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Leonardo Attuch
Ícaro Batista
Eike, o homem mais rico do Brasil, quer a Vale. Mas, se chegar perto do sol, as asas poderão derreter

attuch@istoe.com.br

Ícaro era filho de Dédalo. Este foi um dos homens mais criativos de Atenas, que construiu o labirinto do rei Minos, de Creta, para aprisionar o Minotauro. Na velhice, Dédalo teve uma ideia brilhante. Juntou várias penas de aves, de diversos tipos, e colou-as com fios de cera para que seu filho Ícaro pudesse voar. Mas deu um aviso: o de que não se aproximasse demais do sol, para que suas asas não derretessem.

Eike Batista é filho de Eliezer, uma das mentes mais geniais do Brasil, que ajudou a construir a mineradora Vale e foi um de seus presidentes. De alguns anos para cá, Eike começou a voar. Segundo seus detratores, ganhou altitude depois de receber do pai o mapa do subsolo brasileiro. Eike criou uma mineradora, a MMX, que chamava carinhosamente de "mini-Vale".

E vendeu metade dela por US$ 5 bilhões, quando a empresa se encontrava em fase pré-operacional. Depois lançou ações de várias outras companhias, MPX, OGX e LLX, até se tornar o homem mais rico do Brasil, com patrimônio de US$ 20 bilhões. Chegou tão perto do sol que ousou lançar um desafio aos deuses.

Disse que, em pouco tempo, teria a maior fortuna do mundo. Até agora, o voo de Eike tem sido tão surpreendente quanto o de Ícaro. Se o sonhador da mitologia grega cruzava os céus com asas improvisadas, o empresário brasileiro foi lançado ao espaço graças a um espetacular momento da economia mundial, quiçá uma bolha, que lhe permitiu fazer bilhões vendendo promessas.

Quando veio a crise, as ações derreteram, mas já se recuperaram. E agora, depois do susto, o empresário tem um novo sonho: o de se tornar dono da Vale, a maior empresa privada do Brasil, avaliada em mais de R$ 190 bilhões. Com o sinal verde do presidente Lula, Eike depende apenas de um acordo com o Bradesco, atual controlador da Vale.

Embora tenha se encantado com a beleza do sol, Eike é também habilidoso e inteligente. Já foi alvo de uma ação da Polícia Federal e sabe que, no Brasil, os grandes negócios caminham de mãos dadas com a política. Patrocinador do filme "Lula, o Filho do Brasil", com uma doação de US$ 1 milhão, ele pretende entrar no bloco de comando da Vale, numa negociação que também favoreça os planos do governo de torná-la alinhada com aquilo que, no Planalto, se chama de "estratégia nacional de desenvolvimento".

Em outras palavras, uma empresa que exporte menos minério de ferro e mais aço. Se for suficientemente jeitoso, Eike conseguirá escapar à maldição de Ícaro, realizando um verdadeiro milagre: o de transformar penas de pássaros, coladas por fios de cera, num foguete supersônico

 

 

11/9/2009


 
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