ISTOÉ - Independente
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
  COLUNISTAS
  BRASIL CONFIDENCIAL
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
"O Itamaraty é lento demais para agir"
Para o historiador inglês, o Ministério das Relações Exteriores é muito ideológico e extremamente burocrático

por Claudio Dantas Sequeira

Fotos: Rica rdo Stuckert/Va lter Campanato/ABr; di
Sonho distante Maxwell crê que vaga em Conselho de Segurança da ON U é utopia brasileira

O historiador inglês Kenneth Maxwell ganhou notoriedade no Brasil ao publicar, no final da década de 70, o livro "A Devassa da Devassa", no qual mostrou como a conjuntura externa influenciou a Inconfidência Mineira. De lá para cá, nunca deixou de acompanhar o que acontece no País. Professor do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Maxwell, em entrevista à ISTOÉ, afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva imprimiu uma cara nova para a política externa brasileira, por "saber lidar com os líderes mundiais e ao mesmo tempo falar com o povo". O historiador, no entanto, não poupou críticas ao Itamaraty, que "é lento demais em suas decisões" e "precisa de mais pluralidade e menos carga ideológica". Ele diz que a pretensão do governo Lula por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas é uma utopia: "As grandes potências não têm a menor intenção de permitir isso. É uma forma mesquinha de fazer política internacional, mas é a realidade."

ISTOÉ - O Brasil alcançou projeção inédita no cenário internacional, com participação em vários fóruns de debate. O sr. concorda?
Kenneth Maxwell - Sem dúvida, é um momento importante. Um movimento completamente novo nesse sentido, porque o Brasil não está só atuando com destaque na América Latina e na África, mas em todos os continentes. Tornou-se um verdadeiro ator global. É claro que com a liderança também vêm a responsabilidade e problemas muitas vezes inesperados, como é o caso de Honduras. Mas, no geral, a imagem do Brasil é muito boa. Lula tem uma popularidade enorme, em comparação com outros dirigentes mundiais.

ISTOÉ - O que explica a projeção do presidente Lula no Exterior?
Maxwell - É um pouco inesperada. Lembro que tive um encontro com Lula no início do primeiro mandato e ele me disse que não se preocuparia muito com o Exterior, que precisava viajar pelo País e não para fora. Só que depois acabou abraçando a política externa. Creio que a virada se deu após o encontro com o presidente americano George W. Bush. Lula estava muito nervoso antes dessa viagem, mas depois acho que seu deu conta de que, se havia chegado ao Bush, poderia ir a qualquer lugar no mundo. Foi um bom encontro, que lhe deu confiança.

ISTOÉ - A conquista da sede para os Jogos de 2016 é resultado exclusivamente dessa popularidade internacional do presidente Lula?
Maxwell - Não. A popularidade internacional do presidente Lula ajuda. Mas o Brasil fez uma preparação excelente. Além disso, Rio é Rio. Isso também ajuda. Apesar de tudo, essa é a hora do Brasil. Nunca um país da América do Sul conseguiu sediar os Jogos. Já era tempo. Vai ser um desafio, mas um desafio merecido.

Fotos: Rica rdo Stuckert/Va lter Campanato/ABr; di
"Lula tem autonomia na comunidade internacional, enquanto o Itamaraty virou uma burocracia pesada"

ISTOÉ - Mas por que Lula chama tanto a atenção?
Maxwell - Ele imprimiu uma cara nova para a política externa brasileira. Sabe lidar com os líderes mundiais e ao mesmo tempo falar com o povo. Seu papel como interlocutor é levado a sério por todos, nos programas de televisão, blogs, todo mundo está falando um pouco sobre Lula. É uma situação nova para um presidente do Brasil. O mais impressionante é que ele só fala português, além, obviamente, de sua origem humilde. Não é comum um operário pobre virar presidente. No Partido Trabalhista inglês deve haver uns três ou quatro membros com origem humilde. Na Rússia, são todos intelectuais.

ISTOÉ - A ênfase na diplomacia presidencial faz sombra ao Itamaraty?
Maxwell - Trata-se de um ponto interessante. Creio que a presença de muitas pessoas fazendo política externa ao mesmo tempo pode levar a certas confusões. O fato é que Lula tem autonomia e atua livremente, enquanto o Itamaraty transformou-se numa burocracia pesada. E isso não é bom. Está claro que a diplomacia tradicional deve ser repensada. É preciso mais inteligência, pluralidade, menos carga ideológica e mais agilidade para lidar com vários temas ao mesmo tempo.

ISTOÉ - A crise em Honduras põe em risco o capital diplomático acumulado pelo governo Lula nos últimos anos?
Maxwell - É uma situação inesperada. O problema é que o Brasil está com várias aspirações de protagonismo internacional, mas às vezes faltam os meios para atingi-las de forma positiva. Ao que parece, o governo Lula não sabia que Zelaya retornaria ao país. Foi surpreendido. Mas o fato é que o Brasil foi arrastado para o centro da crise, com Zelaya abrigado na embaixada brasileira. É uma situação séria, pois o governo Lula tem dito a Zelaya para não se manifestar politicamente, só que ele faz isso o tempo todo.

ISTOÉ - O governo Lula disse que não negocia com golpistas...
Maxwell - É um erro, pois os golpistas são parte do problema e sem dialogar com eles será impossível resolver o impasse. Faltam lideranças em Honduras que possam efetivamente ajudar na busca de uma solução pacífica. E fora de Honduras a situação não é melhor. Os Estados Unidos têm interesses lá, mas a política para a América Latina ainda é pouco inteligente.

ISTOÉ - Em sua opinião, houve ingerência do Brasil em Honduras?
Maxwell - Sim e não. Claro que é ingerência, pois a situação foi criada pelos hondurenhos entre eles mesmos. Mas não é mais ingerência que do resto da América Latina, que declarou ter havido golpe e determinou a reinstalação de Manuel Zelaya no poder.

ISTOÉ - Na recente reunião do G-20, o presidente Lula comemorou a ampliação da cota do Brasil no FMI e também no Banco Mundial, e o enfraquecimento do G-8. São conquistas palpáveis? Maxwell - Há poucos resultados imediatos. A possibilidade de ampliar o G-8 para um G-20 é possível, embora pouco provável, por enquanto. Mas o simples fato de o G-20 existir como fórum de debate é importante, pois significa a possibilidade de estreitar os laços em reuniões que ocorrem quatro vezes por ano. Além disso, o Brasil se pôs como um dos principais interlocutores entre o mundo em desenvolvimento e o mundo desenvolvido. O mais importante, no momento, não é promover as mudanças, mas abrir um canal de negociação e ser ouvido.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
 

15/10/2009


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
   
   

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions