ISTOÉ - Independente
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
  COLUNISTAS
  BRASIL CONFIDENCIAL
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
Ana Cristina Pimentel
"Tenho medo que meus filhos vinguem a morte da irmã"
Um ano depois de perder a filha, morta pelo ex-namorado, a mãe de Eloá conta que a família ainda tenta superar a tragédia

Por Carina Rabelo

Fotos: TO NI PIRES/AnDaLuZ; ri vald o gomes/folha
DOR Evangélica, Ana Cristina busca forças na religião. "Mas superar, a gente não supera"

Há um ano, Ana Cristina Pimentel, 43 anos, viu sua família se dilacerar em rede nacional. Primeiro, assistiu à única filha, Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, sofrer o mais longo caso de cárcere privado do País - 100 horas sob o jugo do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes, 23 anos, que prendeu a adolescente em sua própria casa.

Depois, ouviu, em desespero, dos médicos que operaram a jovem baleada na cabeça pelo sequestrador que ela havia morrido - e ainda teve presença de espírito para autorizar a doação dos órgãos. Ainda sob o torpor da incredulidade e do sofrimento lancinante, presenciou o marido, Everaldo Pereira dos Santos, se tornar um foragido da Justiça, acusado de homicídio pela polícia de Alagoas. Após meses sobrevivendo à base de remédios, Ana Cristina, que é evangélica, tenta resgatar o que lhe restou e reconstruir a vida. Mudou do apartamento onde sua filha foi torturada e morta e mora com os outros dois filhos em uma casa na cidade de Santo André (SP).

Retomou o trabalho como cozinheira de uma creche há quatro meses e afirma não ver o marido há um ano, apesar de defender, com ardor, sua inocência. Cerca de dez quilos mais magra e muito abatida, reúne forças para enfrentar o julgamento de Lindemberg, marcado para o próximo ano. Diz não ter raiva do algoz de Eloá, mas teme pela ira dos filhos, que ainda não superaram a tragédia.

ISTOÉ - Como se sente um ano após a morte de Eloá?
Ana Cristina Pimentel - No dia em que completou um ano, fiquei sedada. O assunto voltou à televisão, aos jornais. Passei dois dias com medicação, não consegui ir ao trabalho. Superar, a gente não supera, mas encontro forças na igreja (ela frequenta a Congregação Cristã no Brasil), no meu trabalho e cuidando da minha nova casa. A terapia também me ajuda muito. Fiquei oito meses afastada do trabalho, fazendo tratamento. Acordava dopada, dormia dopada, não comia, perdi dez quilos. Foram os irmãos e as irmãs da igreja que me ajudaram, fazendo orações para mim. Ainda hoje tomo antidepressivos. Foi importante sair da casa antiga (onde ocorreu o sequestro). Não conseguiria viver lá, preferia ir para debaixo da ponte. Em dezembro, decidi me mudar. Minha família era muito unida e está separada. Ainda estamos perdidos. Só agora, estou conseguindo me acostumar, mas evito ficar em casa.

ISTOÉ - Como a sra. lida com as recordações?
Ana Cristina - Não tem sido difícil, não sofro com as coisas dela. Difícil mesmo é não ter mais ela. Guardei muitas coisas, outras dei ou joguei fora. As roupas, a carteira, as bolsas preferidas e um sapato que ela adorava vão ficar para sempre. Além das fotos. Em cada parte da minha casa tem uma foto grande dela.

ISTOÉ - Como os filhos da sra. estão reagindo?
Ana Cristina - Desde a tragédia, Ronickson, o meu mais velho, de 22 anos, não fala no assunto. Foi ele que aguentou toda a barra logo depois que aconteceu. Douglas, o mais novo, de 15 anos, ficou como eu, doente. Faz tratamento, frequenta psicólogo.

O Douglas está arrasado, pois era muito próximo à irmã e muito amigo do Lindemberg. Ainda está muito revoltado, não esquece. Emagreceu, perdeu o gosto pela escola, pelo futebol. Ele participou da negociação e teve a palavra do Lindemberg de que tudo acabaria bem. A decepção foi muito grande. Tenho medo de que, quando o Lindemberg for solto, os meus filhos vinguem a morte da irmã. Por isso, sempre falo para eles que vingança não leva a nada. Se tiver que acontecer alguma coisa, que não seja da nossa parte.

ISTOÉ - No velório, a sra. comentou que teria perdoado Lindemberg. Perdoou mesmo?
Ana Cristina - Perdoar é uma palavra muito forte. Só quem perdoa é Deus. Não tenho mágoa dele, só não esperava que ele fizesse isso. Ele era como um filho. O amor que ele tinha dentro do meu lar, não tinha na casa dele. Espero a justiça do Senhor. Acho que é melhor para ele que fique preso por muitos anos. Se sair, vai ser morto. Muita gente do Brasil inteiro manda cartas e liga para a minha casa, se oferece para matá-lo. Tenho dó. Ele está mais seguro lá dentro, pelo menos até o julgamento. Quando for condenado, vai para a cela coletiva. Aí, a história muda. Mas não desejo mal. Sou evangélica, não alimento raiva de ninguém.

Fotos: TO NI PIRES/AnDaLuZ; ri vald o gomes/folha
"A Nayara nunca me procurou, nunca me disse o que aconteceu. Não sei se ela tem medo dele (Lindemberg). Ela nem era tão amiga da minha filha"

ISTOÉ - Após o término do relacionamento com Lindemberg, Eloá já teria comentado que ele estava muito agressivo e que tinha medo. A sra. pensou em dar queixa à polícia?
Ana Cristina -Eu queria dar queixa. Aí falei com o meu marido e ele achou melhor que conversássemos antes com o Lindemberg. A gente pediu para que ele desse um tempo e que conversaríamos com ela para ver se tinha volta. Eu disse para ele que ela era muito nova e que, provavelmente, teria outros namorados, que ele não seria o único. Aí, a cabeça dele virou.

Ele sempre ligava para mim. Dizia que iria fazer uma besteira, só que eu pensava que era com ele. Aí eu dizia:"Não faz, a gente te ama, tudo vai ser resolvido." Ele sempre me escutava.

ISTOÉ - A Eloá estava interessada em outra pessoa?
Ana Cristina - Não, ela amava o Lindemberg. Ela terminou porque ele tinha muito ciúme. Ela estava decidida, fazendo quatro cursos, vivendo a vida dela. Mas no diário só falava dele. Foi seu primeiro e único namorado.

ISTOÉ - A sra. tem visto a Nayara?
Ana Cristina - Não; nos encontramos apenas duas ou três vezes na rua. Ela nunca me procurou, nunca me disse o que aconteceu. Não sei se ela tem medo dele, não sei o que é. Ela nem era tão amiga assim da minha filha, se conheciam fazia apenas um mês. Eloá gostava de todo mundo, nunca comentou da Nayara como alguém especial, tinha mais intimidade com outras garotas. O início da amizade delas coincidiu com o término do namoro com Lindemberg. Ele acreditava que a Nayara virou a cabeça da Eloá contra ele, tinha muita raiva dela. Acho que ela pode ter influenciado sim. Não sei o que as aproximou tanto, mas eu agradeço a ela por ter tido a coragem de entrar lá. Ela poderia ter sido morta. Não sei se foi por amor à amiga que ela entrou.

Talvez tenha sido pela falta de noção do perigo. Elas não sabiam o quanto ele é maquiavélico.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
 

30/10/2009


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
   
   

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions