Há quem diga que os grandes vinhos são obras de arte. Eles também são feitos por artesãos, pessoas capazes de transformar sua matéria- prima, seja a tinta, seja um bloco de mármore ou as uvas de um vinhedo, em criações sublimes para serem contempladas - ou degustadas - aos poucos. É este o princípio que marca os 150 anos da vinícola de Angelo Gaja, o mais premiado produtor de vinhos italianos, constantemente definido como o Armani ou a Ferrari dos rótulos. Uma exposição com obras de artistas renomados, como Andy Warhol e Andres Serrano, e de jovens revelações, como Fabiola Ledda e Luca Saini, vem movimentado, neste ano, a pequena comunade Barbaresco, no Piemonte italiano, onde está localizada a vinícola e os principais vinhedos da família Gaja.
Em passagem pelo Brasil na semana passada, Gaia Gaja, herdeira e vicepresidente da vinícola, divulgou a exposição e também os seus vinhos, que chegam a custar U$ 589 por aqui (Sori San Lorenzo, do Piemonte), importados pela Mistral. "O vinho é o trabalho de um artesão, que transforma a uva em algo surpreendente", disse ela à ISTOÉ.
A mostra está sendo apresentada por ela. Recentemente, Gaia esteve em Hong Kong, na China, onde abriu rótulos de Barbaresco das distantes safras de 1971 e 1964 e, depois de comandar degustações em São Paulo, embarcou para o Canadá, para novas apresentações.
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A exposição "150 anos de Gaja" é dividida em três fases. Na primeira, os Gaja convidaram 30 artistas com menos de 30 anos para criar peças utilizando o rótulo da vinícola. "Acreditamos que estas pessoas serão os nomes da arte contemporânea no futuro", explica Gaia. Na segunda, há obras de arte cedidas por museus de países que são grandes mercados para as quase 600 mil garrafas produzidas pelas vinícolas de Gaja por ano - o Brasil, 13º neste ranking, não está representado. A terceira fase traz a história da família, contada apenas em fotografias e sem textos. De todas as imagens, Gaia elege como sua preferida a moldura que traz todos os rótulos usados pela vinícola, fundada em 1859. A série deixa claro que o nome Gaja sempre teve destaque nas etiquetas, seja nas decoradas com medalhas de ouro, seja naquelas em que as palavras Barolo e Barbaresco eram escritas em letras mais rebuscadas. Hoje, os rótulos são simples, com o nome da vinícola em destaque.
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EXCELÊNCIA Uma das vinícolas da família, sob o comando de Angelo Gaja |
Lado a lado, e bem semelhantes, duas fotos de trabalhadores na colheita, uma datada de 1968 e outra de 2008, mostram que as tradições também foram mantidas pelos Gaja, imigrantes espanhóis que chegaram a Barbaresco 300 anos atrás. As imagens chamam a atenção até porque o sucesso de Angelo Gaja está em romper tradições. Em 1961, por exemplo, ele decidiu elaborar vinhos apenas com uvas plantadas em seus vinhedos, quando a prática local era comprar uvas na região. "Naquela época, não era possível garantir a qualidade das uvas compradas", explica Gaia. A consequência imediata é que os Gaja deixaram de produzir Barolos, considerados os "reis" dos vinhos italianos. A lacuna só foi preenchida em 1988, quando a família conseguiu comprar um vinhedo em Barolo. Em outro exemplo, em 1978, Angelo replantou um vinhedo de Nebbiolo, a principal uva tinta local, com a francesa cepa Cabernet Sauvignon.
Gaia Gaja parece seguir os passos do pai. Atualmente, ela lidera o trabalho de selecionar, entre as vinhas antigas do Piemonte, os melhores clones da uva Nebbiolo. O objetivo é desenvolver um clone próprio dos Gaja e trabalhar apenas com ele nos vinhedos.
A herdeira, que no futuro deve dividir o comando da vinícola com seus dois irmãos mais novos, também sonha com um vinho branco, que poderia nascer da Campanha ou do Marche, na Itália. Vale lembrar que, desde os 20 e poucos anos, quando assumiu a vinícola, Angelo expandiu os vinhedos também para duas regiões na Toscana - em Maremma, os Gaja são donos da vinícola Ca'Marcanda e, na região de Brunello di Montalcino, da Pieve Santa Restituta. E a jovem Gaia Gaja tem apenas 30 anos. E muitas ideias.