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A terceira geração dos vinhos
Bebida produzida na China, Índia, Argélia e no Marrocos já disputa o mercado internacional

Claudia Jordão

FOTO: MIKE CLARKE/AFP
POTÊNCIA Fundada em 1980, a Dynasty é a maior e mais antiga vinícola chinesa

É o segundo baque que os produtores de vinho do Velho Mundo - leia-se Europa - sofrem em duas décadas. Nos anos 90 tiveram de engolir a invasão de rótulos do Novo Mundo, como dos Estados Unidos, da Austrália, Argentina, África do Sul e do Chile.

Agora, assistem à chegada de bebidas produzidas na China, Índia e em países do norte da África. É claro que, em geral, o vinho feito na Europa, especialmente na França, se mantém no topo da lista quando o assunto é tradição e terroir (qualidade de solo e do clima).

Mas é fato, também, que a produção do Novo Mundo, que surgiu rústica, evolui a cada safra e hoje é um concorrente de peso. Por causa dessa competição, a Europa está perdendo terreno - o continente responde por menos da metade da produção mundial da bebida.

E o medo é de que os novos forasteiros conquistem ainda mais mercado. Apesar de estarem mais para suco de uva alcoólico do que para vinho de qualidade, os rótulos dessa terceira geração começaram bem sua empreitada mercadológica. Grande parte dos chineses e indianos é consumida internamente - e, em se tratando de nações populosas, isso não é pouco.

Cerca de 90% do vinho "made in China" é bebido lá, onde a indústria se consolida a cada ano - em 2007, cresceu 37,05% e, em 2008, 23,83%. Europeus, que encontram dificuldades burocráticas de entrar nesses países, lamentam o revés, especialmente porque essas populações vêm aumentando seu poder de compra.

A Índia, que planta uvas como cabernet sauvignon e pinot noir em regiões altas como Maharashtra, é outro país que descobriu o vinho. Desde 2001, o consumo aumenta 25% ao ano. O norte da África, que aliou a expertise dos próprios franceses, que colonizaram a região, ao clima mediterrâneo, de dias quentes e noites frescas, está coberto de vinícolas de carignan e clairett, entre outras, do Marrocos ao Egito.

E também dobrou a sua produção de 2000 para cá. Hoje, produz 8,5 milhões de garrafas e exporta para a Europa. O cenário ainda tem potencial de crescimento. A sommelier Deise Novakoski é uma das poucas brasileiras a degustar um vinho chinês. O escolhido foi o Great Wall, um cabernet sauvignon, de Hebei. Essa região, junto de Jilin, é responsável por 70% da produção da China, onde há 140 vinícolas.

Deise acredita que a bebida chinesa vai se tornar superior com o tempo. Ela explica que é preciso pelo menos dez anos para as raízes de uma parreira ultrapassarem o lençol freático e começarem a trazer características do terroir. "O gosto de pimentão era muito intenso no vinho", diz ela. "Isso acontece quando a parreira de cabernet sauvignon é jovem."

Para chegar lá, chineses e indianos contratam enólogos da Europa e investem em tecnologia, cuja importância é cada vez mais reconhecida no setor. Economistas da Universidade Livre de Bruxelas e da Universidade de Reims analisaram 100 vinícolas e constataram que o terroir influencia menos que a tecnologia no resultado final de um vinho. E, nesse quesito, os franceses, que sofrem as consequências do aquecimento global e estão sujeitos à legislação que valoriza a tradição e condena a tecnologia, já saem perdendo.

 

 

9/10/2009


 
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