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Brasil  
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Ciro muda o jogo
O crescimento do candidato do PSB e de Marina Silva nas pesquisas mostra que o eleitor não quer apenas um plebiscito entre PT e PSDB

Sérgio Pardellas

Fotos: RobeRto CAstRo/Ag. istoÉ; DiVulgAÇÃo
"Espero que o presidente diga que eu também sou um nome capaz de seguir com as mudanças no País"
Ciro Gomes (PSB-CE)

Especialistas em pesquisas eleitorais são unânimes ao afirmar que a mais de um ano das eleições a intenção de voto atribuída a cada candidato não pode ser considerada consolidada. Essas mesmas pesquisas, no entanto, segundo os analistas, indicam com segurança qual é o desejo do eleitor. Nesse sentido, os resultados da pesquisa CNI/ Ibope divulgada na última semana mostram que a mensagem transmitida aos políticos é muito clara: o eleitor quer novidade. Não necessariamente juventude ou um nome desconhecido, mas sim uma disputa que passe longe das eleições plebiscitárias, entre PT e PSDB, que se repetem no País desde 1994. O crescimento das candidaturas da senadora Marina Silva (PV-AC) e, principalmente, do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), hoje com 17% e em segundo lugar, já repercutiram tanto no PT como no PSDB. Em São Paulo, embora ainda se mantenha na liderança da pesquisa, o governador tucano, José Serra, reuniu seu QG para avaliar a queda de quatro pontos percentuais e já admite assumir publicamente a candidatura antes do final do ano.

Fotos: RobeRto CAstRo/Ag. istoÉ; DiVulgAÇÃo
"Minha candidatura representa a renovação e a pesquisa é gratificante"
Marina Silva (PV-AC)

No PT e entre os partidos aliados do presidente Lula, a queda nas intenções de voto na ministra Dilma Rousseff, também de quatro pontos percentuais, provocou reações mais fortes. A estratégia traçada por setores do governo para os próximos meses será a de desconstruir a candidatura de Ciro Gomes. À frente da operação está o ex-ministro José Dirceu. "Sei que vem muita pancada por aí, preciso ter paciência", constatou Ciro em entrevista à ISTOÉ na última semana.

A intenção dos apoiadores da ministra da Casa Civil é fazer com que o pré-candidato pelo PSB perca musculatura política até o início do próximo ano. "Vamos explorar as incongruências do discurso econômico e político de Ciro", adianta um petista com trânsito livre no Planalto. A senha foi dada por Dirceu em viagem ao Nordeste durante a semana passada.

Em entrevista para rádios no Ceará, o ex-ministro apontou suas baterias na direção do pré-candidato socialista. "Se o PSB insistir na tese de duas candidaturas na base governista para presidente, vamos fazer o mesmo nos Estados, lançando candidatos do PT onde o PSB tem nomes consolidados", ameaçou Dirceu numa referência aos Estados do Ceará, Pernambuco e Paraíba. "O Ciro não concorda com a estratégia plebiscitária. Ele quer ser presidente da República com a anuência de Lula. Mas nem o PT nem Lula vão abrir mão da hegemonia do processo", completou o ex-ministro.

Depois da entrevista, Dirceu seguiu para um encontro, em um apartamento no bairro Meirelles, com o governador do Ceará, Cid Gomes. Pretendia convencer Cid a demover o irmão deputado da candidatura. Em vão. Cid se recusou a falar sobre sucessão presidencial, em quase uma hora de conversa.

As declarações de Dirceu caíram como uma bomba no PSB. Um dos principais líderes do partido na Câmara, o deputado Beto Albuquerque (RS) reagiu, dizendo que não se pode negar o tamanho do PSB no Nordeste.

"Quem mais perde com um eventual rompimento é o PT", avisa. Ciro não entende que seja uma ameaça ao projeto governista. Pelo contrário.

"Duas candidaturas são necessárias.

Não nutro a expectativa de Lula e o PT não lançarem Dilma. Só espero que, com a minha candidatura consolidada, o presidente diga que, além de Dilma, eu também sou um nome capaz de seguir com as mudanças que o País vem implementando", disse o deputado cearense à ISTOÉ. Ele acredita ter fôlego para atingir 25% dos votos. Para seguir em frente com o seu projeto, Ciro se fia num acordo tácito celebrado entre ele, o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e Lula em julho. Os três estabeleceram o mês de fevereiro como prazo-limite para a definição das candidaturas governistas. "Nós continuaremos construindo o nome do Ciro. Com este cenário atual, ele é candidato", disse Campos. Até o final do ano, Ciro vai percorrer pelo menos 50 cidades.

Numa outra frente, o partido trabalha para fortalecer os palanques estaduais.

A filiação do exsecretário de Educação de São Paulo Gabriel Chalita ao PSB, para sair candidato ao Senado, atende parte deste propósito. Ligado ao ex-governador Geraldo Alckmin, Chalita foi o campeão das urnas do País no ano passado, elegendo-se vereador com 102 mil votos.

Fotos: RobeRto CAstRo/Ag. istoÉ; DiVulgAÇÃo
OFENSIVA Para reverter os números, o PT quer relançar a candidatura da ministra Dilma

Outros partidos da base governista também reagiram à pesquisa. Em conversas com a cúpula do PSB, o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, admitiu apoiar o candidato socialista, caso a candidatura da ministra continue patinando até o início de 2010. O que mais preocupa os comunistas é a alta taxa de rejeição da candidata. Segundo a pesquisa CNI/ Ibope, em três meses, os eleitores que disseram não votar "de jeito nenhum" em Dilma passaram de 34% para 40%. Na avaliação de integrantes do PCdoB e até do PTB governista, o temperamento de Dilma tem jogado contra ela. "Fizemos uma ampla reunião com a bancada de Pernambuco para comemorar a indicação de José Múcio para o TCU e Dilma, além de não aparecer, nem sequer deu um telefonema. Por essas e outras é que vou fazer campanha para o Ciro", disse à ISTOÉ um parlamentar do PTB. O próprio José Dirceu admite que a campanha da candidata de Lula precisa mudar. Com os partidos aliados em cima do muro, a boia de salvação mais uma vez passa a ser o PMDB, que tem a oferecer estrutura nos Estados e tempo de televisão. O comando da campanha de Dilma também planeja um grande comício de relançamento da candidatura nas próximas semanas. "Essa situação exige definições que não podem mais esperar. É um trabalho que deve ser iniciado pela definição do vice e intensificação dos entendimentos com o PMDB", disse Dirceu.

Fotos: RobeRto CAstRo/Ag. istoÉ; DiVulgAÇÃo
ALERTA Em São Paulo, Serra reuniu o QG e admite oficializar candidatura

O fato é que as últimas pesquisas de intenções de voto mostram que a eleição presidencial está longe de uma definição. Os números revelam que parte expressiva do eleitorado anda inquieta, em busca de novas opções. A senadora Marina Silva (PVAC), que apareceu com índices entre 6% e 11% da preferência do eleitor, também reflete isso. Sua bandeira de preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentado é contemporânea. Está ganhando espaço nas ruas. "Marina não só atrai os eleitores insatisfeitos com o PT como também encanta os mais jovens, interessados nesse discurso mais do que atual", diz o cientista político Antonio Lavareda.

"O resultado da pesquisa é gratificante e minha candidatura representa a renovação", afirma a senadora. Mesmo José Serra, em primeiro lugar com 35% da preferência do eleitorado, não pode dar a eleição como favas contadas. Um caso exemplar é o da eleição à Prefeitura de São Paulo em 2008, quando a candidata do PT Marta Suplicy foi derrotada por Gilberto Kassab no segundo turno, mesmo figurando com quase 40% dos votos durante boa parte da campanha. A sucessão de Lula, portanto, está mais em aberto do que nunca.

Fotos: RobeRto CAstRo/Ag. istoÉ; DiVulgAÇÃo
PORTA ABERTA Temer tem pressa, pois Quércia quer PMDB com tucanos

ME AJUDA QUE EU TE AJUDO

Ciente de que ainda não tem votos para aprovar uma aliança com o PT, o presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP), cobrou uma definição dos petistas. A pressão deu resultado. Diante da última pesquisa de opinião, que mostrou recuo de Dilma Rousseff, o PT concordou em firmar, em outubro, um compromisso com o PMDB. Os dois partidos vão anunciar a criação de um programa comum de governo e ficará expresso que o PT fará o cabeça de chapa e o PMDB, o vice.

A ajuda é mútua. O PT teme que com a indefinição nos Estados e sua candidata empacada a maioria do PMDB possa virar a favor do PSDB. Já Temer acredita que, com o acordo, poderá avançar na escolha de seu nome para vice de Dilma. Falta combinar com a ala serrista do PMDB, para quem Temer vende o que não pode entregar. "Os entendimentos estaduais é que nortearão a posição nacional", disse o ex-governador Orestes Quércia, um dos apoiadores de Serra.

 

24/9/2009


 
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