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Dilma versão 1.0
Ministra-candidata capricha no figurino popular, nos abraços, choros e sorrisos. Resultado: está cada vez mais irreconhecível

Jorge Felix

FOTOS: SILVA JUNIOR/FOLHA IMAGEM
SIMPATIA Dilma dá o primeiro chute e abraça operários: esforço para mudar imagem

Aliteratura de cordel, em sua aparente ingenuidade, tem o poder de revelar o mundo real com imensa perspicácia. Os versos ao lado são de autoria da sagacidade do repentista Zé Piaba. Em apenas duas sextilhas, o poeta cearense conseguiu desvendar a falácia do marketing político - um espelho falso que tende a refletir uma imagem artificial dos políticos à medida que avança a campanha eleitoral. No caso, o reflexo é o da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a candidata oficial. Dilma tem sido cada vez menos a Dilma que todos conhecem desde sua chegada ao poder em 2003. Aquela de poucos sorrisos, sisudez e pulso tão firme a ponto de provocar distância - sobretudo de seus subordinados. Essas qualidades conferiram veracidade ao título que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva queria pregar-lhe, o de "mãe do PAC" ou, como alguns preferem, o de "gerentona".

Esta semana, porém, a ministra chutou bola de futebol em um estádio de Araraquara, posou de capacete ao lado de operários do Hospital-Escola de São Carlos (interior paulista) e abandonou o formalismo em reuniões políticas e eventos públicos. Encheu os fotógrafos de sorrisos. Abraçou, beijou e espantou pelo bom humor. Há algumas semanas tem sido assim. Por onde passa, Dilma tem suscitado interjeições de espanto por apresentar uma personalidade tão simpática (embora, em algumas fotos, seja traída por sua expressão).

"O mais surpreendente foi o estado de espírito dela, em alto-astral", testemunhou o deputado Mário Heringer (PDT-MG), que esteve com ela em Minas Gerais, no início do mês. Era a Dilma versão popular em plena atuação. Irreconhecível. O PT discorda de que começa a nascer uma Dilma desvinculada da verdade. "A Dilma pode ter uma imagem de gerentona, dura, antipática, o que for, para a imprensa e algumas pessoas, mas eu a acho um doce. Então,qual imagem prevalece?", questiona o líder do partido na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (SP). Como ilustração para sua tese, ele conta que Dilma conheceu sua mãe, uma senhora de 74 anos, em recente viagem a Feira de Santana. "Minha mãe me contou que a Dilma passou a mão no rosto dela e elogiou seu belos olhos. Esta é a Dilma fora do gabinete da Casa Civil", contou Vaccarezza.

Ele reconhece, porém, que este é o momento de formação de uma nova imagem para a candidata. "A imagem só está sendo construída agora", afirma.

E antecipa: "Na campanha, ela será superexposta e o povo verá uma ministra atenciosa, simpática, afável, gentil e que sabe ouvir." A oposição tem outra imagem de Dilma. "A ministra corre um sério risco", acredita o líder do DEM, senador José Agripino (RN). Segundo ele, num primeiro momento o efeito pode ser positivo, mas "se o eleitor concluir que a nova imagem de Dilma é artificial, pode se sentir ultrajado".

A análise de José Agripino recebe apoio de quem está fora do papel de oposição e conhece bem o sentimento do eleitor. "Um deslocamento de sua imagem para torná-la mais atraente às vezes pode funcionar mal", afirma o presidente do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra. "Se vier a ser percebida pela opinião pública como uma invenção de campanha, a emenda pode ser pior do que o soneto. Ninguém passará a votar em Dilma por ter visto a ministra abraçar criança", completa. Na avaliação de Coimbra, é um equívoco o PT investir no estereótipo feminino predominante e procurar apresentar Dilma à população como alguém dócil, com emoções e sentimentos.

Um dos alicerces da construção desta personagem tem sido o reforço do tom religioso. Militante trotskista na década de 1960, Dilma fez um périplo por todas as religiões e até chorou na festa do Círio de Nazaré. Segundo sua assessoria, nada disso significa um esforço artificial - ou eleitoral.

FOTOS: SILVA JUNIOR/FOLHA IMAGEM

Na terça-feira 20, no entanto, a versão popular de Dilma foi obrigada a conceder algumas horas à realidade dos problemas concretos que a candidatura enfrentará nas urnas. Em sua sala no Centro Cultural Banco do Brasil (sede provisória do governo federal), a ministra prestou depoimento à Justiça no caso do Mensalão como testemunha dos ex-deputados Roberto Jefferson (PTB-RJ) e José Janene (PP-PR), dois dos 39 réus do processo. Ali, longe dos holofotes, ela voltou a ser a Dilma que todos conhecem: altiva e sem medo de dizer o que realmente pensa sobre as pessoas. "Acho que o [José] Dirceu foi uma pessoa injustiçada", disse a respeito de seu antecessor no cargo, apontado como o chefe da quadrilha do pagamento de propina a parlamentares em troca de apoio ao governo, escândalo revelado em 2005. Dilma também defendeu outros petistas acusados de se beneficiar do esquema, como o Professor Luizinho (SP) e Paulo Rocha (PA) e negou a existência do Mensalão. Resta saber o que o poeta repentista diria sobre isso.

 

22/10/2009


 
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