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Cultura  
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Livros
Perfumaria Brasil
Em "Rei do Cheiro", João Silvério Trevisan satiriza a elite nacional por meio de um empresário do ramo de perfumes

Natália Rangel

FOTO: KARIME XAVIER/ AG. ISTOÉ
PAINEL Trevisan usou jingles, marchinhas e trechos de jornais na sua reconstituição de época

O novo livro do escritor paulista João Silvério Trevisan, "Rei do Cheiro" (Record), faz um retrato impiedoso das mazelas nacionais ao traçar um panorama do Brasil nos últimos 50 anos. Começa reproduzindo um carnavalesco programa de rádio que, antes de transmitir mais um capítulo da popular novela

"O Direito de Nascer", pede aos ouvintes colaborações para a família Coronado: a mãe dera à luz quíntuplos no interior paulista. É o ano de 1951, e acabara de nascer o futuro "rei do cheiro", Ruan Carlos. A história é uma ficção inspirada em fatos reais que vão marcando a linha do tempo da narrativa até o final apoteótico em que o crime organizado passa a ser protagonista (e que é uma referência aos ataques da facção criminosa PCC, Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, em 2006).

Quem conduz todo o enredo é Ruan Carlos Coronado, um dos dois sobreviventes dos quíntuplos anunciados pela rádio. Ele irá se interessar pelos perfumes na puberdade e descobrirá logo que as essências poderiam se tornar a sua mina de ouro - começa produzindo cópias de aromas estrangeiros até desenvolver as suas próprias fórmulas e revendê-las no centro comercial da capital paulista.

É o início de uma saga milionária conduzida sem nenhum escrúpulo por um homem que vai se revelando cada vez mais corrupto, megalomaníaco e amoral. As referências sociais, políticas e culturais são diversas e para expressá-las o escritor inclui no texto populares jingles publicitários das rádios nos anos 1950, marchinhas de Carnaval, trechos de samba e menções a personagens de televisão, como a vilã Odete Roitman, vivida por Beatriz Segall na novela "Vale Tudo".

Alusões à crise política do Mensalão e reproduções de noticiários, colunas de fofoca e trechos de telejornais também recheiam a narrativa. Tudo isso é entrecortado numa estrutura fragmentada e dinâmica que ajuda a contar a história e recriar o contexto em que as ações se passam.

"Utilizei tudo o que se poderia chamar de lixo da indústria cultural, não só como elemento auxiliar na narrativa, mas para entretecer diferentes estilos, marcar o ritmo e criar texturas no texto," diz Trevisan. Os fatos verídicos permeiam a bem-sucedida trajetória do empresário Ruan Carlos, que passa a ser um orgulhoso integrante da elite emergente nacional.

Trevisan, autor do premiado "Ana em Veneza", sobre o encontro de Julia Mann (mãe do escritor Thomas Mann, de origem germano-brasileira), sua antiga ama e escrava Ana e o músico Alberto Nepomuceno, já deu provas de ser um hábil orquestrador de episódios da vida real. Baseado em intensa pesquisa, e após um trabalho de escrita de quatro anos, ele repete esse rigor.

Segundo o autor, a escolha do negócio dos perfumes como foco de seu painel histórico não foi arbitrária. "Essa indústria, e também a da higiene pessoal e da cosmética, foi um dos setores que mais cresceram no período." Além de ser uma boa metáfora política: "Eu queria captar o clima do Brasil contemporâneo, onde nem tudo são perfumes. Há nos ares deste país cheiros ruins que sentimos todos os dias."

 

 

15/10/2009


 
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