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Richard Nisbett
"A inteligência pode ser construída"
Cientista diz que a genética é importante, mas o ambiente é fundamental para o desenvolvimento intelectual de cada um

por Cilene Pereira

ESTÍMULO Nisbett orienta os pais a usar um vocabulário mais rico para conversar com seus filhos

Durante muito tempo, prevaleceu entre estudiosos da inteligência a ideia de que a capacidade intelectual tinha uma forte raiz genética - e que, por isso, aqueles que não tinham sido privilegiados pelos genes pouco poderiam fazer para aumentar seu desempenho. No livro "Intelligence and How to Get it" (Inteligência e como alcançá-la), lançado recentemente nos Estados Unidos, o pesquisador americano Richard Nisbett derruba esse conceito. Baseado em vários estudos, o cientista confirma que a inteligência tem um componente genético, mas isso não impede que seja construída e desenvolvida para além dos limites impostos pelos genes. Nisbett acredita que intervenções simples, em casa e na escola, contribuem para que cada criança alcance o máximo do desempenho intelectual. "E um dos primeiros passos para isso é ajudar as pessoas a acreditar que podem se tornar mais inteligentes", diz. Professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, ele deu a seguinte entrevista à ISTOÉ.

ISTOÉ - Quais as evidências de que o ambiente é mais importante do que a genética para a inteligência?

Richard Nisbett - Muitos pesquisadores superestimaram o papel da genética porque não levaram em consideração que os genes sempre interagem com o ambiente para ter um efeito. Um indivíduo com genes para ser alto está mais propenso a ter experiências que podem fazer dele um bom jogador de basquete do que outro com genes para ser baixo. Dependendo do jeito de analisar a questão, isto pode mostrar que a habilidade para o basquete é genética. Mas se você privar as pessoas mais altas de experiências com o basquete e der muitas oportunidades para as baixas de praticar esse esporte, você vai continuar achando que a habilidade para o esporte é genética - mas mostrando que quanto mais baixo você é, melhor você joga.

ISTOÉ - Quais as implicações da descoberta da importância do ambiente para a inteligência na vida das pessoas?

Nisbett - Quando as pessoas perceberem que a inteligência é algo que está substancialmente sob o controle delas, vão trabalhar mais duro para aprender e irão cobrar de maneira mais efetiva uma escola de qualidade melhor para seus filhos. Elas precisam acreditar que a inteligência pode ser construída.

"Os asiáticos em geral fazem mais com sua capacidade intelectual do que nós, ocidentais. Eles costumam ter notas mais altas em exames"

ISTOÉ - Ser pobre ou rico interfere na inteligência?

Nisbett - Existe uma diferença na média do quociente de inteligência - QI - de ricos e pobres. Parte disso é resultante da genética. Pessoas mais inteligentes têm de fato genes que as predispõem a isso. E esses mesmos indivíduos costumam ter progresso na vida e melhorar seu status social. E eles acabam passando as duas coisas para seus filhos - os genes e a condição social.

ISTOÉ - Este tipo de informação não aumenta o preconceito ao avaliar as pessoas e suas capacidades com base na sua condição social?

Nisbett - Não se pode fazer generalizações deste tipo. Todos devem ser analisados conforme seus méritos. Minha crença no poder do ambiente para o desenvolvimento da inteligência me impulsiona a fazer o que for possível para que as pessoas alcancem o máximo potencial e lutem por uma melhor socialização e escolarização para seus filhos. Isto também me faz querer um Estado que ofereça uma educação melhor e que reduza as diferenças entre os padrões de vida das populações.

ISTOÉ - Mas, sem estas condições ideais, os pobres estariam condenados a ter um QI mais baixo?

Nisbett - Eles não estão condenadas a ser menos inteligentes. Há muitas ações que as populações com menor poder aquisitivo podem adotar para que seus filhos tenham um bom desenvolvimento intelectual.

ISTOÉ - O que, por exemplo?

Nisbett - Parar de criar os filhos para obedecer. A obediência é um valor que os indivíduos com menor poder aquisitivo tendem a enfatizar mais para seus filhos. E este valor não encoraja as crianças a atividades que possam deixá-las mais espertas.

ISTOÉ - Que outros equívocos os pais mais pobres cometem?

Nisbett - Eles lêem menos para seus filhos do que os mais ricos, perguntam menos sobre o entendimento das crianças a respeito das leituras. Enfim, estimulam menos, conversam menos.

ISTOÉ - Uma sociedade com maior número de pessoas com QI alto seria mais cooperativa e solidária?

Nisbett - Não tenho uma opinião formada a respeito disso.

ISTOÉ - Seria correto dizer que os países desenvolvidos dominam as relações no mundo porque seus cidadãos apresentam níveis mais altos de QI?

Nisbett - Acho que isso precisa ser visto de outro modo. As populações dos países desenvolvidos têm QI mais elevado porque suas sociedades demandam altos níveis de inteligência. Conforme as sociedades enriquecem, vão se tornando mais inteligentes. E, na medida em que vão ficando mais inteligentes, vão se tornando mais ricas.

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4/9/2009


 
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