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Cultura  
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Artes visuais
Falsas verdades
Duas exposições chamam a atenção para a ficção e a teatralidade contidas no ato fotográfico

por Paula Alzugaray

SEM FRONTEIRAS Foto de Bernard Faucon (acima), no Itaú Cultural, e vídeo de Anna Malagrida (abaixo): entre a ficção e a realidade

A invenção de um mun do/ Itaú Cultural, SP/ de 15/10 a 13/12 Visi ón: F(ici ón)/ Centro Cultural São Paulo (CCSP), SP/ até 15/1

O tema é quente e está em discussão desde a invenção da fotografia e do cinema, mas ainda não se esgotou: que fronteiras separam ficção e realidade? Sem estabelecer um consenso, duas exposições em cartaz em São Paulo sustentam posições diversas sobre o quão real - ou testemunhal - é a imagem fotográfica. Os curadores de "A Invenção de um Mundo", organizada em parceria entre o Itaú Cultural e a Maison Européenne de La Photographie, argumentam que o estatuto de veracidade da foto grafia começou a ser questionado a partir dos anos 1960.

"A ideia de uma verdade totalizante, pura e isenta passou a ser repudiada. Vigora, desde então, o pensamento de que todo conhecimento é relativo", escreve Jean-Luc Monterosso, diretor da Maison Européenne de La Photographie, em seu texto curatorial. Já os vídeos selecionados para a mostra "Visión: F(icción)", resultado da colaboração entre o Centro Cultural São Paulo (CCSP), o Instituto Cervantes e o Festival Loop, de Barcelona, apontam para uma permanente relação de correspondência - e não de oposição - entre o fictício e o real. Para o curador espanhol Martí Peran, "a ficção não é um relato alheio à realidade, mas seu próprio desdobramento."

A primeira mostra acredita que a fotografia construída, ou encenada, está a serviço da desconstrução do conceito de "verdade" inerente às imagens técnicas; a segunda argumenta que ficção e realidade são conceitos interdependentes. Ambas concordam, porém, que a ficcionalização é um fenômeno presente na fotografia e no vídeo contemporâneo.

"A Invenção de um Mundo" apresenta 127 obras de 30 artistas do acervo da instituição francesa, entre os quais incluem-se os brasileiros Vik Muniz, Cris Bierrenbach e Vicente de Mello; o catalão Joan Fontcuberta; os franceses Christian Boltanski e Bernard Faucon; e o americano Joel-Peter Witkin. "Vision: F(icción)" mostra dez videoartistas que invocam o teatral para referir-se ao mundo real, entre eles a espanhola Anna Malagrida, que cria uma narrativa a partir do registro de um homem flagrado em uma janela; e a guatemalteca Regina José Galindo, que reencena em performances gravadas os métodos de tortura usados pela CIA na guerra contra o terrorismo.

Estante

Vamos brincar de arte contemporânea?

O OLHO E O LUGAR: REGINA SILVEIRA/ Renata Sant'Anna e Valquíria Prates/ Editora Paulinas/ R$ 43

Falar de arte contemporânea para adultos é um desafio. Para cortar pela raiz o medo e o preconceito que envolvem a arte feita nos dias de hoje, a estratégia é focar o público infantil. É para ele que as educadoras Renata Sant'Anna e Valquíria Prates conceberam a coleção "Arte à Primeira Vista", que aborda os artistas Regina Silveira, Leonilson, Lygia Clark, Anna Bella Geiger, Iberê Camargo e Franz Krajberg.

"O ensino no e fica-se com a impressão de que arte é só pintura. Aí as crianças chegam numa bienal e percebem que faltou alguma coisa para entender tudo aquilo", diz Renata, que enfrenta a tarefa de iniciar pais e professores através dos olhos das crianças. "Elas estão mais abertas, sem conceitos formados." Seu mais recente lançamento é "O Olho e o Lugar", que introduz Regina Silveira, "artista que confunde nossas certezas".

Roteiros

Entre amigos

Em TORNO dE/ Complexo Cultural Funarte, SP/ até 13/11 ATELIÊ FIdALGA/ Galeria Carlos Carvalho, Lisboa, Portugal/ até 21/10 PHOTOFIdALGA/ Carpe diem Arte e Pesquisa, Lisboa, Portugal/ até 21/11

Redes Obras de Bettina vaz Guimarães (no alto) e de Marina Palma: afinidades

Uma exposição coletiva coloca 55 artistas lado a lado, no Complexo Cultural Funarte, em São Paulo. Porém, diferentemente dos projetos expositivos que são alinhavados por uma ideia, esta mostra não se estrutura sobre as afinidades estéticas e conceituais entre os trabalhos. Este é o grande diferencial da exposição "Em Torno de": em vez de características definidas por um elo curatorial, o que aproxima os selecionados são seus processos criativos. No trabalho semanal a que esses artistas se dedicam, no paulistano Ateliê Fidalga, sob a coordenação de Sandra Cinto e Albano Afonso, existe o compromisso de um processo de criação assistido e compartilhado entre todos.

Com o ambiente do ateliê impregnado ao espaço da Funarte, os trabalhos se apresentam como obras autônomas, porém enredadas umas às outras pelos processos de troca e de discussão que se estabelecem entre os artistas. "Não há um tema em comum. A relação entre os trabalhos acontece por afinidade natural e mútuo conhecimento", diz Sandra, que deu origem ao Grupo de Estudos do Ateliê Fidalga há quase 20 anos.

Embora sem um grande tema em comum, é possível estabelecer núcleos de "conversas" entre as obras. Antonio melloneto, marcelo Amorim e Henrique de França, por exemplo, se encontram nas reminiscências da memória. Já Renata Ursaia, Bettina Vaz Guimarães, Lulli, Reginaldo Pereira e marina Palma se debruçam sobre as naturezasmortas e os universos domésticos; e a desconstrução da identidade aproxima os trabalhos fotográficos de ding musa e Pedro Capeletti. Além da mostra na Funarte, o grupo expõe atualmente em dois espaços de Lisboa. "Ateliê Fidalga", na Galeria Carlos Carvalho, e "Photofidalga", que apresenta fotografias inspiradas pela frase "Carpe diem" ("Aproveite o dia" em latim), que dá nome à galeria.

Colaborou Fernanda Assef

 

 

9/10/2009


 
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