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ARTE E INDÚSTRIA Obra de Vasarely (à esq.), que montou ateliê na fábrica, e foto de Doisneau, que fez as campanhas publicitárias |
UMA AVENTURA MODERNA - COLEÇÃO DE ARTE RENAULT/ MAC USP Ibirapuera, SP/ de 11/9 a 15/12 RENAULT DE DOISNEAU/ Centro Cultural Fiesp, SP/ de 26/10 a 6/12
No final dos anos 60, no auge da crítica às grandes empresas e ao capitalismo, o artista suíço Jean Tinguely começou a fazer esculturas com peças industriais. "Eos VIII" e "Bascule V" eram basicamente duas belas máquinas sem função alguma que não fosse produzir ruidosos movimentos gratuitos. O detalhe: as peças utilizadas e o motor para fazê-las funcionar foram criados em parceria com uma empresa automobilística, a Renault. "Era um época muito politizada e as grandes empresas eram vistas como o grande vilão. Ainda assim, os artistas percebiam na proposta da Renault uma boa oportunidade", explica Ann Hindry, curadora do acervo da Renault, que está no Brasil para apresentar a coleção de arte da montadora francesa, na exposição "Uma Aventura Moderna". "Era como se uma empresa dissesse ao artista: 'Nós estamos interessados, vocês estão isolados. Vocês não tem dinheiro, nem espaço, nem material. Nós podemos ajudar. E se não gostarem podem ir embora.' Era um bom negócio."
A intenção do projeto era aproximar o mundo das artes plásticas e o da indústria mas, em vez de comprar obras prontas, a empresa convidava os artistas para utilizar a fábrica como ateliê e trabalhar sobre o universo das linhas de montagem. Em 18 anos, a Renault reuniu um acervo de 300 obras contemporâneas, produzidas entre 1967 e 1985.
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ENGENHOCAS Tinguely fez a escultura "Bascule V" com peças industriais |
Segundo a curadora, a única recusa foi do escultor francês César, que queria amassar todos os carros de uma nova frota em uma escultura gigante. "Era uma ideia muito cara", diz Ann Hindry. Radicalismos à parte, a Renault seduziu importantes artistas da época, como o húngaro Victor Vasarely, inventor da op-art; o argentino Julio Le Parc, que trabalhava em Paris no grupo de Vasarely; a francesa Niki de Saint-Phalle; o francês Jean Dubuffet; e o americano Robert Rauschenberg, que reinventou a pintura nos anos 60, com suas combine paintings, pinturas que combinavam gravura, fotografia e colagem.
A colaboração de Rauschenberg com a empresa automobilística aconteceu no parque fabril da American Motors-Renault, no estado americano de Wisconsin, nos anos 80, e gerou mais uma de suas impactantes combine paintings.
Para a exposição, que já passou pelo Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, a curadora selecionou 96 obras de 17 artistas contemporâneos. Essa colaboração entre os universos artístico e industrial foi especialmente produtiva no caso dos artistas que desenvolviam pesquisas ópticas, cinéticas e com movimentos virtuais. Mas os resultados desse mecenato são irregulares. Entre os bons momentos da coleção figura também uma série de fotografias de Robert Doisneau que registram o cotidiano das fábricas.
Doisneau é o autor de "O Beijo do Hotel de Ville", de 1950, que está para a fotografia assim como a "Monalisa" está para as artes plásticas. É o maior hit fotográfico de todos os tempos. Mas o contrato de Doisneau com a Renault antecede "O Beijo". Com 116 fotografias, a exposição "A Renault de Doisneau", que será inaugurada em outubro no Centro Cultural Fiesp, conta melhor esta história. Doisneau foi contratado pela empresa em 1931, aos 22 anos, como "photographe balladeur" (fotógrafo itinerante), para documentar a vida na fábrica.
A série não retrata apenas a transformação da indústria do automóvel, mas a formação de um fotógrafo. Em 1939, Doisneau foi despedido por excesso de atrasos. Mas ele costumava afirmar que para ele a indisciplina e a curiosidade eram vitais. Seu retorno foi triunfal: em 1946, agora com a carreira consolidada, ele voltaria a ser contratado pela Renault, para quem trabalharia até 1955 clicando para as campanhas publicitárias da marca.
Colaborou Fernanda Assef
Bate-papo
Elliott Erwitt
"Fotografe por hobby"
Elliott Erwitt é um mito do fotojornalismo. Veterano da Magnum Photos, trabalhou ao lado de Robert Capa e Henri Cartier-Bresson. É autor de imagens tão díspares quanto Marilyn Monroe em ensaio sensual, um soldado sorrindo em meio a um fogo cruzado ou cachorrinhos passeando com desconhecidos. Aos 91 anos, Erwitt terá fotografias expostas na feira SP-Arte/Foto, entre 10 e 13 de setembro, e na coletiva "Magnum Photos", que a Galeria de Babel organiza no Centro Cultural b_arco, em São Paulo, até 12 de outubro. Na mostra da Magnum, uma surpresa: cinco filmes documentais dirigidos por Erwitt na mostra "Magnum in Motion".
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Erwitt (à esq.) apresenta filmes em São Paulo |
Ainda prefere imagens em preto e branco?
Eu não diria isso. Em geral, no meu trabalho, prefiro as imagens em P&B, mas gosto de coloridas também.
Pela primeira vez as pessoas irão assistir a alguns de seus filmes no Brasil. Você tem um favorito?
"Beauty Known No Pain" (1972). É sobre cheerleaders.
O que atrai sua câmera hoje?
O mesmo de antes. Eu adoro viajar e tirar fotos.
O que você diria a um fotógrafo que está começando?
Desista. Fotografe por hobby. Não vale a pena.
Mas a Magnum era apenas um grupo de quatro pessoas tentando sobreviver como fotojornalistas. Hoje é uma grande agência. Esse não é um bom sinal?
Não. De verdade. Nada mudou.
Fernanda Assef |