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COMÉRCIO O governo da Alemanha Oriental lucrou 1,8 bilhão de euros com a venda de pessoas para o lado Ocidental |
Defensora do lema "memórias reveladas para que não se esqueça e nunca mais aconteça", para a ex-ministra alemã Marianne Birthler, 61 anos, sociedade evoluída é aquela que conhece sua história. É no espírito de reconstrução da própria identidade que a Alemanha comemora, no dia 9, 20 anos da queda do muro de Berlim. A reunificação garantiu ao povo alemão o acesso irrestrito aos arquivos secretos da República Democrática Alemã (RDA), a antiga Alemanha Oriental. Os documentos mostram bastidores das operações da Stasi, a temida polícia secreta que espionava, prendia e torturava cidadãos. Em 1991, as violações foram reveladas em 140 quilômetros de papel, 1,3 milhões de fotos e cinco mil filmes e vídeos, 164 mil cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.
Nos anos 80, Marianne, que vivia no lado Oriental, se engajou nos grupos de oposição, foi investigada e viu muitos amigos sofrerem perseguições políticas e chantagens da polícia secreta. Considerada referência na defesa do acesso às informações, em 2000 ela assumiu a chefia do departamento dos arquivos da polícia secreta. Atualmente, ocupa cargos no Comitê Alemão do Unicef, no conselho da Transparência Internacional - coalizão global contra a corrupção - e na Grünen Akademie, rede acadêmica ligada ao Partido Verde.
ISTOÉ - Quando os arquivos da Stasi foram abertos, muitas pessoas ficaram sabendo que o parceiro, o vizinho ou um amigo era espião. Como tem sido a receptividade dos alemães a esses documentos?
Marianne Birthler -A aceitação é grande. Não devemos esquecer que os cidadãos da antiga República Democrática Alemã (RDA) conquistaram o direito ao exame dos arquivos depois de terem ocupado entre 1989 e 1990 os escritórios do Ministério de Segurança do Estado. E, até hoje, aproximadamente 1,7 milhão de pessoas apresentaram requerimentos para exame dos documentos, além dos meios de comunicação. Reportagens sobre colaboradores extraoficiais ou os procedimentos do Ministério de Segurança do Estado mostraram às camadas mais amplas da população - também na Alemanha Ocidental - quão pérfidos foram os métodos da Stasi.
ISTOÉ - Muitas também descobriram que foram vigiadas.
Marianne -É óbvio que ler isso nos documentos referentes à própria pessoa também é penoso, mas é, sobretudo, uma oportunidade para recuperar o controle da própria biografia. O ministério muitas vezes interveio na vida dos cidadãos, sem que eles pudessem provar isso. Você não podia frequentar a universidade, não podia trabalhar na sua profissão, não ganhava a residência já prometida. Seus amigos de repente se afastavam, e tudo isso era manipulado pela Stasi.
ISTOÉ - Há uma equipe que trabalha na colagem dos pedaços de papel dos documentos destruídos após a queda do muro. Quantos se perderam?
Marianne - É muito difícil dizer quantos documentos o Ministério de Segurança do Estado conseguiu destruir. Restaram-nos documentos que equivalem a 160 km de papel, além de fitas magnéticas e fotografias. Na dissolução do ministério encontramos mais de 15 mil sacos com documentos rasgados. Esse é o material que os oficiais da Stasi queriam fazer desaparecer completamente. Já conseguimos recompor o conteúdo de 400 sacos e estamos nesse momento desenvolvendo um processo de reconstrução computadorizada. Em Leipzig, por exemplo, os colaboradores da Stasi tinham despedaçado os documentos com uma máquina gigantesca e misturado os fragmentos com água, até formar uma pasta.
Além disso, em 1990 foi destruído, com a concordância dos dirigentes políticos, quase todo o acervo do Departamento de Espionagem no Exterior da Stasi.
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"Encontramos mais de 15 mil sacos com documentos rasgados. Já conseguimos recompor o conteúdo de 400" |
ISTOÉ - O filme "A Vida dos Outros" (2006) mostra como um policial protegeu um investigado por consciência. Há algum paralelo com a realidade?
Marianne - O enredo do filme é um conto de fadas. Não temos notícia de oficiais da Stasi que protegeram pessoas espionadas. Isso nem teria sido possível, pois os colaboradores da Stasi também eram supervisionados. Na rotina da Stasi, todas as atividades descritas no filme eram separadas e executadas por colaboradores distintos, que nada sabiam um do outro e, muitas vezes, nem conheciam a finalidade da sua tarefa.
O objetivo era impedir que uma pessoa soubesse demais ou pudesse pôr algo em movimento.
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