzir o trabalho, Garlaschelli buscava novas provas de que a relíquia não passaria de uma farsa montada na Idade Média. "Essa já é uma página virada, estou certo de que o sudário considerado santo jamais existiu. Nosso maior objetivo foi mostrar que temos meios para reescrever essa página do passado", afirma ele.

A reação foi imediata. "O Santo Sudário é autêntico. Passei seis semanas analisando-o e posso assegurar isso. É preciso prudência ao manuseá- lo porque está com carbono incrustado desde o incêndio do qual escapou em 1532", disse em nota Mechthild Flury-Lemberg, especialista em história de tecidos antigos do Museu Nacional da Baviera e do Museu Histórico de Berna, na Suíça. Ela estuda o sudário há anos e contesta todos os exames já realizados na peça por meio do uso de radiocarbono. O primeiro foi realizado a pedido do Vaticano por cientistas da Universidade de Oxford (Inglaterra), em 1978. O resultado não deixou dúvidas: o manto de linho teria sido confeccionado em algum momento entre 1260 e 1390 - centenas de anos após a morte de Cristo, portanto. Em artigo divulgado também na semana passada, o cientista russo Dimitri Kouznetsov, autor de estudos prévios sobre o sudário e conhecido na comunidade científica graças às suas bravatas, concorda com Mechthild e argumenta que o incêndio de 1532 poderia ter alterado a composição química da peça, o que teria causado a distorção na datação por carbono. Para Kouznetsov, a réplica criada pela equipe italiana não apresenta elementos capazes de comprovar que o sudário é falso.

Um ponto, no entanto, é inquestionável: se Garlaschelli conseguiu criar um novo manto, outros poderiam ter feito o mesmo. Seu experimento partiu de um simples questionamento: como a imagem foi gravada? Os trabalhos começaram com a escolha de um pedaço de linho com as mesmas medidas do original: 4,4 metros de comprimento e 1,1 metro de largura. Depois, ele foi colocado sobre o corpo de um dos pesquisadores, que usava uma máscara reproduzindo a suposta face de Cristo.

A DEPOSIÇÃO NO TÚMULO Michelangelo Merisi da Caravaggio (1603)

Na sequência, o novo sudário foi tingido com um pigmento que continha traços de ácido. "A partir daí, envelhecemos o tecido artificialmente, aquecendo-o e lavando-o diversas vezes, o que deixou a superfície ainda pigmentada, mas com uma imagem imprecisa e similar à original", explica o pesquisador. Por fim, marcas de sangue e de água, além de algumas queimaduras, foram aplicadas. De fato, diante das duas imagens, fica difícil dizer qual é a verdadeira. Contudo, a réplica criada em laboratório possui traços mais intensos. Segundo o pesquisador, o pigmento do tecido original foi suavizado com o passar dos anos.

Ao que tudo indica, a polêmica em torno da autenticidade do Sudário de Turim deve continuar por um bom tempo. Para muitos, ela se resume a uma questão de fé. Um dos primeiros documentos que o mencionam, uma carta enviada pelo bispo francês Pierre d'Arcis ao papa Urbano VI em 1389, já denunciava a fraude, e sobre isso houve um consenso ao longo de 500 anos. Mas a história mudou de rumo em 1898, quando o fotógrafo italiano Secondo Pia divulgou ao mundo um negativo no qual a imagem do suposto corpo de Cristo surgiu com nitidez sobre o manto. "A Igreja Católica precisa assumir uma posição. Ela não aceita nem rejeita a veracidade do sudário, uma atitude confortável demais. A fé emperra o avanço de experimentos científicos. Muitas vezes, para não romper com fortes valores, abre-se mão da verdadeira história", diz Garlaschelli.

 

30/10/2009


 
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